
Diego Pablo Simeone González. Para muitos um nome completamente banal, para nós, amantes do futebol, o nome deste homem é sinónimo de raça, pragmatismo e acima de tudo confiança e solidariedade. Ontem deu para perceber que estes quatro conceitos (e não só) foram implementados até ao limite.
Nesta passada quarta-feira vimos o embate entre dois grandes do futebol: Atlético de Madrid e Bayern de Munique com Simeone à procura da sua segunda vitória consecutiva na fase de grupos da Liga dos Campeões, após ter derrotado o PSV Eindhoven por 1-0 numa deslocação difícil. Jogando em casa, o Atlético fez o que sabe fazer melhor, ou seja, explorar os pontos fracos do adversário e mesmo sem posse de bola, dominar o jogo.
Os rojiblanco movimentaram-se num 4-4-2 clássico com Fernando Torres e Antoine Griezmann na frente de ataque, Carrasco e Saúl nas alas apoiados pelos dois médios totalitários da equipa: Koke e o capitão Gabi. O Bayern, ainda por vezes influenciado pela doutrina Guardiola, começava o seu processo ofensivo a partir dos pés de Neuer e tanto Javi Martinez como Jerôme Boateng abriam (fazendo quase de laterais) e Xabi Alonso descia, fazendo de terceiro central, criando mais uma linha de passe e dando uma certa superioridade numérica (3v2) contra os dois artilheiros do Atlético, Torres e Griezmann. Ora quando Neuer pretendia iniciar a fase ofensiva da equipa bávara Boateng já estava a ser marcado por Torres, Martinez por Griezmann e Alonso por Gabi, com a subida de Gabi, Koke fazia de trinco e tanto Saúl como Carrasco fecham o espaço interior formando uma linha de três no meio campo. Porém, por vezes, o Bayern conseguia sair desta armadilha bem montada e nessa altura as linhas do Atlético subiam e a pressão duplicava. Tanto Savic como Godín foram cruciais na eficácia da subida da linha defensiva pois sempre que a bola não fosse recuperada imediatamente e chegasse à linha de meio campo os centrais subiam e impediam que Lewandowski recebesse a bola entre linhas e em condições para tabelar para as alas onde se encontravam Ribéry e Muller. Quando o Bayern conseguia passar o meio campo, os jogadores orientados por Simeone desciam e formavam outra vez o 4-4-2 e nesta fase o treinador argentino queria que a sua equipa tivesse superioridade ou igualdade numérica nas alas, isto é, quando Alaba tinha a bola na faixa esquerda era imediatamente marcado por Juanfran com Saúl a fechar o espaço interior onde estava Ribéry (algo raro hoje em dia pois o lateral, normalmente, marca o médio ala), o mesmo se passava do outro lado onde se situavam Carrasco e Filipe Luís, mas a atenção tem de ir para Griezmann e Torres pois sem os seus recuos, para marcar os médios interiores, o vice-campeão europeu não conseguia cumprir esta armadilha de forma eficaz pois estaria sempre em desvantagem. Solidariedade.
Na parte ofensiva, o Atlético pretendia dar largura a Griezmann pela esquerda utilizando Saúl para fazer dupla com Torres em zonas de finalização. Nas alas atacava-se da mesma maneira que se defendia, o médio ala jogava pelo interior e o lateral explorava o corredor exterior. No meio campo Gabi funcionava como trinco e Koke andava mais solto como um número 8, podendo às vezes fazer de número 10, de modo que quando a bola fosse perdida Koke estava mais solto e podia ter liberdade de pressionar visto que Gabi ocupava a função de trinco e Saúl e Carrasco fechavam o espaço interior. Solidariedade.
Só nos apercebemos da grandeza de um treinador quando este se vai embora. Diego Simeone veio quase das catacumbas da Argentina e fez com que uma equipa revolucionasse completamente a sua mentalidade e a sua forma de jogar elevando-a de forma extraordinária ao Olimpo do futebol. Parabéns Atlético.
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui): Martim Silva


7 Comentários
Joao Madureira
Quão grande será a queda do Atlético quando Simeone sair?
João Miguel
Vai depender da qualidade do seu Sucessor. Criando um paralelo, vê a saída de Klopp e a entrada por consequência do Tuchel. Obvio que o caso é um tanto quanto diferente mas os jogadores do Atleti não primam só pela intensidade, querer e garra. Têm imensa qualidade tecnica-táctica e parecem ser do tipo de jogadores que se habituam a qualquer sistema de jogo. Ou então não…vamos ver.
Kafka
Baixa um patamar e deixa de tratar por tu o Real e Barça, e passa a estar ao nivel do Sevilha/Bilbao/Valência na luta pelo 3º lugar
Luis Freitas
Embora o Simeone seja o principal culpado por esta subida de nivel do Atletico nao é o unico fator e o seu trabalho vai dar muito ao proximo (qual Jorge Jesus)…
O clube é agora endinheirado (patrocinio do azerbaijao, receitas recorde e das melhores vendas de ativos da Europa etc), tem um dos melhores presidentes no futebol, os jogadores estao extremamente valorizados (e aprimorados) e é agora um clube apetecivel para qualquer treinador no mundo…
Eu ja referi aqui e mantenho a ideia de que Jorge Jesus é o meu favorito ao lugar.
Kafka
Excelente texto
Mario Pratas
Bom texto!
Luis Freitas
”Quando era pequeno e me deram um forte com indios e soldados, fiz um campo de futebol com 11 indios de um lado e 11 soldados do outro”
Sinto-me extremamente orgulhoso sempre que vejo um post sobre o Atletico e é muita graças a este senhor que hoje em dia posso ver tantos. Um idolo, um simbolo do clube (e do futebol).