Sérgio Conceição está para o F.C. Porto e para a sua massa adepta, como D. Sebastião está para Portugal, mas com uma substancial diferença, é que este apareceu mesmo do meio do nevoeiro. Corria o dia 8 de junho de 2017, quando Sérgio é oficializado como o novo timoneiro de um navio sem rumo.
Após épocas de grande investimento e baixíssimo retorno desportivo, a escolha da direção, para reerguer um clube que apenas havia vencido uma Supertaça nas 4 épocas anteriores, era olhada com grande desconfiança. No currículo constavam alguns trabalhos meritórios, com destaque para uma final da Taça de Portugal no S.C. Braga e um trajeto amplamente destacado, em cerca de meia época, na Ligue1. Contudo, o desafio agora era outro e com um currículo relativamente pobre, muitos ficavam de pé atrás sobre a real capacidade de recolocar o clube numa senda de sucesso desportivo.
Pouco mais de 6 anos passaram e a verdade é que hoje ninguém dúvida do mérito e da capacidade de Sérgio Conceição, enquanto treinador. Praticamente todos os anos é colocado na órbita de grandes clubes europeus e está na elite por mérito próprio. O F.C. Porto, ainda que longe de hegemonias conseguidas durante o reinado de Pinto da Costa, está hoje, indubitavelmente, melhor do que nesse Verão de 2017.
Não obstante o enorme trabalho que o treinador portista tem desenvolvido nos últimos anos, o clube continua mergulhado numa enorme crise financeira. A sombra do Fair-Play Financeiro não abandona os corredores do clube e tudo aquilo que são reforços tem implicado sempre uma enorme ginástica financeira.
Outrora visto como um clube referência, no que ao mercado diz respeito, o clube tem perdido prestígio e margem negocial, para isso basta atentar no Top-10 maiores vendas nacionais, percebendo que o Benfica domina no Top-5 e mesmo o Sporting já ultrapassou o F.C. Porto, comparando as maiores vendas da história de cada um dos clubes.
Por um lado, a responsabilidade de uma SAD cansada, desatualizada e, acima de tudo, com interesses cada vez mais promíscuos na gestão do clube, não pode ser de todo ilibada desta gestão danosa. Por outro, não é menos verdade a insistência e a intransigência de Sérgio Conceição, que obriga o clube a manter elementos importantes em final de contrato, garantindo assim uma maior capacidade desportiva mas ao mesmo tempo diminui a sustentabilidade financeira dos azuis e brancos. Atentemos nos seguintes dados:
– Saldo das Transferências na Era Conceição (valores em Milhões):
| Época | Gastos | Receitas | Total | ||
| 17/18 | -21,25 | 62,5 | 41,25 | ||
| 18/19 | -27,9 | 72,55 | 44,65 | ||
| 19/20 | -55,75 | 93,4 | 37,65 | ||
| 20/21 | -10,73 | 72,75 | 62,02 | ||
| 21/22 | -34 | 72,25 | 38,25 | ||
| 22/23 | -37,78 | 81 | 43,22 | ||
| 23/24 | -14,4 | 67,5 | 53,1 | ||
| Total | -201,81 | 521,95 | 320,14 | ||
| Saldo médio | 45,73 | ||||
– Top-16 atletas mais utilizados na Era Conceição (valor em Milhões):
| Jogadores mais utilizados | Vendidos | Comprados | Total |
| Otávio | 60 | -2,5 | 57,5 |
| Tecatito Corona | 3 | -10,5 | -7,5 |
| Marega | 0 | -3,8 | -3,8 |
| Uribe | 0 | -9,5 | -9,5 |
| Alex Telles | 15 | -7,35 | 7,65 |
| Marcano | 0 | -5,73 | -5,73 |
| Mbemba | 0 | -4,66 | -4,66 |
| Sérgio Oliveira | 3 | -1 | 2 |
| Danilo Pereira | 20 | -4,5 | 15,5 |
| Manafá | 0 | -7 | -7 |
| Felipe | 20 | -8,2 | 11,8 |
| Marchesín | 1 | -7,7 | -6,7 |
| Herrera | 0 | -11 | -11 |
| Luis Díaz | 47 | -7,22 | 39,78 |
| Tiquinho | 5,4 | -5,6 | -0,2 |
| Brahimi | 0 | -6,5 | -6,5 |
| Total | 174,4 | -97,03 | 77,37 |
| Média | 11,05286 |
*Valor das duas compras de Marcano
– Maiores vendas da Era Conceição (Apenas transferências acima dos 15M):
| Época | Atletas | Valor | |
| 17/18 | Rúben Neves* | 17,9 | |
| 17/18 | André Silva* | 38 | |
| 18/19 | Diogo Dalot* | 22 | |
| 18/19 | Ricardo Pereira | 22 | |
| 19/20 | Éder Militão | 50 | |
| 19/20 | Felipe | 20 | |
| 20/21 | Fábio Silva* | 40 | |
| 21/22 | Luis Díaz | 47 | |
| 21/22 | Danilo Pereira | 16 | |
| 22/23 | Vitinha* | 41,5 | |
| 22/23 | Fábio Vieira* | 35 | |
| 23/24 | Otávio | 60 | |
| Total | 409,4 | ||
| *Total Formação | 194,4 | ||
– Maiores compras na Era Conceição (valor em Milhões):
| Atleta | Custo | Venda |
| David Carmo | -20,3 | Ativo |
| Pepê | -15,4 | Ativo |
| Nakajima | -12 | 0 |
| Zé Luís | -10,75 | 5,5 |
| Veron | -10,25 | Ativo |
| Ivan Jaime | -10 | Ativo |
| Uribe | -9,5 | 0 |
| Galeno | -9,02 | Ativo |
| Grujic | -9 | Ativo |
| Evanílson | -8,8 | Ativo |
| Nico González | -8,4 | Ativo |
| Alan Varela | -8 | Ativo |
| Marchesín | -7,7 | 1 |
| Mamadou Loum | -7,5 | Ativo |
| Luis Díaz | -7,22 | 47 |
| Éder Militão | -7 | 50 |
| Manafá | -7 | 0 |
| Total | -167,84 | 103,5 |
| Saldo | -64,34 |
