Uma das virtudes de uma grande narrativa é o poder de conectar as três partes que a compõem de forma harmoniosa: princípio, meio e fim. Uma progressão linear que visa atingir no final aquilo que se perspetivou no início. Nem sempre dá certo, mas a história fica sempre para ser contada e recordada. E a história de Maurício Pochettino no Tottenham ficará na memória do futebol com um dos melhores trabalhos da década.
Há 5 anos e meio começava o que parecia ser um casamento perfeito. Um treinador que tinha somado bons resultados no Espanyol e no Southampton e um clube que ficara em 6.º lugar na temporada passada que procuravam um no outro a afirmação no futebol mundial.
A primeira temporada indicou prognósticos otimistas para uma equipa em construção e a gestão de Pochettino parecia provar que a decisão do clube em contratá-lo tinha sido acertada. O estilo de jogo era atrativo, jogadores como Rose, Walker e Eriksen mostraram uma evolução significativa, foram promovidos jovens como Harry Kane (poucos recordam que em 2013, Kane vinha de um empréstimo ao Leicester – na altura no Championship – e era suplente de Soldado), Mason e Bentaleb e quase quebrava o tabu de títulos (perdeu a final da Taça da Liga para o Chelsea).
Esta base sólida permitiu que se desse o próximo passo. Chegaram pedras fundamentais como Son, Alderweireld e Trippier, Dele Alli surgiu do nada vindo do MK Dons, Dier veio por meia dúzia de tostões e criou-se a certa altura a esperança até de conseguir o título da Premiership, que acabou nas mãos do Leicester.
A época seguinte superou ainda mais as expectativas que se foram criando. 86 pontos ao final da temporada, um registo em casa impecável (17 vitórias e 2 empates), um futebol avassalador com várias goleadas (melhor ataque da competição) – o Tottenham praticava de longe o melhor futebol em Inglaterra. Mas no fim perdia novamente, para o pragmático Chelsea de Conte. Em 17-18, contra o Man City dos 100 pontos, a temporada acabou na indiferença, apesar de pinceladas de glória com momentos como a vitória por 3-1 frente ao na altura campeão europeu Real Madrid.
18/19 tinha tudo para ser o fim perfeito. Foi há pouco mais de 5 meses mas já parece tirado de um sonho longínquo ou de uma lenda há muito contada. Este clube esteve, com este treinador, na final da Liga dos Campeões, o maior jogo de futebol de clubes, há 170 dias apenas. A corrida para essa final histórica foi envolta numa irrealidade imensa: sem contratar ninguém nas últimas 2 janelas de mercado; perder o seu melhor jogador e mesmo assim eliminar o todo-poderoso Manchester City; perder jogo e meio para o Ajax nas meias-finais apenas para conquistar a vaga na final no último minuto com um hat-trick do improvável Lucas Moura. Aquela noite em Amsterdão já é parte da mitologia dos Spurs. Foi o apogeu máximo do drama, uma espécie de milagre. Mas perdeu a final para o Liverpool e a grande narrativa não atingiu o fim glorioso que se perspetivava.
Domesticamente, o desgaste já se notava desde o final dessa mesma época. Na segunda metade da época o Tottenham fez apenas 26 pontos, constrastando com os 45 conseguidos na primeira metade e mal deu para segurar a 4.ª posição. E esta época o descalabro alastrou-se, culminando em apenas 3 vitórias nas primeiras 12 jornadas e um embaraçoso 14.º lugar.
Maurício Pochettino conheceu assim um triste fim para a sua narrativa no Tottenham Hotspurs, mas a sua história deve ser lembrada e respeitada. Foram quatro temporadas seguidas no top-4 da Premier League, 3 delas no top-3. Para se ter uma noção, o último terceiro lugar havia sido em 1990. O argentino redimensionou o clube e pagou o preço do sucesso que alcançou. Tornou um clube de Liga Europa no vice-campeão europeu e num gigante inglês e o clube é neste momento muito mais atrativo do que quando a ele chegou. Ganhou 0 títulos, mas a memória no futebol importa e Pochettino deixa um legado inesquecível.
