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Uma história para nos relembrar que o amor é lindo, mas cruel

Em Setembro de 2014, aterrava em Bérgamo um pequeno mágico, que dera nas vistas no Catania em anos anteriores e procurava agora fugir à hostil situação política na Ucrânia, depois de uma mudança para o Metalist que não correu da forma desejada. Surpreendentemente, Bérgamo não seria ponto de escala para se dirigir em seguida a Milão. O pequeno mágico ficaria ali mesmo, na também pequena e mágica cidade da Lombardia, para jogar pela pequena e modesta Atalanta.

A ‘El Papu’ já era reconhecida uma qualidade acima da média, mais do que suficiente para ser figura em grande parte das equipas da Serie A italiana, mas o seu feitio deixava de pé atrás equipas de maior estatuto, reticentes que não fosse capaz de responder à altura quando o nível e a responsabilidade subissem. Já na Atalanta, equipa que procurava consolidar-se na máxima divisão em Itália, seria de esperar que pegasse na batuta e liderasse a equipa.

Apesar disso, a sua estadia em Bérgamo não começou da melhor maneira. Problemas físicos e de rendimento iam adiando a sua afirmação, numa Atalanta que passou a temporada com a corda na garganta e terminou na 17ª posição apenas 3 pontos acima da linha de água. Na época seguinte, a sua preponderância subiu exponencialmente e quando em 16/17 chega um tal de Gasperini ao clube, La Dea já era a ‘a equipa de Alejandro Gómez’.

No início da relação, duvidou-se. 4 derrotas em 5 jornadas e a ideia que aquele estilo de jogo não se coadunava ao estatuto de um clube habituado a lutar pela manutenção. Mas para técnico e jogador foi quase como amor à primeira vista. O estilo do treinador italiano necessitava de tecnicistas como de pão para a boca e o argentino adorava o papel de craque da equipa, aquele por quem passa todas as bolas. Ainda assim, o que conseguiram nessa época nenhum dos dois imaginaria nem nos seus melhores sonhos.

Com 16 golos e 11 assistências, o pequeno mágico escrevia a melhor página da sua carreira até então e carregava a pequena Atalanta à sua primeira participação europeia da história. Seria nessa Liga Europa 17/18 que Papu Gómez se viria a mostrar ao Mundo pela primeira vez e deixava pelo caminho o Everton com duas goleadas, caindo depois aos pés do Dortmund.

O amor entre Papu Gómez e Gasperini crescia e quebrava fronteiras, cativando todos em seu redor e juntava aficionados um pouco por toda a parte, desejosos de conhecer o novo capítulo deste emocionante romance. O 3.º lugar na temporada seguinte, melhor classificação de sempre do clube, convertia o mais cético ser humano e o filme, que já mais parecia ficção, ganhava contornos épicos. E não foi preciso esperar muito para se converter em obra-prima. Pela forma como, na primeira participação na Liga dos Campeões, Papu, Gasp e companhia revertem uma situação de 3 derrotas nos primeiros 3 jogos da fase de grupos até estarem a escassos minutos de atingir a meia-final da competição.

Talvez aí se tenha começado a entender que o futebol, tal como o amor, tem tanto de bonito como de trágico. Os 2 golos do milionário PSG na reta final do encontro, e já sem Papu em campo, foram como uma seta apontada ao coração de quem por esta história se tinha apaixonado. Uns terão interpretado o resultado como a lei do mais forte, outros terão visto aquele golo do Choupo-Moting como a materialização do sentimento de injustiça. Para mim, representou somente a beleza e imprevisibilidade deste lindo desporto. Uma beleza que encanta, apaixona e, por vezes, magoa.

E, quis o maldito ano, que fosse essa a última página a ser escrita nesta história de loucos. Os dois loucos apaixonados, protagonistas de uma das mais lindas histórias de amor que o futebol fez nascer, desapaixonaram-se como em tantos outros romances para nos relembrar que o amor é lindo, mas cruel, e que por mais forte que seja a chama, nenhuma estará imune aos ventos fortes que se façam sentir.

Alejandro ‘El Papu’ Gómez chegou a Bérgamo como um pequeno mágico à procura da afirmação e deixa agora a cidade após 6 anos e meio como o melhor jogador da história do clube, aquele que liderou uma modesta Atalanta a feitos históricos, estabeleceu recordes e, principalmente, escreveu uma história que, sem títulos, será recordada por anos a fio, com a certeza que será sempre recebido como um herói para 120 mil habitantes.

Afonso Ascensão

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

13 Comentários

  • Estigarribia
    Posted Janeiro 27, 2021 at 5:26 pm

    Excelente texto, Afonso Ascensão.

    Papu Gomez é um jogador com uma qualidade extraordinária e vai ficar eternamente ligado á fantástica epopeia europeia que a Atalanta fez na época passada na Champions League. Aliás, ele e o técnico Gasperini ficarão na história dos Orobici eternamente.

