É meu objetivo aprofundar algumas considerações sobre o Treino, pois entendo que é pela qualidade do treino que o treinador, em especial o treinador Formador, se deve distinguir, e deixando de parte o ganhar, o perder, o jogou o A em vez do B, o jogar em 4x3x3 ou em 4x4x2. Para o efeito, já publiquei um primeiro artigo, “O Táctico e a formação Táctica”, e para finalizar irei destacar outra componente:
A “pressão” de Ganhar: Avaliar o processo ou o resultado?
Não partilho da opinião que um treinador na formação trabalhe melhor sem a pressão do resultado. Desenvolvendo o trabalho em clubes de topo, em Portugal, na Europa ou em qualquer ponto do globo, é normal que assim seja, de acordo com a grandeza do clube. A inexistência ou não de pressão não pode, de forma alguma, condicionar a forma de trabalhar de um treinador e muito menos conduzir a alterações no método de trabalho. Para além disso, nada garante que passar praticamente todo o tempo disponível a preparar o jogo seguinte assegure a sua vitória. Treinar em função do resultado não garante que o mesmo seja atingido. O Ganhar e Perder estão relacionados com o processo, entendido como treino, mas não é determinante, pois pode ganhar-se e perder trabalhando bem ou mal.
Na formação existem mais garantias de sucesso ao desenvolver as competências nos jogadores, segundo a sua idade biológica, em função de um plano anual, e, simultaneamente, acompanhar esta progressão individual dos atletas (repertório motor) com a evolução de um jogar em equipa, ao invés de treinar uma equipa de Iniciados, Juvenis ou Juniores à semelhança de uma equipa de Seniores.
Privilegiando o treino como um espaço de aquisição de competências de evolução e não apenas como um momento de exercitação, os jogadores apresentarão mais recursos, tornando-se mais competentes, mais preparados e, em consequência, formarão uma equipa mais competitiva, com uma maior capacidade para jogar bem e consequentemente vencer mais vezes. Quando me refiro ao treino, não falo num treino isolado, mas sim numa sequência de treinos, estruturados em função de um planeamento de forma a garantir que todos os conteúdos sejam abordados no tempo e em progressão.
Sendo o processo de formação do Jovem futebolista um processo longo e contínuo,é inevitável um planeamento plurianual e transversal a todos os escalões etários, com uma programação de conteúdos adequada a cada um deles e articulada entre si. Na criação dos programas éessencial o enquadramento com o escalão etário. Conhecer as características dos jovens do escalão em questão é imprescindível para perceber e definir que conteúdos devemser abordados de acordo com a sua idade biológica e com as suas características, capacidades e habilidades no momento. Definidos os conteúdos, é a vez de os hierarquizar e distribuir a sua abordagem no tempo no sentido de serem transmitidos de forma ajustada, de acordo com a sua capacidade de aprendizagem e potencial.
Enquanto treinador no Sport Lisboa e Benfica, e também na minha última experiência na equipa B do Al Ahli, guiei-me sempre por uma ideia de jogo, compreendida como apenas mais um conteúdo a abordar ao longo do tempo, e sempre ajustada às características do escalão e à capacidade dos jogadores. Paralelamente à evolução de um jogar organizado, deve ocorrer a evolução dos jovens atletas e garantir-se que em Treino todos tenham as mesmas oportunidades de evoluir embora em escalas diferentes. Na época 2007/08, aquando da minha transição dos Juniores para os Iniciados, a primeira preocupação foi elaborar, juntamente com treinador Luís Nascimento, um documento de suporte a que chamamos de Orientações Metodológicas do treino no escalão iniciados. Esse documento sintetizou um conjunto de pressupostos visando orientar a atividade no escalão em questão. Para além do enquadramento no escalão, o passo seguinte foi “adaptar” o modelo de jogo ao escalão, ou seja, definir os princípios mais importantes e adequados para as diferentes fases dos vários momentos de jogo,em função da capacidade dos atletas,e perspetivar a sua evolução ao longo do ano. Paralelamente, a aprendizagem, o desenvolvimento e o aperfeiçoamento das competências individuais dos jogadores (entenda-se individual como reportório motor para o Jogar).
De forma a não tornar o artigo exaustivo, não pormenorizo ao detalhe os vários programas. No entanto, é de referir que foram elaboradosde uma forma transversal, em crescendo de complexidade e especificidade. Relativamente à distribuição de conteúdos, independentemente da forma de periodizar, o mais importante é que os vários conteúdos sejam abordados de forma ajustada, de forma a atingir o nível pretendido.
