“O meu sonho é ser jogador de futebol!”. Tantas e tantas vezes, ouvimos diversos miúdos por esse mundo fora, fazerem esta afirmação. Crianças que ficam com um brilho nos olhos sempre que se colam à televisão, vendo os seus ídolos em ação. De facto, muitos sonham com a concretização de tal desejo infantil, no entanto, uma ínfima parte deles conseguem realmente cumpri-lo. Real Madrid, Liverpool, Barcelona, Juventus, Bayern de Munique entre alguns outros, serão sempre clubes de referência para a grande maioria das crianças a nível mundial. E porquê? Talvez porque lá jogam os melhores jogadores do mundo, aqueles que os fazem sonhar e que tantas e tantas vezes os prendem à televisão, ou apenas por serem as melhores equipas dos melhores campeonatos e por isso aqueles que estão sempre mais próximos de vencer. Com alguma frequência vemos crianças dos mais diversos países querem jogar nesses clubes, trabalhando para que um dia a sua oportunidade possa chegar.
Contudo, existe um amor paralelo aquele sentido pelos seus ídolos. O amor ao seu clube. Olhamos para clubes históricos como o Boca Juniores ou o River Plate e provavelmente não encontraremos muitas crianças do nosso país a sonhar em vestir uma dessas duas camisolas. No entanto, caso estejamos a passear pelas ruas de Buenos Aires e perguntarmos às crianças que vamos encontrando pelo caminho, uma quantidade significativa apontará para um desses clubes como um dos maiores sonhos das suas vidas.
Na verdade, mesmo os maiores clubes do mundo, aqueles que absorvem a grande maioria da nata do futebol mundial, não abdicam de ter sempre nas suas equipas uma base local. Olhemos para o Barcelona de Guardiola, para o Bayern Jupp Heynckes, para o United de Ferguson, para o primeiro Chelsea de Mourinho, para o Real de Zidane Tricampeão europeu, para o surpreendente Ajax da época passada ou para o F.C. Porto campeão europeu em 2004 e qual é o denominador comum? Uma base sólida de jogadores nacionais. Um núcleo de líderes que muitas vezes se confundem e fundem entre jogador e adepto. Constatar esta realidade faz-me ter vontade de questionar o seguinte: “Mas então, se mesmo aqueles clubes onde todos sonham jogar, precisam de uma base nacional para poderem singrar. Como podem clubes periféricos abdicar dessa mesma base e pretender ter sucesso?”. Será que nesse nosso passeio por Buenos Aires, ouviremos crianças dizerem que sonham jogar no Benfica, no Porto ou no Sporting? Nunca fiz tal experiência, mas arrisco-me a dizer que nenhuma o dirá. Será que a missão de reter Rúben Dias é tão complicada para o Benfica, como seria para o Porto reter o Éder Militão? Será que para ser capitão de uma equipa basta ser profissional, mas sem paixão?
Como português e adepto de um clube português e como seguidor do nosso futebol, penso que apenas existe um caminho para relançar internacionalmente os nossos clubes. O segredo está cá dentro e nós sabemos disso mesmo. Nunca ou quase nunca teremos os melhores jogadores do mundo. Mas podemos ter os mais apaixonados, os que mais vibram e os que mais tornam os nossos clubes especiais.
Profissionalismo e paixão são aspetos muito distintos. E se o primeiro está longe de garantir o segundo, muitas das vezes o segundo por si só garante o primeiro. Resta-nos esperar que os clubes portugueses invertam o rumo das coisas e voltem a dar mais peso aquilo que de verdade importa.
Visão do Leitor: Santander


10 Comentários
El Pipito
Sai contrato vitalício para o Rúben Dias!
Joga_Bonito
Isso é legalmente possível? Admito que não sei, mas acho que não.
Filipe Ribeiro
Isso já foram tempos, a mentalidade é outra nesta sociedade, agora a única paixão é o dinheiro.
Antes haviam jogadores que não aceitavam certos clubes por não irem ter tempo de jogo, ou como o Simonsen bola de ouro que foi para a segunda liga inglesa que não queria lidar mais com pressão dos grandes clubes.
Hoje há jogadores milionários que fazem carreira como aquecedores de bancos e não querem saber desde que a conta se mantenha recheada.
Muska
Paixão também é diferente de qualidade e muita gente não o distingue.
