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A Razão Inicial

Desenho: Pipa Carvalho Dias
Estádios projectados pelos melhores arquitectos e erguidos à custa de milhões de Euros. Legiões de seguidores colados a uma televisão, sozinhos em casa ou amontoados em bares. Material desportivo de luxo e feito com a mais alta tecnologia. Penteados dignos de um qualquer desfile de moda. Depilação primorosamente feita. Doping, Fair-Play, transição, fora-de-jogo e basculação. Dirigentes, treinadores, médicos, jornalistas e agentes. Fama, ódio, luxo e vaidade. Promiscuidade e efemeridade. 
Agora esqueçam isto tudo. Pensem na razão inicial. Não tinha nada que ver com isto…Porque é que todos, a certa altura da vida, sofremos da mesma doença? Terá algo do descrito no primeiro parágrafo a ver com a razão inicial?…Bem, provavelmente não…Mas então, o que é a razão inicial? Simples, é aquilo que nos faz não ter fome. O que nos leva a não nos cansarmos. Aquela vontade inquebrável em correr como se não houvesse amanhã, aquele orgulho em ser carregado e não cair, são as calças rasgadas como troféu duma batalha da qual se saiu ileso.
Hoje todos esqueceram a razão inicial. Orgulham-se disso. Dizem que não são ingénuos ou que o jogo é só para inteligentes. Mas há quem se agarre a ela como se a sua vida dependesse disso. Porque há vidas em que a vida não é feita de viver mas de sobreviver. Porque há sonhos que não são pesadelos mas que se chamam realidade. Porque no meio da lama, da fome, da guerra e da doença, há poucas coisas a que se agarrar. 
A razão inicial deve ser a melhor dessas coisas. Porque nela todos são iguais. Todos possuem os mesmos privilégios e obrigações perante ela. Ela obedece aos que a amam, chora e repugna os que a agridem. É o carinho dos pés, sejam eles rudes ou esbeltos, estejam eles calçados ou descalços, que define o comportamento da razão inicial. Por muito que no mundo muitos a abandonem, há quem se agarre eternamente à razão inicial. Quem a venere como altar de glorificação. A razão inicial é a bola.
Pedro Barata

15 Comentários

  • Kafka I
    Posted Setembro 20, 2015 at 10:58 pm

    Foi curto mas simplesmente GENIAL, estou sem palavras Pedro Barata, EXCELENTE….

  • Rui
    Posted Setembro 20, 2015 at 11:02 pm

    Espectacular.

    Faço uma vénia à tua escrita.

  • Anónimo
    Posted Setembro 20, 2015 at 11:03 pm

    Muito bom, Barata!
    Você realmente escreve como pouco. Parabens!
    Lembro de quando era criança (adolescente) e jogava bola quase que o dia todo, só parando para comer e ir a escola. Era um mundo de sonhos, somente sonhos… O futebol em seu estado puro, é apaixonante!

    Natan Fox

  • João Magalhães
    Posted Setembro 20, 2015 at 11:05 pm

    Bom texto para desanuviar do jogo.

  • Anónimo
    Posted Setembro 20, 2015 at 11:09 pm

    Muito bom.

    O futebol muito antes de ser um negócio para alguns já era um Desporto para todos.

    Samba!

    PJ

  • Ricardo F.
    Posted Setembro 20, 2015 at 11:14 pm

    "Porque é que todos, a certa altura da vida, sofremos da mesma doença?"
    Esta fez-me recordar o tempo em que os intervalos da escola eram passados no campo de futebol, nas aulas havia sempre uma bola debaixo dos pés ou ao lado da cadeira e o pós-escola era sempre na rua, com balizas improvisadas, jogos de pontaria ou simplesmente de "túneis", vizinhos a reclamar e carros a interromper a jogatana, de quando em vez. Fora os treinos e os jogos "mais a sério" no clube da terra.

    Ainda agora, quem me tira os dois jogos de fim de semana, tira-me muita coisa :)
    SL

  • Flávio Trindade
    Posted Setembro 20, 2015 at 11:35 pm

    A razão inicial que descreves com mestria é a essência de tudo.
    Esquecemo-nos disso com alguma frequência infelizmente.

    Belissimo texto Pedro Barata.

  • Nuno
    Posted Setembro 21, 2015 at 12:14 am

    Genial. À muito que não lia nada tão bom. Espectacular. Sem palavras.

  • Luís Pacheco
    Posted Setembro 21, 2015 at 12:21 am

    Nao ha palavras!!
    Belissimo texto Pedro Barata
    Os meus parabens, simplesmente espetacular

  • Anónimo
    Posted Setembro 21, 2015 at 1:41 am

    Gostei deste texto e fez-me lembrar o seguinte:
    O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da comunicação social. Com isto façamos das suas palavras a vida num jogo de futebol, onde se fintam as lágrimas, se rematam as tristezas e se marcam golos de felicidade!

    Tomás B.

  • Rodolfo Trindade
    Posted Setembro 21, 2015 at 8:37 am

    Mais uma vez excelente!

    Parabéns Barata por mais um texto.

    P.S Aposto que a Pipa é a namorada do Barata e este texto serviu para divulgar o belíssimo desenho que ela fez :)

  • Wonderkid
    Posted Setembro 21, 2015 at 11:27 am

    Fantástico texto! Os meus sinceros Parabéns.

    Muitas vezes na vida esquecemo-nos da "razão inicial"…

  • Maria Jesus
    Posted Setembro 21, 2015 at 4:40 pm

    Maravilhoso.Adorei ler o texto que escreveste com tanto conhecimento de causa.Porque tu pertences a esse grupo que tenta diariamente não se esquecer da razão inicial, sendo um fiel praticante:).Tudo de bom para ti aí por terras italianas.

  • Anónimo
    Posted Setembro 21, 2015 at 4:41 pm

    Pedro Barata, és um poeta.

    Vitorino

  • RMSO
    Posted Setembro 21, 2015 at 4:52 pm

    Ora aí está a razão de gostar de futebol.
    Horas e horas a jogar em alcatrão, calçada portuguesa (por vezes nem isso), terra, saibro, sintéticos, ervados, relvados (poucos), no fundo, qualquer superfície que desse para por uma bola a rolar.. O que interessava era "encarnar" os nossos ídolos e passar uma tarde com os amigos, sem quaisquer outro tipos de preocupações ou interesses.
    Sinceramente, sinto falta disso. Atualmente os "românticos" do futebol estão em extinção, o que interessa são as receitas, é provocar os outros porque o clube deles perdeu, e não vangloriar o teu que ganhou, enfim…
    Excelente texto, parabéns.

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