Como exemplo do trabalho diário, uma sugestão de uma sessão de treino em que é privilegiado o aperfeiçoamento da fase de construção do momento ofensivo e o desenvolvimento do cabeceamento:
1: Aperfeiçoar a técnica de cabeceamento lateral e frontal sem e com impulsão. (8´)
2: Coordenação (skipings) e cabeceamento com impulsão, de uma bola vinda do treinador, para uma baliza pequena e,após chegada ao solo, sprint para o ponto de partida. (8´)
3: Jogos 1×1 ou 2×2 com a mão e com golos de cabeça com balizas de 4 metros.(6´)
4A: Gr+6×4(a equipa em superioridade numérica inicia o jogo através do seu guarda-redes e tem como objetivo marcar golo numa das 4 balizas pequenas defendidas por uma linha ofensiva de três jogadores e um médio) (10´)
4B: Gr+4+(1)x5 + (1)+5×4+Gr ( Jogo de Ligação defesa/ataque pelo médio centro)(15´)
4C: Gr+10×10+Gr(20´)
5: Jogos 2×2 ou 3×3 com guarda-redes com apoios a cruzar privilegiando os golos de cabeça.(12´)
6: Finalizar o treino com exercício de finalização após cruzamento validando apenas os golos de cabeça.(15´)
Em função da capacidade de aprendizagem e evolução progredir-se-ia para o seguinte:
Exercícios de finalização após cruzamento com oposição de 1 jogador e 1 guarda-redes, com o objetivo de desenvolver o cabeceamento ofensivo e defensivo, em que o jogador, ou um dos jogadores, que finaliza fica na situação defensiva. Desta forma, aperfeiçoam-se os dois cabeceamentos: No cabeceamento ofensivo, ter a preocupação de definir o momento de atacar a bola, a mudança de direção e velocidade e o gesto do cabeceamento, quer ao 1º poste, quer ao 2º poste.No momento defensivo definir o enquadramento com a bola vinda do cruzamento, tendo a baliza e adversário também como referências, a orientação dos apoios de forma a permitir ver bola e adversário e evitar o cabeceamento para a zona central. Numa fase mais avançada, progredir-se-ia para o desenvolvimento do cabeceamento em função da especificidade da sua posição. É um facto, e não nego, que grande parte da nossa prestação é avaliada em função do resultado obtido e não do trabalho realizado. Uma forma de lidar com essa“pressão invisível do resultado”é criar uma auto-pressão para apresentar um treino com qualidade de acordo com uma lógica sequencial e de progressão para os jogadores, pressionar os atletas para que a cada dia que passa sejam melhores e impor níveis de exigência, determinação e rigor na organização do treino. Estes fatores devem superar a pressão “invisível” do resultado a que treinadores e jogadores estão sujeitos.
Deve trabalhar-se para ganhar, mas sem abdicar daquilo em que acreditamos que é o melhor para a Evolução dos nossos jogadores e da nossa equipa. Mas isso depende da impressão digital de cada um e a forma como pretende deixar a sua marca…
Bruno Lage, treinador de futebol



0 Comentários
Pedro Barata
Extraordinário artigo. Muitos parabéns, espero que este espaço continue
Kafka I
Simplesmente excelente, mais uma vez ….
PS: Bruno Lage o teu lugar é a treinar o Benfica B, nunca consegui aceitar de forma lógica o porquê da tua saida, enfim…
Diogo
Depois deste excelente texto a pergunta que se impõe é se em Portugal, no geral, o treinador-formador, está mais preocupado em formar ou em ganhar?
Ricardo Fernandes
Penso que essa pergunta, infelizmente, não é muito difícil de responder.
Pedro Santos
Pode-se formar e ganhar ao mesmo tempo.. Aliás, uma não faz sentido sem a outra. A questão é a melhor maneira de o fazer pois isso é que é o mais difícil.
O que muitas vezes os treinadores não pensam é que os resultados são o resultado do trabalho exercido no treino. Ou seja, eu tenho sempre de treino no máximo e os resultados virão certamente.. Não posso mudar a minha forma de trabalhar apenas porque os resultados não aparecem a curto prazo. O treino é um processo lento e o treinador formador tem de acreditar no trabalho que está a realizar e ser consistente ao longo deste processo.
