Ao longo da última década, o mundo do ciclismo testemunhou a ascensão de um dos praticantes mais talentosos da história, Peter Sagan. Nascido em Žilina, Eslováquia, em 1990, Sagan rapidamente alcançou sucesso no pelotão mundial, destacando-se pela sua versatilidade, o que lhe permitia vencer qualquer corrida, independente do perfil.
A carreira de Sagan começou na sua cidade natal, aos 9 anos, quando ingressou na Associação de Ciclismo de Žilina. Durante o seu crescimento, Sagan não se limitou ao ciclismo de estrada, competindo também em ciclismo de montanha. Um marco notável na sua formação ocorreu aos 17 anos, quando o eslovaco, cujo patrocinador não forneceu atempadamente uma bicicleta, venceu a “Slovak Cup” utilizando a bicicleta da irmã, que tinha sido comprada num supermercado local e era significativamente inferior às do restante pelotão.
Aos 19 anos, assinou o seu primeiro contrato profissional com a equipa eslovaca Dukla Trenčín–Merida, onde já competia o seu irmão mais velho Juraj, inserida na divisão continental do ciclismo – 3ª divisão do pelotão internacional. No final da época, e apesar do seu desejo de continuar a competir em ciclismo de montanha, o seu agente convenceu-o a focar-se nas provas de fundo e a explorar oportunidades em equipas World Tour, o nível mais alto do ciclismo. O ano de 2010 marcou um ponto de viragem com Sagan a assinar contrato com a Liquigas – Doimo.
Durante a pré-época, é apelidado de “Terminator” devido ao número excessivo de bicicletas que partiu por estas não conseguirem aguentar com a sua potência. A sua estreia no UCI ProTour em 2010, impressionou a comunidade do ciclismo. Durante o “Down Under Tour”, Sagan conquistou o 3º e o 4º lugares em etapas, demonstrando cedo o seu potencial. No “Paris-Nice”, a sua primeira prova de calibre World Tour, vence duas etapas, termina no pódio noutras tantas e conquista a camisola por pontos. A sua prestação em solo francês foi uma excelente introdução aos fãs do quão único era o seu skillset. Depois de um 2º lugar na 2ª etapa que contou com uma chegada para sprinters, Sagan conquistou a 3ª etapa numa chegada em subida onde conseguiu bater escaladores mais experientes como Nicolas Roche e Joaquim Rodríguez. Ainda nesse ano, conquistou a camisola dos sprinters no “Tour of California”, uma das suas provas prediletas.
Os anos seguintes foram marcados por várias vitórias e recordes. Em 2011, venceu a geral do “Giro di Sardegna”, revalidou a camisola verde no “Tour of California” e tornou-se campeão eslovaco de estrada pela primeira vez. Também conquistou a classificação por pontos no “Tour de Suisse”, outra corrida onde teria bastante sucesso ao longo da carreira, e a classificação geral do “Tour de Pologne”, a sua primeira numa prova World Tour. Em Espanha, estreia-se em grandes voltas, vencendo três etapas.
Em 2012, Peter Sagan continuou o seu domínio no “Tour of California”, onde venceu cinco etapas, incluindo as quatro primeiras, antes de estrear no “Tour de France”. Antes da corrida, os gerentes da equipa prometeram-lhe um Porsche caso vencesse 2 etapas e a camisola verde. O eslovaco cumpriu, conquistando a camisola verde e vencendo três etapas. Adicionalmente, aos 22 anos, tornou-se no mais jovem vencedor de uma etapa no Tour desde Lance Armstrong em 1993.
Em 2013, Sagan capturou novamente a camisola por pontos no “Tour de France” e foi nomeado Atleta do Ano na Eslováquia pela primeira vez, encerrando o ano com umas impressionantes 22 vitórias, o melhor registo no pelotão.
