Um castelo de cartas apenas se manterá de pé se a sua base permitir que a parte de cima se mantenha sustenta. Isto é óbvio, no entanto a explicação torna a analogia mais eficaz.
Perto do fim da pré-temporada o Benfica tinha uma boa base para sustentar a época. O elenco era semelhante ao do campeonato anterior, Liga que o Benfica deveria ter ganho não fosse incompetente perto do fim. O pior elemento desse plantel tinha saído “encostado”. Para substituir Emerson havia um competente Luisinho e a talentosa incógnita Melgarejo. Jesus tinha mais e melhores soluções. Assumindo que a incompetência tinha toda ficado em 2011/2012, e mesmo com o Porto também mais forte, o castelo de cartas parecia sólido.
Depois do fim da pré-época o Benfica já não tinha uma boa base para sustentar a época. Javi Garcia e Witsel foram cartas tiradas por completo da construção; Luisão foi tirado temporariamente. Ninguém foi contratado para os substituir. Com efeito, o Benfica tinha para jogar no meio-campo Aimar, Carlos Martins e Matic. Que se soubesse. Matic tinha sido sempre suplente, e nunca havia mostrado valor para ser titular. Que se soubesse. Aimar e Carlos Martins passavam a maioria do tempo lesionados. Isso sabia-se. E havia, aparentemente, 2 miúdos talentosos na equipa B. Assim, e que se soubesse, a equipa da luz tinha ficado altamente desequilibrada e sem profundidade no plantel para permitir a Jorge Jesus ter variedade nos planos tácticos ou técnicos. E mesmo que Matic viesse a ser bom, o outro lugar no miolo ia dar muitas dores de cabeça. Mas, às vezes, sabe-se pouco.
É incerto se Jesus optou pela adaptação de Enzo com certeza ou com desespero. Mas fê-lo. Não começou particularmente bem nem é ainda o médio centro ideal. E nunca, mas nunca, será um Witsel. O que não implica que não se torne um grande jogador. Apenas um diferente.
Se se notava a falta de intensidade defensiva e capacidade de equilibrar a equipa quando o argentino começou a jogar no centro, hoje isso nota-se menos; se falhava muito passes para um elemento tão importante na construção de jogo, hoje falha menos; se as características que tinha apenas serviam para compensar debilmente as limitações, hoje são essas características que se evidenciam.
Não é um Xavi, é um Yaya Touré; não é um Pirlo, é um De Rossi. Enzo empurra a equipa a equipa para a frente e puxa a equipa para trás.
É indiscutível que o surgimento de Salvio, Lima e Matic influenciaram a evolução de Enzo. Com 2 elementos tão fortes na frente, e com o sérvio na sua sombra (ou até ao seu lado a dar conta do recado, como poucos esperavam), o seu papel fica definido e o seu potencial pode finalmente ser explorado por inteiro. Passou de um médio ofensivo/extremo de qualidade (tinha sido apontado pelo VM como uma das grandes contratações da Liga portuguesa em 2011-12, pois era de facto um dos melhores elementos a actuar na América do Sul) para um nº 8 de excelência na nossa Liga.
Tendo em conta que às vezes sabe-se pouco, aprendeu-se muito.
Enzo encontrou, finalmente, o seu espaço no Benfica. E se, na pré-época, o seu lugar no elenco de Jesus era uma incógnita (incrível como um golo ao Real Madrid pode mudar a carreira de um jogador), agora, o seu papel na estrutura dos encarnados é, claro. Enzo é a carta que aguenta o castelo.
Luís Figueiredo


