90 minutos de trabalho se avizinham. O jogo começa bem antes do apito inicial. Chegada ao campo e ninguém para nos receber. Começam já as dificuldades, ninguém para receber, não se sabe onde estacionar, para onde ir nem com quem falar. Alguém lá se lembra de aparecer, chapéu com o símbolo do Zé dos Pneus, fato de treino do clube e fichas de jogo na mão e algumas vinhetas ainda coladas nos dedos. Leva-nos ao balneário e cordialmente oferece-nos umas garrafas de água e um pão com o queijinho da terra.
A reunião preparatória chega com os 2 delegados. Assuntos do costume, primeiro os equipamentos. Ambas de preto, assim não dá. Alguém tem que mudar. Por facilidade de troca, mudam os da casa. Têm um todo branco, perfeito. Redes da casa de laranja, o de fora de cinza, sem problema, podemos ir de azul. A GNR foi requisitada, menos mal. Há que fazer a vistoria ao carro, para evitar problemas futuros. Recomendações habituais para os jogadores, o jogo tem que começar às 15:00, temos que fazer 1 minuto de silêncio. “Senhores delegados, pedia que estivessem prontos 10 minutos antes para a identificação”.
Já são 14:50 e os jogadores ainda estão a aquecer, depois se escrevemos no relatório nós é que somos os maus e os intolerantes. É preciso ainda pedir por favor para se despacharem. Aos pingos lá vão chegando ao balneário. Um por um vão sendo chamados. Primeiro e último nome, vem um atrás de outro. No cartão vem uma foto com 12 anos, jogador tem 32. Será ele? Siga, não é problema nosso. Vem um com brincos, tem que tirar, outro com fitas azuis nas meias brancas, também tem que sair. Alinhamos e seguimos para o terreno de jogo, às 15:00 ainda se estão a cumprimentar na saudação inicial. Lá terá que ir para o relatório certamente. Minuto de silêncio, morreu alguém que merece o nosso respeito. Adeptos não percebem e começam a gritar, cantar e fazer tudo menos respeitar o momento. Minuto cumprido, cumprimentar os 2 colegas, redes verificadas, tudo nos eixos… apita para o início.
Muito para decidir, o jogo começa durinho, ambas precisam de ganhar. Público a contestar, deixa-os falar. Treinador da casa dá indicações, o de fora não desencosta do banco. Primeira grande decisão, simulação dentro de área. Para mostrar a todos que vimos, firme na decisão. Avisamos o jogador que não vamos permitir mais atitudes destas, forma cordial. Cartão amarelo. Todos ficam avisados, este leva o jogo a sério. Minuto 43, quase a acabar a primeira parte. É preciso manter a concentração (às vezes é complicado). Jogador de fora cai na área contrária, e agora? Contacto visual com assistente. Discretamente dá sinal ao árbitro que é penalti, é cartão amarelo. Aponta para a marca, firme e com calma. Jogador contesta, mas involuntariamente vai dando sinal que temos razão. Penalti deu golo, 0-1 e acaba a primeira parte. No balneário fala-se dos lances. O que fizemos mal, o que é preciso ter atenção. Num ápice começa a segunda parte. Equipa da casa entra forte, muitas oportunidades. Num contra ataque, mais um lance perigoso, mais uma vez falta, agora à entrada da área. Falta clara, dentro ou fora? Mais uma vez está atento o milagroso assistente. Desta vez é fora. De qualquer forma seguia isolado. Cartão vermelho é cartão vermelho. Fazemos a barreira, aqui não há a espuma que todos falam. Avisar jogadores, estão dentro de área. “Juízo, contacto com a mão dá penalti”. Livre com força, desvia na barreira e dá mais um golo. 0-2, quem diria?
Adeptos cabisbaixos, nem força anímica tem para reclamar. Hoje era dia de azar e o árbitro nem se engana para nós. Acabou o jogo, está feito, consciência tranquila. Cumprimentar toda a gente, ouvir comentários de jogadores e equipa técnica. Quem ganhou, foi a melhor arbitragem do mundo, quem perdeu, pede para a próxima “não nos prejudicar”.
Fazer as fichas, relatório e tomar banho. Nem água quente temos direito, a caldeira não dá para todos. Calha assim, foi o que escolhemos fazer. Para a semana há mais.