Por outro lado não faz sentido treinar sem nenhum objectivo competitivo, pois é para isso que estamos a trabalhar. Claro que o objectivo deve ser adequado à qualidade da equipa e tendo em conta à competição que estamos inseridos. Os "miúdos" devem entender a responsabilidade de um jogo e ao mesmo tempo ser competitivos e lutando sempre para vencer.
Kafka I
A questão de fundo não é essa, na minha opinião…para mim a culpa principal é dos dirigentes, que na grande maioria são completamente ignorantes do ponto de vista futebolístico, e como tal são incapazes de perceber que nas camadas jovens o mais importante é formar e não ganhar, e como tal, quando limitam a sua análise sobre os treinadores aos resultados e portanto se eles não aparecem despem-nos…
Anónimo
Caro Kafka I aí é que está uma grande parte do problema do futebol português. O dirigismo chega a ser anedótico e no que toca a formação nem vale a pena falar porque chega a ser nojento certas e determinadas situações que se vão sucedendo.
O problema até começa no fundo da pirâmide que é o futebol distrital, onde qualquer "barrigudo" (nada contra o perímetro abdominal dilatado) que tenha dado dois pontapés na bola serve para ser treinador nos escalões de formação. É HILARIANTE ver certos treinos e jogos nestes escalões…é vê-los aos gritos com os miúdos querendo comandar a equipa como se tivessem um comando de PlayStation na mão. O problema é que basta ter uma licenciatura ou uma empresa que invista num clube para se aceder ao cargo de dirigente. Alguns nem gostam de futebol.
Sr.Redes
Anónimo
Acho que o grande problema nem é esse, porque todos nós queremos ganhar e fazemos o máximo por isso. Para mim, que sou iniciado de 2º ano, o grande problema são as escolhas dos treinadores, maior parte dos treinadores em Portugal prefere um jogador "brinca na areia" do que um jogador que pensa o jogo. Eu sou pequeno em estatura mas consigo ganhar quase todos os duelos individuais quando se é exigida a força, mas depois em vez de tentar a finta prefiro o passe e organizar o jogo. O que eu estou a tentar dizer, é que hoje em dia (falo da posição 6 porque é a que estou mais por dentro) os treinadores preferem um médio defensivo que seja capaz de fintar tudo e todos ao contrário de um médio defensivo que seja capaz de controlar o jogo, temporizar quando for preciso e fazer passes longos quando também é preciso.
Outro ponto, é o treino individual.. Dos iniciados para cima um jogador já tem o seu estilo de jogo, já sabe "fintar" e por isso não sou muito a favor dos treinos de 1×1 (onde de vez em quando também não faz muito mal) e por isso nessa altura o jogador tem de ganhar inteligência a jogar, saber-se posicionar, tomar as decisões certas (especialmente para extremos e para avançados).
Mas este sou eu (gosto de fazer de treinador nos treinos e ajudo um bocadinho quando posso, quem sabe um dia possa mesmo vir a ser treinador) que tenho umas ideias fixas um pouco diferentes do pessoal normal, digamos que prefiro um Modric a um Ronaldo, ou de um Xavi a um Neymar.
PS.: Lembrei-me agora, uma das grandes caraterísticas que um treinador de camadas jovens tem de ter é de conseguir motivar (brincar às vezes também é preciso) porque os jovens desmotivam muito facilmente.
Tenho a sensação que queria dizer muita coisa de jeito neste texto e acabei por não dizer nada de interessante e tudo ao monte xD, mas pronto :D
Ass.: Diogo
Pedro Fernandes
Eu que jogo numa posição semelhante (8/10), penso exatamente como tu Diogo, tens toda a razão. Outra coisa que muitos jogadores preferem, é jogadores que corram muito, mesmo que mal, a jogadores que corram o suficiente e que se posicionem bem!
Pedro Fernandes
*treinadores
André Pinho
Pedro e Diogo,
Como em tudo na vida, o equilíbrio é a palavra chave. O exemplo mor da formação é o Barcelona, de onde tantos jogadores saem da formação com uma combinação técnica/táctica/física brutal, mas infelizmente para trabalhar a esse nível, são precisos recursos que só estão ao alcance de menos de 1% dos clubes profissionais, já para não falar dos não profissionais.
