As emoções e paixões são uma constante no quotidiano do ser humano. Há dias felizes, outros nem tanto, mas a verdade é que tudo isso se torna secundário quando nos sentamos em frente ao ecrã para assistir a mais uma jornada desportiva. Esqueçam os programas com os amigos e as saídas com as namoradas. É hora de pegar no comando, encostar-se ao sofá e ligar a televisão no único canal possível.
Durante muito tempo, os melhores fins-de-semana eram aqueles que incluíam uma viagem a Anfield Road. Eterna casa do Liverpool, o mítico “You’ll Never Walk Alone” entoava nas bancadas e deixava-me maravilhado. Tão bom que seria estar ali. No comando encontrava-se um homem cujo percurso se confundia com a própria história recente do clube de Marseyside. Steven Gerrard era o seu nome. Capitão, um ídolo dos adeptos e alguém respeitado por qualquer adversário. Herói de Istambul, um dos melhores médios da história da Premier League e um dos mais internacionais de sempre pela Inglaterra, contabilizando 114 presenças pela “Selecção dos Três Leões” e sendo apenas superado por David Beckham, Peter Shilton e Wayne Rooney. Ninguém representava melhor o termo “box-to-box”. Capacidade de passe, uma entrega inesgotável, versatilidade, visão de jogo, chegada à área e uma capacidade de finalização notável. Quando aquele corpo se inclinava para a frente todos percebiam o que iria sair daquele pé direito portentoso. Dotado de uma força mental extraordinária e de uma qualidade imensa, empurrava os companheiros para o ataque. Muitas vezes sozinho. O seu rosto inspirava confiança, os seus pés exprimiam aquilo que de melhor existe no jogador britânico. Que talento senhores. Campeão europeu em 2005, nunca conseguiu levantar a taça de campeão inglês. Ela que tão bem lhe assentaria. Esse desejo poderá ter estado à distância de uma escorregadela, mas não será isso demasiado redutor e injusto para alguém que tanto deu ao clube da cidade dos Beatles?
Muitos gostariam de o ter visto noutras paragens. Real Madrid, Chelsea, Inter Milão, Manchester City. Interessados nos seus serviços não faltaram, mas Steven era leal ao seu Liverpool. Nenhum título pagaria aquilo que Anfield lhe oferecia em cada partida disputada sob o olhar atento da “Kop”. Todavia, ninguém é eterno. A carreira de futebolista profissional é intensa, mas curta e 2015 significou o fim de uma ligação umbilical de 18 anos. 710 jogos e 186 golos depois, o menino que se estreara pelas mãos de Gérard Houllier em 1998 fez-se homem e saiu de casa. Aos 35 anos. Anfield ficara mais pobre, sentiu-se um vazio enorme. Era hora de experimentar novas sensações, a oportunidade de conhecer uma nova realidade. A MLS recolheu os últimos passos de Gerrard nos relvados e permitiu que desfrutasse dos últimos momentos da sua carreira sem qualquer desgaste competitivo.
24 de Novembro de 2016 ficará na história como o dia em que um dos melhores jogadores de sempredo futebol inglês e do Liverpool colocou um ponto final na sua carreira. O futebol fica mais pobre, mas ficam as memórias, os títulos, os belos momentos proporcionados por um dos executantes mais fascinantes de que há memória. Resta agradecer, recordar e, quem sabe, augurar um grande futuro enquanto líder fora da relva.
Rodrigo Ferreira


8 Comentários
Ragnar
Foi um prazer ver Gerrard a jogar. Era um capitão como poucos há hoje em dia e trazia o melhor de cada jogador. A sua sinergia com Torres e uns anos mais tarde com Suárez foi algo fantástico de assistir.
Adeus Captain.
Nuno
Um dos melhores de sempre
APessoa
Um dos meus jogadores preferidos de sempre. Que Senhor. Acho que é dificil não gostar de um jogador que ama tanto o clube como o Gerrard.
Fez-me gostar do Liverpool. Existem jogadores que se confundem com o clube.
Tobias Figueiredo 2.0
“Existem jogadores que se confundem com o clube”. Esta frase também se poderá aplicar a outros “monstros sagrados” como, por exemplo, Carles Puyol, Paolo Maldini, Franco Baresi, Ryan Giggs, Paul Scholes ou, por enquanto, a Rui Patrício (para dar um exemplo do nosso campeonato).
Diogo Pinto
Um craque, um ídolo, uma lenda, o motivo de simpatizar com o Liverpool!
Dos meus jogadores preferidos!
Pedro o Polvo
Quase me emocionei ao ver o vídeo…Grande jogador, dos melhores que tive o prazer de ver! Obrigado pelo texto
Observador
A par de Totti, o último grande capitão. Que pena. Fossem eles eternos!
André1793
O verdadeiro senhor do futebol.
Quando dizem que não há romantismo no futebol, este senhor prova o contrário.