Santander
Sim mas mesmo a qualidade está longe de ser objetiva… Será que o João Pedro é melhor que o Dalot? Será que Nuno Valente era top-10 dos DE a nível mundial? Villas Boas ganha tudo com aquela que era das melhores equipas do Porto de sempre, mas a mesma equipa (Otamendi por Bruno Alves e Moutinho por Meireles) tinha ficado em 3 no ano seguinte… Iniesta era suplente de Deco antes de Guardiola… E podíamos continuar por aqui… A mim parece-me que a qualidade nunca foi sequer fator que se pudesse discutir mas será que não há tantos e tantos jogadores que podiam ter sido apostas nas suas alturas? Dou sempre o exemplo no Nelson Semedo… O Benfica perde aquele que era o melhor ou segundo melhor lateral direito do campeonato e aposta… Enquanto outros gastariam 3/4/5/6 ou 7 milhões num jogador com um potencial duvidoso… Claro que não digo que só com jogadores nacionais é que lá vamos.. É preciso ter conta peso e medida mas que tem de haver uma base clara parece-me evidente
Joga_Bonito
Eu sou 100% a favor do amor ao clube, apesar de discordar que apenas surgem em portugueses.
Mozer tem muito mais amor ao Maior do que um Hugo Desleal desta vida…
O amor nasce ou constrói-se. Há muitos portugueses que se comportam como mercenários e até muitos crescem a jogar em clubes rivais, logo não podemos fantasiar que todos os que despontam num clube o amem automaticamente. Ao passo que um Jonas chega cá com 30 anos e nota-se que ama o Benfica, o clube onde mais foi acarinhado, onde mais brilhou.
Agora quanto ao amor à camisola o problema está no discurso hipócrita de uma sociedade sem valores como esta que se vive.
Usa-se a mística quando convém para subir na carreira, quando se quer manter no clube aquando de um mau momento porque se passa, quando se quer um salário top porque se é referência. Mas quando aparece outro que dá mais, rasga-se tudo.
O mais grave nem é existir isso. É a apologia constante que se faz a esse comportamento, a tentativa de banalizar e normalizar o mercenarismo, a ingratidão como algo lógico, como “atender aos seus interesses”. Os clubes têm de ter obrigações como uma qualquer lenda, com qualquer jogador que se diga referência, mas os jogadores esses sentem-se sempre livres para assinarem por quem quiserem, até o rival. Quantas vezes a mesma imprensa que quando uma dita lenda está a ser posta no banco reclama de “ingratidão” é a mesma que depois se o mesmo jogador for para o rival, diz que isso é normal e que a mística é uma treta.
Nos últimos tempos, a imprensa adoptou uma postura esquizofrénica sobre isto. Falam de mística quando os clubes querem afastar algum jogador dito referência, mas a mística desaparece de súbito quando é para os jogadores terem obrigações com os clubes.
Ao que parece só os clubes devem ter obrigações com os jogadores, o reverso não se aplica. O mundo não pode ser isso.
Maradona rejeitou o River por conta do amor ao Boca. Por ser do Boca e estar-lhe vetado jogar no River morreu por conta disso? Não lhe faltariam clubes por conta disso…
Aliás veja-se que muitos jogadores que se dedicaram a um só clube ou que pelo menos jogaram em poucos clubes tem carreiras muito estáveis e sólidas. Messi é o caso mais claro, mas Jorge Costa no Porto é disso um bom exemplo por cá.
J Silver
Os símbolos dos clubes são a verdadeira essência do futebol. A criança que cresceu a sonhar, chegou lá e só saiu para se reformar. Sinceramente sinto falta dos Jorges Costas e dos Baías, dos Betos e dos Barbosas, dos Nunos Gomes e dos Ruis Costas. Mesmo que alguns tenham saído e depois voltado, foram inegáveis símbolos dos clubes e confundem-se com o mesmo. A existência de jogadores destes é essencial para continuar a existir uma identificação por parte dos adeptos. Pelo menos para mim é (e daí eu ter perdido bastante o interesse nos últimos anos).
Acredito que existam jogadores com vontade de ficar no clube a carreira toda desde que pagos de acordo com isso (e com a realidade do clube também). Mas devem ser raros e isso, aliado à constante necessidade de venda por parte dos clubes, faz com que todos acabem por partir. E se há uns 20 anos falava-se sempre em Barcelonas, Reais e Manchesters, hoje qualquer trambolho serve já que todos têm mais dinheiro do que os portugueses.
Valderrama
O futebol de alta competição é cada vez mais negócio e cada vez menos paixão
Tiago Silva
Tudo dito neste post! Hajam mais jogadores a quererem ficar por cá, daqueles que amam o clube e que sempre sonharam em vestir as suas camisolas. Argumentos muito bem ditos, texto na mouche mesmo, parabéns Santander.
Palladino
Excelente artigo!
Para mim, é a paixão que nos faz ser profissionais.
(assim como é a paixão por outros hobbies pessoais, que nos vai tirando o foco do lado profissional)