    Posto isto, será que Papu Gomez não justificaria já uma chamada á Selecção da Argentina? Penso que não se perdia nada se o jogador argentino pudesse ser chamado (esta estou a atirar á sorte pois não sei se já foi mesmo chamado).

    Oxalá continue a brindar os adeptos que amam futebol com sua qualidade seja em que clube for. Craque.

    Saudações Leoninas

  • Richrad
    Posted Janeiro 27, 2021 at 5:29 pm

    Exelente post e que em certo medida resume tudo o que nos envolve na vida: amores e desavenças.
    Infelizmente esta linda história terminou mas não tenho dúvidas que estes dois protagonistas irão ainda no futuro voltar-se a rir de novo, nem que seja a partilhar uma Birra!

    • Bio
      Posted Janeiro 27, 2021 at 6:08 pm

      Sei que “birra” é cerveja em italiano, mas não sei se foi a melhor escolha de palavras, tendo em conta o que se passou entre os dois :’)

      • Richrad
        Posted Janeiro 27, 2021 at 8:17 pm

        Pelo o que sei, o desentendimento começou no jogo contra o Midtjylland e com razões de teor tático.
        Claro que creio que o mesmo mal-estar teve a sua continuidade mas daí num futuro pós-futebol, os mesmos protagonistas não tentarem colocar tréguas sobre o assunto, porque não fazê-lo? Ninguém deixará de ser quem é por isso.
        O Atalanta continua a protagonizar resultados sem Gómez;
        Gomez certamente em Sevilla irá continuar a brilhar sem a Atalanta.
        E já que a birra entrou na conversa, a mesma até pode ser sem álcool se existir assim tanta preocupação eheh

  • Bio
    Posted Janeiro 27, 2021 at 5:33 pm

    Belo texto! Parabéns Afonso!
    Esta Atalanta é uma das equipas que mais me apaixona no futebol actual e Papu Gomez um dos principais responsáveis pelo sucesso de La Dea.
    Aqueles quartos-de-final contra o PSG foi um dos momentos que mais me custou na temporada passada. Confesso que sonhei com a final.
    Adoro Gasperini e acho que ele está a fazer um trabalho absolutamente notável na Atalanta, mas o desentendimento com Papu Gomez tinha de ser evitado. Vamos ver como a equipa se mantém nos próximos tempos.

  • Wonderkid
    Posted Janeiro 27, 2021 at 5:44 pm

    Texto incrível, muitos Parabéns ao Afonso Ascenção!

  • Ricardo Lopes
    Posted Janeiro 27, 2021 at 7:09 pm

    Fantástico texto, muitos parabéns Afonso Ascensão!
    De facto há uma Atalanta antes e depois de Papu Gomez. Durante a sua presença em Bergamo viu muitos jogadores a saírem para equipas superiores, como o caso de Conti, Caldara (que regressou), Kessie, Gagliardini entre outros, porém o argentino optou por ficar (seguramente teve propostas). Não só cresceu muito como jogador como fez crescer uma equipa que antes lutava por objetivos mais modestos. Fico triste por ver este casamento chegar ao fim e fico a torcer para que o jogador obtenha o sucesso desejado em Sevilla, onde me parece que vai encaixar muito bem. A Atalanta acautelou bem a sua saída com Miranchuk e Malinovskiy (que foi apontado ao Sporting), resta saber é se algum deles terá algum dia a influencia no balneário que o argentino tinha.

  • BrunoAlves16
    Posted Janeiro 27, 2021 at 8:19 pm

    Excelente texto Afonso Ascenção, parabéns.
    Realmente Papu Gomez é um jogador que não deixa indiferente os amantes do bom futebol e a sua história na Atalanta atingiu contornos lindíssimos, tornou-se no melhor jogador da história do clube.
    Ambos seguem agora caminhos diferentes mas para sempre ligados por quase 7 anos de uma bonita história, principalmente oe últimos 4.

  • LMMarado
    Posted Janeiro 27, 2021 at 10:41 pm

    Excelente texto, Afonso Ascensão! Os bastidores deste “romance” devem ter valido a pena para os que estão por dentro dos capítulos recentes. Outros amores virão.

  • ohomemdabeirabaixa
    Posted Janeiro 27, 2021 at 11:21 pm

    Magnífico Afonso. A história de amor estende-se certamente a muitos adeptos como eu com saudades deste tipo de futebol (o da Atalanta) e deste tipo de interpretes (Papu Gomez e Gasperini) em que o jogo é um divertimento racional. Obrigado a eles e a ti por tão bem o transmitires.

  • Vegeta
    Posted Janeiro 28, 2021 at 8:46 am

    Grande texto.

  • Tiago Silva
    Posted Janeiro 28, 2021 at 11:04 am

    Excelente texto que resume a alma desta Atalanta e a história do herói de Bérgamo. Parabéns!

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