No entanto, acreditem que o comum futebolista, deve preocupar-se na sua formação em adquirir características individuais que o façam sobressair dos demais. A razão é simples. O posicionamento em campo, a ocupação de espaços, a tomada de decisão são aspectos mentais do jogo, e desenvolvem-se perfeitamente em idade adulta. Se um atleta jovem correr mais que todos os outros, fintar meia equipa ou chutar a 200 kms/h, vai ser "caçado" por algum treinador suficientemente bom para o ensinar a dominar os aspectos mentais do jogo, no decorrer da implementação das suas ideias e do seu modelo de jogo.
Por outro lado, se um treinador de topo tem um atleta inteligentíssimo, mas apenas mediano em termos técnicos/físicos, vai sempre procurar substitui-lo por um "diamante" em bruto a quem possa ensinar a inteligência.
Lembrem-se que o Modric e o Xavi, antes de serem grandes cérebros, são dos jogadores com maior capacidade de passe longo, primeiro toque, e colocação de remate a nível Mundial.
Anónimo
"(…) que grande parte da nossa prestação é avaliada em função do resultado obtido e não do trabalho realizado."
Este sim é um problema na formação a nível nacional…olha-se muito ao resultado no imediato…mas o verdadeiro "resultado" será apresentado no futuro.
A vontade de vencer deve estar sempre presente e ser incutida aos jovens seja quais forem as ambições da equipa. É um "valor" que deve ser incutido tal como a união por exemplo.
Este espaço é um "upgrade" brutal para o blog.
SL Sr. Redes
Bráulio
Do artigo em questão podemos ver um claro exemplo de como treinar o cabeceamento. Mais do que o treino em si gostava de reflectir acerca de um ponto: capacidade dos treinadores para treinar. É óbvio que os melhores treinadores têm abordagem semelhantes a cada momento de jogo e não é preciso recorrer a nenhum Mourinho para o ver porque há treinadores de qualidade até nas divisões secundárias.
No entanto, entrando um pouco em off-topic pergunto-me como é possível existirem treinadores conceituados, que auferem milhões e que não percebem nada disto?!? Não me refiro a Paulo Bento que por muitos defeitos que tenha acredito ser um treinador que se preocupava em abordar os vários momentos do jogo. Falo concretamente de Scolari que, como sabemos, tinha inúmeras lacunas no tipo de treinos (não obstante as qualidades que apresenta). Quando abandonou o Chelsea, Terry e Lampard afirmaram publicamente que nunca viram um treinador que percebesse tão pouco de futebol, no momento da sua saída da nossa selecção foi falado que não eram treinadas as bolas paradas defensivas (e porque será que perdemos assim com a Grécia por exemplo?) nem sequer eram mostradas vídeos dos adversários (séc. XXI alô!).
Sendo assim, havendo tantos, mas mesmo tantos treinadores com qualidade de treino (que podem eventualmente ter lacunas noutros aspectos fulcrais) porque não valorizar mais o trabalho do adjunto nesse âmbito? Por exemplo Vilas Boas teve muito a agradecer a Vítor Pereira que se preocupava mais com aspectos minuciosos do treino. Depois do seu "divórcio" viu-se que o FCPorto continuava capaz de ter jogadores entrosados, dotados de uma qualidade tática exímia e muito em virtude do outrora adjunto que virava treinador (será que AVB perdeu algo nessa matéria nos seus clubes posteriores? há quem diga que sim), mas os jogadores perderam um pouco o respeito pelo treinador (as circunstâncias também forem adversas diga-se de passagem), o relacionamento com a comunicação social foi-se deteriorando e a empatia com os adeptos esgotou-se (embora bicampeão). O que quero fazer referência é da importância do adjunto, tantas vezes ignorada, que complementa as lacunas do treinador. Das melhores duplas que já vi: Robson-Mourinho; Mourinho-AVB; AVB-Vitor Pereira. Não comento mais porque infelizmente não é possível estar presente nos treinos e perceber a vitalidade, mas nestes casos em concreto é possível ver um antes e um depois e concluir que uma vez desfeita a dupla o treinador é quem perde mais.
FB
Bráulio, adorei.
Anónimo
Brian Clough-Peter Taylor!
Pedro Soares
Anónimo
Texto simplesmente brilhante…e os pseudo dirigentes dos clubes em Portugal a dormir. Bruno Lage a tua hora irá chegar. Abraço Mcfistu
Pedritxo
Estes posts do bruno lage sao de uma qualidade que ninguem pode questionar, parabens, e aprende-se muito, obrigado