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Polvo Aveirense


0 Comentários
Anónimo
Excelente texto, não podia retratar melhor o nosso trabalho. A verdade é que neste sistema os árbitros são muitas vezes a vítima. Admito que há colegas, e ainda são alguns, que não levam este trabalho a sério e se deixam influenciar muito facilmente, sempre foi assim. Mas há que criar condições para que os arbitros mais novos, muitos deles com grande potencial,possam evoluir e tomar decisões onde elas são mais precisas.
Cumprimentos
Daniel
Anónimo
Obrigado pelas palavras Daniel. Não quero contudo apresentar uma perspetiva de que os árbitros são sempre as vítimas, e que com isso tento apresentar um lado que somos os coitadinhos. Não é de todo a minha maneira de me colocar no futebol. Eu não acredito só no talento, acho que o trabalho é essencial, é preciso criar uma boa imagem e deixar o amadorismo que se vê não só nos distritais mas também no Campeonato Nacional de Seniores atualmente.
Concordo a 200 %, existe um grande percentagem de árbitros sérios, mas como em tudo existem árbitros que não levem o trabalho a sério. E por um pagam todos.
Quanto às condições, começam a haver melhores condições de treino. Existem formações teóricas todas as semanas, surgem centros de treino para que sejam englobados todos os árbitros e que se são mal aproveitados é por culpa de grande parte dos árbitros que não querem ir apanhar frio depois de um dia de trabalho. É preciso uma mudança de mentalidades
cumprimentos,
Polvo Aveirense
Anónimo
Acho que a nossa opinião é a mesma. Reforço, mesmo assim, o facto de haver muita falta de acompanhamento, mesmo estando a melhorar. Lembro.me perfeitamente do meu primeiro jogo em que o arbitro que me acompanhou era também muito inexperiente. Não havia ninguém a explicar o que e como deveria ser de facto feito,sendo que o curso foi francamente fraco. Tem de haver testes e treinos à pressão do arbitro, que acaba por ser o maior destabilizador dentro de campo.
Cumps
Daniel
manelmadeira
Gostei
Coríntio
Excelente texto, elucidativo da forma com que se vive na visão de um árbitro. Mas falta aí seguramente o dia antes do jogo, o jantar pago pelo presidente do clube da casa, o dinheiro que entra na conta sem saber de quem é, as mensagens a ameaçar a família, os encostos com o carro, os vidros partidos e os grafitis no local de trabalho, as notas que os delegados lhe dão consoante os favores que fazem, as descidas e subidas de escalão, etc etc
Anónimo
Obrigado pelas suas palavras.
Seguramente, até nos distritais há quem continue a deixar-se levar pela dinheiro fácil. Eu tenho pautado por não ceder a qualquer tipo de propostas desse género, não me consigo enquadrar nesse tipo de comportamentos, como tal, não fazia sentido eu enquadra-los neste pequeno excerto.
cumprimentos,
Polvo Aveirense
Anónimo
Fantástico artigo, é também isto que torna o futebol fabuloso!
Gustavo
Anónimo
obrigado Gustavo,
cumprimentos,
Polvo Aveirense
Rui Amaral
E é preciso mais como voçês!
emprego de coragem
Anónimo
é um emprego que a qualquer momento estamos sujeitos a qualquer comportamento menos aconselhado, isso é verdade. Aos poucos e poucos, conseguem que fiquem os que verdadeiramente gostam disto, é o que quero acreditar.
cumprimentos,
Polvo Aveirense
Joao
Grande texto , os meus parabens o texto retrata toda a realidade dos arbitros das divisões inferiores
Mário Rebelo
Magnífico texto, escrito por um lado que poucas vezes tem o direito de falar.
Miguel Guerreiro
Vem preencher uma lacuna do blog, o ponto vista da 3ª equipa em campo.
Bom artigo!! No entanto, gostaria de destacar que os TODOS os intervenientes do futebol são como os prisioneiros, nunca têm culpa é sempre culpa dos outros.
