Quem vê o futebol como uma modalidade desportiva, percebe que esta tem tanto de fechada como de atrasada em comparação com outros desportos coletivos. Além disto, compreende, até concordando, que o futebol português de mais alto nível tem na sua envolvência, um ambiente tóxico e obcecado pelo clube que apoiam. Reeducar é um processo que, muito provavelmente, tira horas de sono aos dirigentes das Associações e Federação, mas este é um reeducar em massa e cultural, o que dificulta, e muito, o processo.
Ainda assim, nem todos os campeonatos disputados em Portugal assumem este ambiente. Os bons exemplos, onde se tem como fim único valorizar o futebol, existem e são precisos realçar.
Um desses exemplos, é o Campeonato de Portugal. O campeonato masculino de menor visibilidade dada pelos órgãos de comunicação social, ainda em atividade, mostra que, jornada após jornada, é possível valorizar tanto o Jogo como quem o joga e apita.
O Campeonato de Portugal é, arrisco-me a dizer, o mais próximo que o nosso País tem à expressão “Futebol em estado puro”. Os seus jogos chamam as famílias aos campos, fazem o adepto ferrenho ligar-se à rádio local para ouvir o relato e fazem o público conhecer os cantinhos de Portugal.
No entanto, quem pensar que é o amadorismo que reina neste campeonato, engana-se.
A organização que as equipas mostram vai muito além de uma sede do clube cheia no dia de jogo e das discussões se é penálti ou não no lance desse fim-de-semana de um qualquer “grande”. Ali, as equipas mostram disciplina tática, os jogadores um recorte técnico superior e uma exímia compreensão pelos momentos e fatores de jogo, as equipas técnicas qualidade de decisão e seleção, os jogos, muito por causa dos seus intervenientes, são disputados até aos últimos minutos e os árbitros, entrando na onda positiva que os envolve, participam para melhorar o espetáculo. A consequência desta mentalidade, é tornar os jogos enriquecedores e as equipas merecedoras de outros palcos. Então, quando se retira a toxicidade de outros campeonatos, tem-se uma competição disputada no limite das capacidades de todos os envolvidos e no limite do respeito pelo jogo e pelo Desporto.
Mesmo a crítica, inerente ao Desporto, não sendo o Futebol exceção, se torna construtiva quando é em prol de um fim: “Valorizar o Jogo”.
Por isso, devemos, como sociedade, pensar no futuro que queremos desta modalidade que arrasta multidões. Preferimos acabar com os bons exemplos ou replicá-los para ganho do futebol e, principalmente, de todos nós?
Visão do Leitor: Hugo Fernandes


8 Comentários
Mario Rebelo
Texto bonito, mas se os jogadores fossem de “recorte técnico superior” e tivessem “eximia compreensão dos momentos de jogo” não estavam nesse patamar. Do mesmo modo, se calhar na 1a liga fala-se de arbitragens com muito mais frequencia porque o nivel dos jogadores é superior, mas o dos árbitros não acompanha. Parece-me provável que um árbitro do CdP não esteja tão abaixo do nivel de um ASD como um craque dessa liga estará abaixo do Corona ou Rafa.
No entanto, nada disto retira culpa ao completo estado de indecência do futebol praticado na 1a Liga, bem como o das incidências fora das 4 linhas. O problema não são só os ábritros, os jogadores são mesquinhos, fazem faltas a torto e a direito, exageram e enganam o árbitro, tudo enormes demonstrações de falta de desportivismo (que supostamente seria amarelo….) que me parece serem incutidas desde as camdas juvenis. Mas depois claro que entramos no outro lado da questão, pelo menos no que concerne aos mergulhos, que é o clássico “se não se mandar o árbitro não marca falta”, ao que se responde “se se mandam por tudo e por nada, se não se mandar é porque não a houve” Um ciclo vicioso do qual me tentei afastar o máximo possivel há alguns anos, de tal modo que agora só vejo os jogos do clube que apoio (e já esses me custam muito).
Manel Ferreira
Isto. Quem lê este texto fica a pensar que é um campeonato de topo ou qualquer coisa, vamos com calma. Eu também tenho visto alguns jogos do CNS de vez em quando, mas falar em “fino recorte técnico” parece-me exagero. Isto apesar de ser inegável que realmente se trabalha cada vez melhor nos escalões secundários, também porque há cada vez mais gente em PT a especializar-se.
A verdade é que muitas das pessoas que vêm com a ideia de que “não há diferença entre o CNS e a 1ª Liga” fazem-no apenas com o intuito de bater nos clubes da Primeira. Não digo que seja o caso do autor deste texto (que me parece positivo por si só), mas que acontece bastante, acontece. E é óbvio que sabem que é treta. O Zequinha que tem 1 ou 2 golos por época na sua carreira, já vai nesta época com… 14 golos. É porque o nível é o mesmo, claro.
