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Saudades do Futebol

Segundo a definição a palavra “saudade” corresponde a um sentimento de mágoa, nostalgia e incompletude, causado pela ausência, desaparecimento, distância ou privação de pessoas, épocas, lugares ou coisas a que se esteve afetiva e ditosamente ligado e que se desejaria voltar a ter presentes. Esta palavra única e portuguesa nunca se enquadrou tão bem como nos tempos que correm, estando presente em cada um de nós e manifestando-se nas suas mais diversas formas. Como pode então surgir o futebol na linha da frente dos nossos pensamentos carregados de nostalgia quando nos encontramos perante uma pandemia mundial repleta de imprevisibilidades? Quão singular é o impacto do futebol nas nossas vidas para que todos os seus amantes e admiradores o mantenham nas suas prioridades quando dão por si a pensar naquilo que os move a idolatrar determinada equipa e a falta que faz vê-la jogar?

As respostas a estas perguntas aportam uma panóplia de razões a si associadas e aqueles que não o entendem pedem-nos muito mais que um simples “O Futebol é muito mais que um jogo”. Consequentemente, urge clarificar e desvendar aquilo que nos faz ver o desporto rei muito para além da sua vertente competitiva, física ou técnico-tática. Ao longo das nossas vidas começamos por inocentemente dar pontapés dentro da barriga das nossas mães, prosseguindo para utilização de todo e qualquer objeto redondo que nos permita dar os primeiros toques até que, mais tarde, temos a oportunidade de sentir o que é de facto marcarmos o nosso primeiro golo (que sensação, convenhamos).

No entanto, é também sabido que a taxa de jogadores de futebol que chegam a um estatuto profissional nos revela valores que remetem para uma franja muito residual da população e que mesmo assim pode não ser o suficiente para que uma pessoa consiga atingir uma estabilidade financeira considerável. Porém, nem esse fator pesa no sentimento que o futebol tem sobre todos nós e os verdadeiros amantes da modalidade colocam o dinheiro como a menor das suas preocupações. Vejamos o caso dos jogadores amadores que após um dia de trabalho ainda possuem disposição para ir treinar e confraternizar ou dos treinadores onde apenas recentemente deixou de ser tão notória a disparidade de salários face a um jogador, desde os mais aos menos conhecidos, dos mais aos menos bem-sucedidos, todos eles partilham um sentimento inexplicável pelo seu trabalho e pela sua função seja esta no escalão mais baixo do clube da terra ou a de preparar uma final europeia perante milhões de aficionados. Segundo a FIFA, mais de 1,1 biliões de pessoas acompanharam a final do Campeonato do Mundo de futebol, afirmando ainda que mais da metade da população do planeta manifestou interesse nesta competição. 

Numa sociedade atual cada vez mais egoísta e competitiva, eis que surgem diversos espaços de comentário onde pautam críticas ao mundo do futebol, referindo que o mesmo já não se concilia com uma formação pessoal e social dos jovens enquanto cidadãos. Pese embora saibamos que não é um mundo desprovido de fatores que se poderão tornar prejudiciais cabe frisar a raiz de inclusão, entre ajuda e desportivismo tão presente numa atividade como o futebol e todos os seus benefícios num espectro muito mais alargado. Quantas amizades perduram anos e anos e só foram possíveis através do futebol? Quantos de nós não fazemos todo o tipo de sacrifícios para que seja possível estarmos concentrados durante aqueles 90 minutos única e exclusivamente no que sucede dentro das 4 linhas? Como poderemos nós negar o facto da necessidade de lidar com o insucesso, com a crítica e com inúmeros obstáculos presentes no futebol não nos ter ajudado neste ou naquele momento particular das nossas vidas?

“Enquanto há vida, há esperança” transporta-nos para um mundo de positivismo onde na maior das adversidades, a força de acreditar se irá sobrepor a quaisquer dos problemas que se atravessem no caminho. Dentro dessa ótica, e voltando ao ónus da questão deste texto, numa altura em que o mundo se encontra em suspenso e o futebol aí se inclui, as lembranças de determinado momento serão o maior utensílio a que nos poderemos apegar. Este exercício de memória permitirá agudizar um sentimento de saudade que cresce após mais um dia sem futebol e transformará uma cara trancada num sorriso, ainda que por meros instantes, desde a mais jovem criança que se emocionou ao calçar o seu primeiro par de chuteiras ao idoso que não se sente completo caso não renove o seu bilhete de época ano após ano. 

