O futebol tem a particularidade de ser uma fonte inesgotável de sonhos, que nos acompanha de miúdos a graúdos. Quantas pessoas anseiam por ser alguém no “mundo da bola”, seja enquanto jogador, treinador, intermediário ou dirigente? Quantas pessoas sonham com o sucesso desportivo do seu clube de coração? Mesmo os mais céticos em relação a este desporto são, também, aqueles que, entre convívios e amigos, apoiam as respetivas seleções em redor de ecrãs gigantes, sentados num jardim.
Em Portugal, o panorama desportivo não é diferente e o desporto é comandado pelo futebol, profissional e amador, que é Rei e Senhor em terras de D. Afonso Henriques. Não há, de facto, nenhuma outra modalidade que movimente tantos atletas, adeptos, ambições ou investimentos, mas significará isso que este desporto é um caso de sucesso em Portugal, especialmente no que diz respeito à gestão dos clubes?
A atividade dos clubes portugueses é, época após época, marcada por dificuldades, destacando-se os problemas financeiros, sendo a inexistência de um plano realista e que considere e reflita a estrutura, o contexto do clube, e bem assim as suas receitas, uma constante.
Observámos, ao longo da história, inúmeros casos de dirigentes desportivos que procuram sucesso imediato e insistem em iniciar épocas com orçamentos megalómanos para a realidade dos clubes que representam.
Em bom rigor, são muito poucos os dirigentes portugueses que gerem os respetivos clubes de forma diligente e que cujas decisões seguem, à risca, um projeto e estratégias desportivas que visam um crescimento sustentado e previamente delineado.
Encontramos, ao invés, exemplos de dirigentes que pretendem alcançar sucesso imediato e isso acarreta, naturalmente, consequências, principalmente, porque, na maioria das vezes, os resultados são negativos e acaba por não se alcançar o retorno desportivo e financeiro desejado.
Ao que tudo indica, esta continuará a ser a regra no futebol nacional e os tempos que se avizinham não se preveem nada fáceis. O mundo do desporto e, em especial, o futebol passarão, indesejavelmente, por inúmeras dificuldades e desafios, e não ficarão, como é natural, imunes às adversidades colocadas pela situação epidemiológica provocada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2.
Se recuarmos a meados de março, recordamos momentos de apreensão e incerteza entre os clubes, que sentiram, desde logo, o impacto do novo coronavírus, perdendo receitas importantes, provenientes, em situações de normalidade, da massa adepta ou de patrocinadores. As despesas, essas, não diminuíram, pelo contrário, aumentaram, designadamente com a adoção e implementação de medidas de segurança em cumprimento das orientações da Direção Geral de Saúde, onde se incluem os testes para despiste ao Covid-19.
E o futebol amador como ficará no meio desta desordem? Fará sentido estes clubes terem treinos quase diário e comprometerem-se com atletas quando, além de não serem autossustentáveis, não reúnem, também, as condições de segurança necessárias para a prática de desporto? Não se vislumbra solução que não a de abrandar o futebol amador, ainda que isso signifique certa estagnação ou mesmo retrocesso no desenvolvimento dos atletas.
Prevê-se, assim, uma época desportiva 2020/2021, longa, conturbada e que colocará enormes desafios e entraves ao sucesso desportivo dos clubes e, bem assim, à sua saúde financeira, exigindo-se aos dirigentes de clubes que se reinventem e procurem implementar estratégias de gestão que não coloquem em causa a sustentabilidade dos clubes ou das Sociedades Anónimas Desportivas.
Neste panorama, e para os clubes que inscreveram as suas equipas séniores, a aposta nos atletas provindos da formação, a redução de custos com atletas que implicam investimentos avultados para a realidade económico-financeira dos clubes, a aproximação dos adeptos por meios telemáticos e uma maior dinamização do marketing dos clubes deviam ser algumas das prioridades, a curto prazo, dos dirigentes. Tudo leva a crer, aliás, que este é o ano ideal para os dirigentes do futebol colocarem, de uma vez por todas, os pés bem assentes na terra e mudarem, consequentemente, os métodos que utilizam para gerir os clubes de futebol.
Apesar de a história do futebol português não ter servido de exemplo e de lição para os dirigentes desportivos, que afundam, constantemente, os clubes que comandam, esta não deixa de ser uma época de oportunidades, que permitirá a alguns clubes, devidamente dirigidos, aproveitar as fragilidades estruturais e de gestão dos seus adversários.
O futebol português carece, em face do que antecede, de uma mudança, devendo a formação dos dirigentes ser, cada vez mais, uma preocupação e uma prioridade dos clubes, dos próprios dirigentes, da Federação e da Liga. Nãos obstante a criação da Portuguese Football School ter sido um passo importante neste sentido, verificou-se manifestamente insuficiente e, ademais, peca por tardia. O foco da Federação e da Liga deverá, por isso, centrar-se numa maior profissionalização dos dirigentes de futebol e na obrigatoriedade de os dirigentes desportivos de clubes profissionais possuírem determinadas qualificações, reforçando-se, assim, os pressupostos para aqueles que pretendam exercer estas funções.
Urge, assim, profissionalizar e qualificar os dirigentes portugueses de futebol, criar e identificar mecanismos adequados para combater sucessivos projetos desportivos fracassados, situações de clubes que não pagam salários a atletas e funcionários do clube, e de dirigentes que são influenciados e controlados por intermediários de futebol. Este é, de facto, um dos grandes problemas do futebol português, que justifica uma intervenção mais ativa da Federação Portuguesa de Futebol e da Liga Portuguesa, e que caso não se verifiquem mudanças em matéria de dirigismo, prevê-se a repetição dos mesmos erros (e os de sempre) de gestão, não havendo máscara que trave esta pandemia!
Visão do Leitor: Sérgio Ferreira Carmo

