
A presença de um tenista português nos rankings mais altos e nas fases mais importantes dos maiores torneios tem sido, nos últimos anos, uma raridade. No entanto, temos vindo a quebrar barreiras importantes, abrindo horizontes para as novas gerações. A longa e notável carreira de João Sousa é um testemunho de que temos talento e capacidade para alcançar grandes feitos neste desporto. Nuno Borges é também um jogador que tem aproveitado muito bem o seu potencial e está afirmado no top 50.
Contudo, estas referências tendem a perder impacto ao longo do tempo.
Se queremos chegar ao topo e manter-nos lá, precisamos de fazer mais do que esperar que surjam “Joãos Sousas” de X em X anos. A verdade é que João Sousa passou a parte mais importante da sua formação em Espanha, provavelmente por não encontrar em Portugal as condições e o contexto competitivo adequados para se desenvolver como jogador, e o próprio Nuno Borges teve um percurso notável no circuito universitário americano.
Mas como podemos nós conseguir ter mais jogadores portugueses a chegar de forma mais regular ao topo do ténis mundial?
Em primeiro lugar, precisamos de investir em infraestrutura, de melhorar as condições dos nossos clubes, proporcionar melhores condições aos treinadores e oferecer mais oportunidades aos nossos atletas para poderem competir ao mais alto nível em Portugal. Quero focar-me neste último ponto, pois acredito que a Federação Portuguesa de Ténis está a fazer um bom trabalho nesse sentido.
Muitos dos nossos jovens talentos (a falta de talento nunca foi a questão!) chegam a uma certa idade (17-18 anos) e enfrentam a decisão de arriscar uma carreira profissional no ténis ou focar-se nos estudos. Alguns têm a oportunidade de competir e estudar com uma bolsa universitária nos EUA (como no caso de Nuno Borges ou Duarte Vale), enquanto outros optam por uma vida profissional na Europa, que é exigente e implica um investimento significativo de dinheiro, tempo, viagens e, acima de tudo, força mental.
Na minha opinião, uma forma de apoiar os nossos jovens é oferecer-lhes a possibilidade de competir a nível ITF (Futures) e ATP (Challenger) em Portugal, evitando o esforço financeiro e mental de competir pela Europa e pelo mundo sem grandes condições e, muitas vezes, sem o apoio necessário.
Portugal tem apostado, nos últimos anos, na criação de um “circuito” interno de Categoria Challenger, no qual participam maioritariamente jogadores com rankings entre 100 e 300. Clubes como o CIF e o Jamor (em Lisboa), o CT Monte Aventino e CT da Maia (no Porto) e o CT Braga têm sido anfitriões de vários torneios ao longo do ano nesta categoria, dando oportunidade aos jovens portugueses de competir na “segunda divisão” do ténis mundial.
Esta fase da carreira é crucial, pois é quando surgem as primeiras oportunidades de dar saltos significativos, seja numa boa semana em torneios Challenger ou em rondas de qualificação dos maiores torneios. O circuito Challenger é extremamente competitivo e é uma etapa que põe à prova não só o talento em si, mas também a preparação física e mental necessária para alcançar o nível ATP. Portugal tem neste momento dois jovens talentos, Jaime Faria e Henrique Rocha, ambos com 20 anos, que estão precisamente nesta fase crucial da carreira, e já com muito bons resultados.
Um caso de sucesso deste tipo de estratégia é a Itália. A federação italiana tem investido fortemente na criação de um circuito Challenger interno, um projeto que começou há alguns anos e está a dar frutos agora. Itália é atualmente o país com mais torneios Challenger no mundo (a par com os Estados Unidos), com 17 torneios realizados entre janeiro e setembro de 2024 (segundo o site da ATP). Seguem-se França, com 14 torneios, e Espanha, com 12. Estes países proporcionam aos seus atletas as condições para ultrapassarem o duro circuito Challenger sem precisar de viajar para fora, permitindo-lhes concentrar os seus esforços e recursos num melhor apoio técnico, físico e psicológico.
Além disso, ao investir na criação de um circuito Challenger, as federações incentivam os clubes a melhorarem as suas condições, a qualidade dos courts, a organização de torneios e a aumentar a sua visibilidade.
Um dos maiores desafios do circuito Challenger é a rentabilidade financeira. É muito difícil conseguir que estes torneios sejam lucrativos, pois implicam um investimento entre 100 a 200 mil euros (dependendo da categoria), e sem apoios da federação e de patrocínios, dificilmente conseguem gerar lucro.
Mas apesar de tudo, há um benefício desportivo. A realidade é que estes quatro países (Itália, EUA, França e Espanha) têm atualmente 159 tenistas no Top 500 (no ranking actualizado recentemente no dia 8 de Julho). Sim, leu bem. Dentro do Top 500, há 43 jogadores americanos, 38 italianos, 52 franceses e 26 espanhóis.
E qual é o país que fecha o Top 5 com o maior número de torneios Challenger? É Portugal, com 8 torneios realizados nesse mesmo período. No entanto, atualmente temos apenas 5 jogadores portugueses no Top 500. O processo será duradouro, mas acredito que estamos no caminho certo. É uma questão de tempo até vermos os frutos deste modelo de desenvolvimento interno.
É também verdade que Portugal ainda não está ao nível desses quatro países em termos de torneios ATP (o Estoril Open foi recentemente despromovido para categoria Challenger), mas acredito que a fase crucial na carreira de um jovem jogador ocorre nas categorias inferiores (ITF e Challenger), e ao facilitarmos o acesso a esses torneios, estamos a dar um grande apoio aos nossos jovens talentos.
É por isso que acredito que estamos no bom caminho e que, se continuarmos a investir nesta estratégia, vamos ter ainda mais jogadores portugueses a ultrapassarem o circuito Challenger e a competir a nível ATP nos próximos anos.
Visão do Leitor: Tomás Carvalho


6 Comentários
guardiaodafalacia
Quais são os 8 torneios Challenger em Portugal, por curiosidade?
Tomás Carvalho
Até agora confirmados tivemos:
Oeiras Indoor I e II jogados nos rápidos do Jamor (Janeiro)
Oeiras Open I e II jogados na terra batida do Jamor (Abril e Maio)
Porto Open jogado nos rápidos do CT Monte Aventino (Julho)
Porto Challenger jogado na terra batida do CT Porto (Agosto)
Lisboa Belem Open jogado na terra batida do CIF (Setembro)
Braga Open jogado na terra batida do CT Braga (Setembro)
E provavelmente vão haver mais até ao fim do ano, ainda não foi publicado o calendário completo.
Marcelo_Chon
Além dos Challenger, existe um bom número de torneios ITF que também permitem competição e desenvolvimento dos jogadores.
Tiago Silva
Obrigado pelo texto Tomás. Desconhecia totalmente este tipo de torneios e pouco acompanho o ténis, mas é sempre positivo apostar nos nossos jovens e é bom saber que estamos a ir num bom caminho. Que outras federações consigam seguir este exemplo da Federação de Ténis e que cada vez mais tenhamos atletas com melhores condições para crescerem!
Marcelo_Chon
Muito bom texto. Talvez em falta uma referência aos dois promissores talentos que estão a despoletar no panorama Naciona, incluvisé com algumas vitórias relevantes: Henrique Rocha ( o nosso próximo Top100) e Jaime Faria.
Duas carreiras a acompanhar de perto!
Cossery
Tomás, obrigado pelo texto, desconhecia esses torneios e todo o processo de criação de talento.