Abraço
Anónimo
Miguel, não podia estar mais de acordo. O futebol precisa urgentemente de algo chamado bom senso. Eu (e falo apenas por mim, não pelos outros árbitros) tento ouvir os jogadores e não mostrar uma atitude intolerante perante eles. Nós temos a perfeita noção que erramos, e isso é o mais certo num jogo. Tento ouvir o jogador, perceber a opinião dele e apresentar a minha interpretação, assumindo que posso estar errado, mas foi o que me pareceu. Até hoje acho que tenho conseguido bons resultados com essa atitude, e quando erro não tenho problema em dizer ao jogador que me enganei. Tal como nós árbitros estamos sujeitos a uma pressão gigante, jogadores têm que aguentar o seu público e corresponder às expectativas, ou então nas camadas mais jovens para além das indicações do treinador ainda têm que ouvir os pais. É complicado, e faz parte do nosso trabalho aprender a lidar com essas situações.
cumprimentos,
Polvo Aveirense
Um Português Qualquer
Como em qualquer área, os mais sérios e honestos são preteridos pelos mais chico-espertos…
é assim na política, é assim nas empresas, é assim em todo o lado, só escala a montanha quem o poder quer…
Há mais de 100 jogos por jornada no campeonato nacional de seniores, o que significa que há mais de 100 árbitros nos quadros com capacidade para apitar jogos de competições de algum nível, há ainda mais assistentes e delegados…
Mas em Portugal um dos maiores males é que continua a proteger-.se o status de alguns em detrimento de outros, há maus árbitros apitar jogos da primeira liga há mais de 10 anos, e nunca ninguém os trocou por árbitros mais jovens ou se quer deram oportunidade a outros para mostrarem o seu valor…
Tudo isto é uma demonstração clara, de como funcionam as coisas, isto é como nos partidos, há pessoas boas e más em todo o lado, mas quem chega lá acima é quem serve determinados interesses instalados…
pessoas que não sigam tais interesses são ultrapassadas por outros… outros por lá se vão perpetuando…
Isto é a triste sina deste Portugal, seja na arbitragem ou noutra coisa qualquer…
Os jogadores de futebol normalmente pelo talento são recompensados, porque existe competição directa e resultados práticos para comparar a qualidade dos jogadores, os árbitros não, tudo é mais subjectivo, e quando a diferença se faz pelas "observações" de quem não se sabe bem que é e quem serve mais difícil se torna que os árbitros apitar ao mais alto nível sejam de facto os mais capazes ou os mais sérios.
Anónimo
Amigo,
não tenho a mais pequena dúvida da existência da corrupção neste meio, não só de clube/árbitros mas até dentro do próprio conselho de arbitragem a vários aspetos. Apesar disso, não tenho nenhum prazer em refugiar-me nisso para desculpar a minha incompetência em campo, nem para justificar as minhas notas ou mesmo a classificação final. Eu acredito no trabalho, e disso ninguem me pode apontar seguramente. Se ficar em casa a "chorar" , desculpando-me com o SISTEMA, aí seguramente nunca passarei dos escalões inferiores. E mais, todos aqueles que vi ao longo da minha carreira a desculpar-se com isso, nunca sairam dos distritais.
O nosso trabalho não se limita e ir para o campo e marcar o que vemos. É preciso haver um trabalho à priori de preparação, de estudo, de antecipação ao que pode acontecer. E preparados para decidir, a probabilidade de acertar é maior, estando à mesma sujeitos ao erro.
Se por ventura não conseguir os objetivos a que me propus, mas sei que fiz toda a preparação que podia e devia, então nada terei a apontar a mim. Acredite ou não, a grande maioria prefere ficar acomodada e dizer que o sistema não os deixa ir mais longe, e isso é que não me cabe na cabeça.
cumprimentos,
Polvo Aveirense
Anónimo
Texto fantástico que vem enriquecer de grande maneira este enormíssimo blog. Muitos parabéns e obrigado.
JohnnyBigodes
Guilherme Silva
Gostei do texto, bastante interessante para ver as coisas de outra perspectiva.
Pedro Martins
Dos melhores textos que li por aqui, parabéns!
cmoreira.ft
Fantástico. Grande texto.
Anónimo
Revejo-me completamente nesse texto. Abraço, João
Jpc
Enaltece bastante o que é a vida de um árbitro dentro e fora das quatro linhas. Pessoalmente, sou contra a ideologia de culpar árbitros por maus resultados ou pelo que quer que tenha acontecido, uma equipa de futebol tem sempre de provar em campo que é aquela que merece ganhar, o futebol joga-se com os pés e não com a boca sempre disposta a reclamar com o senhor árbitro ou com o senhor fiscal.
E o que agora vou dizer sempre o disse: Tal como um Avançado é humano e falha golos, que é o seu dever, também o árbitro é humano e por vezes comete erros, mesmo inadvertidamente.
Grande texto, parabéns.