Por fim, termino com um apelo de esperança sobre o retorno do futebol que todos nós amamos e ansiamos para o mais brevemente possível e que até lá sejam partilhadas pelos leitores as memórias que os levaram a sentir aquilo que vai dentro de nós quando soa a palavra golo num estádio, num café ou numa rádio. 

Visão do Leitor: Telmo Carmo

2 Comentários

  • Tiago Silva
    Posted Abril 11, 2020 at 10:35 am

    Acho que este texto diz tudo, muitos parabéns! O futebol tornou-se em algo recorrente para a vida de qualquer pessoa, tornou-se em algo que gera sempre tema de conversa, começa amizades e também as pode acabar. Mexe com sentimentos, com emoções. Falo por experiência própria, fico a contar os dias até poder ver o meu clube jogar, até poder gritar golo e viver o jogo. Quando não há jogos, fico a ver este incrível blog, fico a acompanhar as noticias que possam trazer novidades, fico a ver outros jogos, é algo que não se consegue explicar, a coisa mais importante dentro das coisas menos importantes.

    O futebol une pessoas, une nações, une civilizações. O futebol é um refúgio para os nossos problemas, porque quando estamos a ver um jogo, a vivê-lo esquecemos todos os nossos problemas e limitamos a ver, a viver o jogo com todas as suas virtudes e tragédias. Vou dar um exemplo bem claro: o Euro 2016! Todos nós vibrámos com as arrancadas do Renato, os cortes do Pepe, as defesas do Patricio, as fintas do Quaresma, os movimentos do Nani, mas principalmente toda a garra e união existente naquela equipa, em todos os jogos. E aquele golo do Éder? De certeza que toda a gente se lembra desse momento, que todos gritámos e chorámos de alegria, que todos abraçámos quem estava ao nosso lado, mesmo sendo um desconhecido. Toda a gente se lembra onde esteve a ver a final, é algo que ficou para a memória de toda a gente, e que vamos contar às gerações futuras.

    O futebol é algo que nasce connosco e nisso este texto é muito explicito. Quem não queria ter uma camisola do seu ídolo quando era puto? Quem não jogava à bola todos os dias no intervalo da escola? Quem nunca foi ver o futebol ao café? O futebol é só um jogo? Nada disso!

  • Estigarribia
    Posted Abril 11, 2020 at 12:07 pm

    Texto muito bom. Parabéns,Telmo Carmo. É inegável que o futebol entrou pela vida de todos nós como uma avalanche e agora, por muito importante que seja livrarmo-nos destes vírus, foi estranho os primeiros dias sem ver futebol, mas ao mesmo tempo já nos começamos a habituar a esta nova rotina. Eu sou um fanático por futebol, em especial pelo meu Sporting, e esteja o meu clube num mau momento (o que tem sido recorrente) ou num bom momento estou sempre ansioso por me sentar no sofá, com uma cerveja bem perto, e gritar golos de qualquer jogador, seja do Acuña ou do Sporar, ou festejar uma espectacular defesa do Max.

    Vejo futebol desde puto e já assisti a vários momentos marcantes no desporto-rei: vi Portugal perder injustamente uma final para a Grécia, vi Portugal ser justamente Campeão Europeu mesmo à frente do melão dos franceses, vi o meu Sporting perder uma final europeia em casa e chegar às meias-finais da Liga Europa ou vi o Sporting vencer a Taça de Portugal um ano depois do ataque hediondo à Academia de Alcochete numa época onde davam o meu clube como morto.

    São momentos como estes que me fazem cada vez mais gostar e ser fanático por futebol e agora que não há futebol em tempo real, sempre temos o Visão de Mercado para nos irmos informando sobre as actualidades desportivas e participando em iniciativas deste grandíssimo blog/site.

    Saudações Leoninas

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