Em relação à história do futebol ser mais “puro” nas divisões secundárias, diria que isso acontece em todo o lado, não é só em PT. Se tem menos visibilidade, menos paixão (no sentido exagerado da palavra), naturalmente que será sempre menos tóxico. Reduzir a “toxicidade” na Primeira Liga parece-me, sinceramente, uma batalha perdida…
RomeuPaulo
Percebo aquilo que queres dizer, mas tens inúmeros jogadores de “recorte técnico superior” no Campeonato de Portugal que apenas precisam de uma oportunidade para vingarem ao mais alto nível.
Aliás, tens vários jogadores na Liga NOS que até há bem pouco tempo jogavam no Campeonato de Portugal ou mesmos nos campeonatos distritais:
Matheus Nunes (Sporting) – Ericeirense em 2017/2018
David Carmo (Braga) – Braga B em 2019/2020
Wilson Manafá (Porto) – Anadia em 2015/2016
Zaidu Sanusi (Porto) – Mirandela em 2018/2019
Stephen Eustáquio (Paços de Ferreira) – Torreense em 2016/2017
Tiago Esgaio (B Sad) – Torreense em 2018/2019
Nuno Borges (Nacional) – Sacavenense/Farense em 2017/2018
Ruben Freitas (Nacional) – Vilafranquense em 2017/2018
Pedro Augusto (Tondela) – Louletano em 2018/2019
Aylton Boa Morte (Portimonense) – Salgueiros em 2016/2017
Talocha (Gil Vicente) – Vizela em 2015/2016
Amine Oudrhiri (Farense) – Lusitano VRSA em 2016/2017
Fabrício Isidoro (Farense) – Farense em 2017/2018
Cristian Devenish (Boavista) – Vizela em 2019/2020
Ricardo Mangas (Boavista) – Mirandela em 2017/2018
Amir Abedzadeh (Marítimo) – Barreirense em 2016/2017
Já dava para fazer uma equipa engraçada (só considerei jogadores com mais de 1.000 minutos que jogaram no Campeonato de Portugal nos últimos 5 anos, e provavelmente ainda me escapou algum), sendo que destes jogadores o Eustáquio é um dos destaques da Liga NOS e juntamente com o Tiago Esgaio estão nos jogadores com mais minutos.
Há muita qualidade no Campeonato de Portugal.
LMMarado
Quando se começar a sair dos tostões e a entrar no reino dos milhões, a conversa não é a mesma, porque não parece poder ser. Não no que toca à sociedade portuguesa, pelo menos.
Há muito enriquecimento ilícito, corrupção, abuso de poder, nos níveis mais altos. Tem de haver coragem para mudar isso. Espero que se consiga.
Mas o problema, como em tantas coisas, está no capitalismo, o sistema económico que nos é enfiado pela goela abaixo como sendo o único possível… Boa vontade e muitas regrinhas não fazem muito quando o campo de jogo é inclinado.
MM
Sou adepto do merelinense e digo com seguranca que ha muita qualidade no CP.
Este ano vi pela 1a vez 2 jogos na tv, no canal 11, e acreditem que ja vi piores jogos na 1a divisao..
Mantorras
A maior parte dos adeptos nao quer saber do futebol em estado puro. As pessoas tem o mundo que a maioria quer e o futebol nao e excepcao. Infelizmente.
Parabens pelo texto.
Tiago Silva
Claro que em termos de qualidade não é superior nem coisa que se pareça, até porque as individualidades são muito inferiores. Mas concordo com o texto, eu prefiro ver um campeonato onde se viva o jogo, haja desportivismo e cujo principal objetivo seja o bom futebol e não o ganhar seja como for, do que um campeonato de milhões e com melhores individualidades. O mais difícil é mesmo mudar a mentalidade de certos adeptos, em que dizem tudo de mal no rival e tudo de bom na nossa equipa, que aconteça o que acontecer se a nossa equipa estiver bem, esteja bem.
Esta época já vi um ou outro jogo do Campeonato de Portugal e não foi tempo perdido, lá sim há competitividade saudável e alguns bons projetos. O que tem que diferente? É a Federação que manda e não a Liga de Clubes que é uma autêntica fantochada. Deixarmos a Federação controlar o nosso futebol é fundamental na minha opinião.
tfcc13
Em termos de qualidade individual no expoente máximo é óbvio que não é superior à primeira liga, mas entre um jogo da B-Sad e um jogo do CNS é preferível ver o CNS. Aliás existem bons jogos na terceira liga, melhores que vários da primeira. O amor inato ao “clube da terra” e o ambiente familiar torna os adeptos únicos, e o apoio caloroso destes é algo realmente especial e digno de se apreciar. Apesar disto tudo é necessário realçar que neste campeonatos a corrupção impera, não sei se pelo baixo poderio financeiro dos clubes, pelos jogadores semi-profissionais ( a maioria não têm o futebol como principal atividade”) ou pelo desleixo por parte da federação, mas impera.