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Geny, o diabrete moçambicano que nos obriga a rezar o Terço

Diz-se nas tertúlias de trazer por casa, onde se discutem os milhões dos agentes e a cor das chuteiras, que a glória do Sporting mora em nomes que fazem as capas dos jornais, mas há um rapazito de pés de veludo e drible de carteirista que continua a ser o segredo mais mal guardado de Alvalade. Geny Catamo é o nome da peça. Um jogador tão “underrated” que só pode ser por distração coletiva ou por excesso de luzes postas em quem grita mais alto. Para mim, benfiquista de gema que só quer ver o glorioso ganhar até a feijões, o moço é um autêntico teste à minha saúde cardiovascular. Sempre que joga contra nós, e aquele diabrete pega na bola e aponta para a baliza, sinto uma urgência metafísica de me benzer, de procurar um amuleto ou, no mínimo, de pedir ao senhor padre que interceda junto da nossa defesa.

Geny Catamo não é propriamente um jogador de futebol, é mais uma partida de mau gosto que o destino pregou aos defesas que ainda acreditam na ordem e no sossego das leis da física. O rapaz tem um drible tão curto e matreiro que parece que a bola está colada à bota com cuspo moçambicano, deixando qualquer lateral a tentar agarrar as sombras, enquanto ele se evapora num ápice de eletricidade pura e explosividade de quem tem pressa de chegar à baliza. Tem aquela finta de corpo que desarma o juízo e a anca de qualquer mortal, um cruzamento com a precisão de um alfaiate de luxo a retificar uma bainha, uma explosão que faria inveja a uma fábrica de foguetes e a capacidade de transformar um corredor lateral num autêntico campo de minas para os nossos nervos. É um extremo que joga com o desplante de quem está no pátio da escola, mas com a frieza de quem sabe que um centímetro de espaço é o suficiente para nos obrigar a procurar o terço e para transformar um domingo de sol num baile onde nós, infelizmente, somos o par que fica a ver a música passar.

No último dérbi, aquele em que fomos a Alvalade mostrar quem manda, o Geny decidiu que o pobre do Samuel Dahl era o seu brinquedo de estimação. Foi um suplício de tal ordem que o sueco, vindo do frio, deve ter sentido que estava a tentar agarrar fumo com as mãos. Se não fosse o Schjelderup – esse norueguês que, para além de saber tratar a bola por “tu”, decidiu que naquela noite também tinha de ser o guarda-costas do lateral – o Dahl teria acabado o jogo a pedir um GPS para encontrar a saída do relvado. O Andreas fartou-se de correr para trás, fazendo dobras e tapando buracos, enquanto o Geny bailava com aquela finta curta que deixa qualquer um a falar com as paredes. É um crime de lesa-futebol que se fale tão pouco deste moçambicano.

Geny é, sem tirar nem pôr, um dos melhores trunfos daquele lado da Segunda Circular, mas a crítica parece andar ocupada a polir outras pratas. Melhor para eles, pior para nós, que temos de levar com aquela eletricidade toda sempre que nos cruzamos. O rapaz não joga apenas à bola; ele desafia as leis da física e a nossa paciência, transformando cada posse de bola num “ai Jesus” constante. É um talento puro, lapidado naquela mistura de irreverência e eficácia que já não se fabrica em série. Vencemos o dérbi, é verdade, e o coração lá voltou ao sítio, mas enquanto o Geny andar por lá a espalhar brasas, o meu terço continuará bem à mão, porque o talento dele é das poucas coisas que a propaganda não consegue esconder por muito tempo.

Valter Batista

2 Comentários

  • Christian Benítez
    Posted Abril 23, 2026 at 11:42 am

    Vivemos uma era em que o futebol está altamente robotizado e os jogadores são quase proibidos de serem criativos dentro do campo para não desposicionarem a defesa. E ver um jogador como Geny Catamo acalenta a esperança de que o futebol de rua, aquele futebol de rua imprevisível, regresse ao futebol de mais alto nível.

    Geny Catamo falhou em Guimarães e na Madeira, mas encontrou em Alvalade o espaço ideal para crescer como jogador e para impor a sua lei do futebol de rua. Que apareçam mais Geny Catamos para o futebol voltar ao seu estado mais puro.

  • FVRicardo
    Posted Abril 23, 2026 at 11:45 am

    É um desequilibrador nato.
    E eu critiquei aqui no VM a aposta nele, darem-lhe a camisola 10, mas RB, inteligente, decidiu continuar a atacar maioritariamente com 3 centrais e Geny aberto na direita. Nesta função há poucos como ele.
    Por não ter o hype que outros têm, espero que fique muitos anos em Alvalade.

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