À primeira vista o saldo pode parecer positivo, contudo, um olhar mais cuidadoso para os dados demonstram que existe uma tendência gritante para perder timing de venda de atletas importantes na manobra da equipa. A mal-amada formação representa praticamente 50% das maiores transferências dos últimos anos. E Militão, Luis Díaz e Otávio são as exceções. Contudo, no caso do colombiano o valor e o momento de venda tornam o movimento negativo, naquilo que deveria ser uma exceção positiva nas contas. E para o internacional português trata-se de uma venda claramente inflacionada, para um mercado que até há um ano era inexistente e que ao que se sabe, praticamente provocou a rotura entre Sérgio e a SAD. Nos 16 atletas mais utilizados por Conceição, apenas 5 apresentaram lucro. E daquilo que são os maiores investimentos, percebemos que em 7 saídas apenas 2 deram lucro, sendo que dos 10 que ainda estão no plantel (cerca de 107,67 de investimento), apenas Pepê parece apresentar potencial para um encaixe significativo no curto prazo.
Num momento em que Benfica, Sporting e até Sporting de Braga parecem apresentar uma pujança financeira considerável, o Porto parece continuar numa situação pantanosa. Provavelmente, ter-se-á perdido o timing de venda de Taremi (previsivelmente será o próximo 0 da lista) e do próprio Pepê que terminará a próxima época com 27 anos. Esta gestão tem feito o clube perder ativos que apesar de bons encaixes, parecem render menos do que aquilo que poderiam render.
Importa ainda referir que neste artigo, apenas estão balançados os valores das transferências, sendo que ainda falta imputar aos lucros aquilo que são deduções por menor % do passe, salários (como o caso de Otávio), que obrigam o clube a um esforço surreal e outras comissões que não tornam líquido aquilo que se recebe.
E se por um lado a SAD não pode ser de todo ilibada, Sérgio Conceição também não. A insistência e a intransigência de Sérgio Conceição, que obriga o clube a manter elementos importantes em final de contrato, garantindo assim uma maior capacidade desportiva mas ao mesmo tempo diminui a sustentabilidade financeira dos azuis e brancos acaba por ser, na minha opinião, o pecado capital num percurso singular. Resta saber se no final da história será o D. Sebastião salvador, ou se o pecado capital irá fazer pender a balança para o lado negativo da força.
(Dados retirados de ZeroZero e Transfermarket)
Visão do Leitor: Santander


6 Comentários
Petrol
Concordo plenamente com o texto. Apesar do excelente trabalho, SC tem de começar a ser olhado como parte do problema
Fireball
Bom artigo. Como rival não tinha bem noção dos números. Impressionante como tão poucos jogadores deram lucro de entre os mais utilizados. Retorno desportivo sim, mas a maioria não deu retorno financeiro.
LMMarado
Ainda hoje vi um vídeo a explicar como os salários, sobretudo nos aspectos contabilísticos considerados no FFP, são de grande impacto; por vezes maior impacto do que as transferências.
Em Portugal, talvez não seja tanto assim, mas seria interessante um mergulho nesse lado da contabilidade dos clubes portugueses, em particular do FCPorto.
O texto é muito interessante e espelha o que já sabemos sobre a Era SC no FCP (para não falar das últimas décadas da Era PdC).
Joe
Quero tirar o chapéu ao Santander. Artigo muito bem escrito. Especialmente sobre o duplo papel de Sérgio Conceição.
Falta contudo um olhar para algo que precede estas questões e que tem a ver com o modelo de negócio. O Porto teve em 21/22 proveitos operacionais de 97 milhões de euros para custos totais de 207 milhões de euros, ou seja temos um buraco de 110 milhões a necessitar de cobertura (pelas receitas da Liga de Campeões e pelas mais-valias das vendas de jogadores.
E esta situação que se repete ano após ano e é a prazo perfeitamente insustentável.
Isto é algo que transcede o Sérgio Conceição e que tem que ser imputado a uma SAD completamente incapaz de inverter a situação financeira pantanosa em que o Porto vive e em impedir o pecado capital referido no artigo.
E este sim a meu ver é o grande pecado capital do Porto.
kurt
Alguns dos valores apresentados não estão corretos, por exemplo no mercado deste ano o Porto gastou bem mais do que está apresentado. 10M€ no Ivan Jaime, 8.4M no Nico, 8M no Varela, 7M no Navarro. Só aqui estão 33.4M€, sem contabilizar o valor nos empréstimos.
Mas dá para passar a ideia, o Porto está a vender mal e a más horas sendo que já são demasiadas saídas a custo 0 e muitos fiascos contratados.
Santander
Obrigado pela correção! De facto o valor das compras este ano, não está atualizado. Com a correção feita dará algo do género:
23/24 34,15 67,5 33,35
Total 221,56 521,95 300,39
Média 42,9128571