Sagan continuou a impressionar em provas de etapas nos anos subsequentes. Na Califórnia, venceu a classificação por pontos em 7 das suas primeiras 8 participações, a geral em 2015, curiosamente o único desses 8 anos em que não venceu a camisola verde, e conquistou 17 etapas, recorde absoluto na competição. Na Suíça, fez ainda melhor e venceu 8 classificações dos sprinters em 9 edições, conseguindo também o recorde de vitórias em etapas com 18. No Tour, terminou a corrida com a camisola verde em sete ocasiões, mais do que qualquer outro ciclista na história da competição.
Em clássicas, o destaque vai para os 3 Mundiais de fundo conquistados entre 2015 e 2017, considerados pelo próprio como os melhores momentos da carreira. Esta foi a primeira vez que alguém o fez de maneira consecutiva. Também venceu 8 títulos nacionais de fundo entre 2011 e 2022, tendo apenas falhado a conquista da prova em 4 ocasiões, sendo batidos em todas elas pelo seu irmão. Finalmente, Sagan conquistou 9 clássicas de nível World Tour, incluindo 2 Monumentos (“Tour de Flandres 2016” e “Paris-Roubaix 2018”) onde terminou consistentemente entre os melhores (5 pódios e 17 top-10s).
A partir de 2020, o eslovaco demonstrou dificuldades em manter o nível de excelência que tinha apresentado durante a última década. Porém, Sagan ainda conseguir juntar ao seu palmarés uma camisola vermelha (pontos) no Giro em 2021 e a classificação geral na Volta à Eslováquia, a sua única participação na prova e a primeira vez que competiu no seu país de origem desde 2009 (excluindo campeonatos nacionais).
No começo de 2023, o agora ciclista da TotalEnergies, anunciou que este seria o seu último ano no ciclismo de estrada, optando por competir no ciclismo de montanha, tendo como objetivo a qualificação para os Jogos Olímpicos de 2024.
Aos 33 anos, um regresso às estradas será sempre uma possibilidade para Sagan. Ainda na última Vuelta, Primož Roglič e Mikel Landa, ambos com a mesma idade do eslovaco, terminaram no top-5 da geral. Um dos seus maiores rivais, Mark Cavendish, venceu uma etapa do Giro aos 38 anos. Independentemente de esse retorno acontecer, para a história ficam 121 vitórias, inúmeros recordes, e um estilo de corrida tão completo que é virtualmente impossível de categorizar.
Visão do Leitor: Ricardo Boia


2 Comentários
Paulo Roberto Falcao
Excelente texto Ricardo.
Foi durante muitos anos o meu ciclista preferido. Gostava daquela forma louca e agressiva de atacar a corrida, foi sem a menor dúvida o ciclista mais combativo que vi neste século. Cheguei a pensar que ele poderia fazer a transição para outros voos, e deixar os sprints, os ataques de franco atirador e as corridas de um dia, sempre foi o sprinter que se dava melhor na montanha, nunca saberemos o que teria sido a sua carreira se tem investido em ser chefe de fila.
Algo se perde a partir de 2020, não sei se foi só o Covid. Estranho que os 28/32 anos são os anos do Top de quase todos grandes ciclistas, e nele marcaram o declínio e a decadência. Irei obviamente seguir os o que se segue com curiosidade.
Ibagaza
Hoje em dia o ciclismo vive dias muito mais interessantes do que quando o Sagan apareceu. Foi a era da Sky onde o domínio deles era avassalador e secavam tudo à volta. Sobravam as provas de um dia onde o Sagan era de forma tão destacada o grande favorito que a marcação individual era absurda. Nas provas da Flandres era quase um Sagan contra todos. Nos dias de hoje, com os rivais que teria, talvez tivesse tido outro entusiasmo na carreira e tivesse tido outro gosto pela competitividade.
Ganhar 3 mundiais seguidos é digno de registo eterno, fazê-lo numa seleção tão modesta quanto a Eslovaca ainda mais impressionante é. Destronar Zabel nas verdes do Tour também. São dois recordes que vão ficar para bastante tempo. De qualquer forma o que vai ficar de Sagan é o seu espírito indomável e alegria a correr.