Vem agora Mourinho, num terminar de ciclo e iniciar de outro. Fará o português jus a um trabalho de alto nível que durou 5 anos (e meio… pecou por não terminar nos 5)? Precisa de se reinventar, mas será curioso perceber o que esta pausa de 1 ano trouxe de diferente ao Special One. Condições tem, tempo terá. Irá a próxima década trazer finalmente aos Spurs os títulos que Poch tanto procurou mas nunca encontrou? Este clube já merece, por isso, por mim, e apesar de não ser o maior fã da personagem, toda a sorte do mundo Mou.
Visão do Leitor: Afonso Ascensão


6 Comentários
André Dias
Aqueles 86 pontos na PL davam para conquistar praticamente qualquer campeonato mas nessa época não foram suficientes. A época em que o Leicester se sagrou campeão também foi uma desilusão para o Tottenham (e para o Arsenal) já que todas as outras Big 6 fizeram épocas abaixo das expectativas. E no fim uma final da CL perdida. Um trabalho de tamanha qualidade não merecia um desfecho tão ingrato.
Ficam as memórias de um excelente futebol, os vários jogadores potenciados com Kane à cabeça e a constante postura correcta. Um exemplo. Se eu fosse presidente de um clube nem lhe telefonava, ia directamente bater-lhe à porta de casa para o contratar imediatamente.
Deco10
Nem sou grande fã de Pochettino, acho que lhe faltou o toque final (títulos) para um trabalho muito bom… no entanto acho que era a melhor contratação possível para o nosso United neste momento. Estamos numa fase parecida à que estava o Tottenham há uns anos já com Pochettino e o argentino conseguiu levar a equipa a um patamar mais elevado (mais uma vez, faltou depois o último toque) e neste momento é o que precisamos, levar estes jovens que temos ao próximo patamar.
Só espero que o Woodward esteja atento, apesar de não estar completamente desagradado com o trabalho de Solskjaer (está a abrir portas a muitos jovens da academia que estão a mostrar serviço), Pochettino é uma oportunidade boa demais para não aproveitar.
André Dias
Concordo plenamente. Eu já disse aqui várias vezes que Pochettino seria a minha escolha para o Man Utd. É um treinador com a mesma filosofia de Solskjaer, o que é extremamente positivo, mas seria também um upgrade a nível de processos colectivos.
Por outro lado, tenho pena se Solskjaer não fizer a época até ao fim. Mereceu essa oportunidade e é uma pessoa com quem simpatizo imenso.
Kacal
O Tottenham tinha que ter ganho um troféu importante nos últimos anos, teve 2 ou 3 timings certos, sendo um deles na época passada na Champions, não aconteceu e as coisas vão ficando saturadas e começam a deixar de ter o mesmo espírito positivo. Pochettino fez um trabalho fantástico nos Spurs com futebol de qualidade, jovens potenciados e sempre com um registo saudável no futebol, mas o seu tempo acabou no fim da época passada. Vamos ver se Mourinho concluí o trabalho e finaliza-o com troféus.
coach407
Mourinho não precisa de se reinventar. Mourinho precisa é de ganhar. Seja à velho Mourinho que vimos tornar-se uma lenda seja a tal reinvenção que tanto se fala como se isso fosse acontecer (não vai).
Se fizer como nas 2 épocas de United (o último meio ano foi péssimo) já é ótimo para os Spurs. Passar de 0 para 3 troféus e um 2° lugar em 2 anos não seria nada mau já que claramente estão fora do top 2 da Premier League.
Isto para começar estaria bastante bem, mas convém que Mourinho deixe de fazer 2 épocas boas e a terceira seja um descalabro total.
Se fizer duas épocas, em termos de resultados, semelhantes às do United está bom. A partir daí tem de continuar a subir o nível e não cair a pique como o costume.
Dca
Excelente texto gostei muito! Parabéns!