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A tempestade perfeita

Tal como o Andrea Gail, imortalizado pelo romance de 1997 e filme de 2000, também Nuno Espírito Santo foi apanhado no meio da tempestade. E tal como acontecei ao trágico barco de pesca, era uma questão de tempo até o treinador português se afundar. Atacado desde o primeiro dia, por imprensa e pelos próprios adeptos, Nuno sempre foi o favorito para estrear a temporada da chicotada psicológica. Aguentou um ano, mas tal como a morte e os impostos, o que é inevitável tem de acontecer.

Antes de mais, o seu currículo tornava-o vulnerável. Duas épocas no Rio Ave não são cartão de visita para um clube histórico como o Valência. E por mais vontade que exista de encontrar o novo Mourinho, ao passar de uma Taça da Liga para uma Liga dos Campeões em ano e pouco, é mais natural que um Nuno se torne num Peter do que num Special. E se a aposta num desconhecido já por si era arriscada, mais ainda se torna quando aquele tem relações umbilicais com uma das faces do projecto, o empresário Jorge Mendes. Por menos cépticos que sejamos, a contratação do antigo guardião, agenciado por Mendes, sempre cheirou a tacho. E esse rótulo nunca saiu, nem sairia, por melhores que fossem os resultados.
Contra si, o treinador tinha também a política de mercado do próprio clube. As relações privilegiadas com clubes que transferiam jogadores com a chancela de Jorge Mendes criaram uma ideia de que mais importante que construir a melhor equipa possível, o objectivo era construir a melhor equipa possível de entre os disponíveis na carteira do empresário. A aquisição de jogadores jovens e sem provas dadas a alto nível por valores elevados sempre levantou dúvidas, até porque a ideia era vencer a curto prazo, e não “potenciar” jogadores, seguindo um projecto de contornos semelhantes ao do Mónaco. Quando o clube vendeu Otamendi, um dos obreiros da boa temporada anterior, toda a comunidade valenciana ficou em choque, pois o tal projecto passava por tornar o Valência um clube comprador, e não vendedor.
Claro que para a sobrevivência de um treinador os resultados são essenciais, e nem esses ajudaram. Na época de estreia, a classificação para a pré-eliminatória foi alcançada em cima da meta. Este ano, os resultados tanto na frente interna como na internacional têm sido sofríveis, e as fracas exibições não ajudam muito à imagem de quem lidera um conjunto que almeja a vitórias, e cuja massa associativa é exigente a todos os níveis. A preferência por jogadores portugueses ou vindos de Portugal, mesmo que tal seja uma ilusão, adicionada a alguns conflitos com homens como Negredo, apenas agravou a condição metereológica.
Por último, o projecto. Peter Lim criou a ilusão de que o Valência iria ombrear com os maiores de Espanha. Mostrou dinheiro em barda, e arranjou em Mendes um parceiro que se movimenta bem no mercado. A reacção é pensar que de imediato o Valência iria seguir um rumo semelhante ao de Chelsea, City ou PSG. O problema é que em Espanha não há clubes grandes… há dois clubes gigantes. Em capacidade financeira, política e mediática. É preciso bem mais que uma carteira recheada para chegar ao nível de um Barcelona ou Real, e mesmo que tal fosse possível, não o seria a curto prazo. Com um Atlético estabilizado como terceira força desportiva, resta ao Valência lutar para ser o primeiro dos “outros”, o que fica muito além do paraíso vendido por Lim aquando da sua entrada em cena. A chegada de um treinador maçarico, a preferência por um mercado secundário como Portugal (conseguisse o Valência sacar jogadores ao Barcelona ou Real, outro galo cantaria), o dedo constante de Jorge Mendes só aumentaram a pressão e as críticas ao modelo de gestão do clube só aumentaram a pressão sobre toda a estrutura. Como os resultados e as exibições são, no fim de contas, o que mais ordena, a corda rebentou pelo elo mais fraco. E Nuno foi ao fundo.

Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): Nuno R.

0 Comentários

  • Pedro Barata
    Posted Dezembro 3, 2015 at 1:38 pm

    Bom resumo de um desfecho absolutamente normal. Desde o primeiro dia que a nuvem de desconfiança e contestação que pairava sobre NES era demasiado densa e forte que, quando os resultados acompanhassem o mau futebol, a mesma iria quebrar. É muito interessante o que dizes dos dois gigantes que há em Espanha e da forma como isso dificulta o surgimento de um City ou de um PSG naquele país. Em Inglaterra ou França, é muito fácil ter muito dinheiro e comprar caviar. Em Espanha, o Caviar está em dois restaurantes que não só não vendem como quem lá está, por norma, não quer sair.

  • Cristiano
    Posted Dezembro 3, 2015 at 1:47 pm

    A temporada passada acabou por ser positiva, acabou em quarto, o que sendo realista era o possível.
    Esta temporada NES perdeu completamente o balneário e o controlo da equipa.

    Vamos ver como será a chegada de Gary Neville, os moldes são iguais, ou piores, sem experiência e tresanda a tacho por todos os lados…

    • Pedro Barata
      Posted Dezembro 3, 2015 at 1:53 pm

      A temporada passada foi aceitável. Foi eliminado na Copa por um rival inferior (Espanhol), na Liga conseguiu o objectivo um pouco aos trambolhões e apresentou sempre um futebol muito pobre

  • Kafka I
    Posted Dezembro 3, 2015 at 1:50 pm

    Excelente resumo do que aconteceu, nada mais a acrescentar

  • max alves
    Posted Dezembro 3, 2015 at 1:56 pm

    Talvez o pior de tudo foi perder alguma cotacao que havia ganhado no ano passado,e quando briga com as estrelas da compania tem o possivel efeito de perder o balneario, nao me surpreenderia jogadores em subrendimento comecarem a jogar melhor,mas pelo perfil de neville tambem nao me surpreenderia perder o balneario rapidamente e comecarem a entrar em espiral novamente, o valencia viveu a fabula ou mentira como quiserem chamar,foi comprada a ideia que seriam um clube vencedor que seria um novo city (com historia),e no fim foi continuar na mesma com dinheiro,mas quem sabe podem muduar o rumo na proxima temporada.

  • António Vilares
    Posted Dezembro 3, 2015 at 2:08 pm

    Foi uma situação complicada desde início. Muitos dos adeptos não queriam a saída de Pizzi do comando técnico, principalmente para a entrada de alguém com tão pouca experiência. Além do mais, a ligação a Jorge Mendes tornaram Nuno Espírito Santo como um alvo fácil para a crítica aos mínimos deslizes. Contudo, NES montou uma equipa assente em jogadores jovens, como André Gomes, Paco Alcacer, Gaya, Cancelo, por exemplo, e conseguiu uma 1º época muito satisfatória, embora o lugar de Champions tenha sido alcançado no último jogo e as exibições dos últimos meses tenham sido de menor nível, com base na exploração dos flancos e lançamento de jogo para Negredo, contudo não mancha as boas coisas impostas pelo português ao longo da temporada.
    A 2ªépoca de NES foi igual ao plano de estratégia de Lim e Mendes para o reforço da equipa, ou seja, não existiu qualquer evolução. Se por um lado é justo acusarmos NES pela falta de soluções de jogo/alguns atritos com jogadores, a verdade é que o projecto Lim/Mendes não está a ter o rumo que estes prometeram,ou seja, colocar o Valência com recursos suficientes para ombrear com Atlético Madrid, pelo menos! Demasiado investimento em jogadores jovens e sem grandes provas a este nível, o que torna a missão de colocar o Valência na rota mencionada de quase impossível.
    Sinceramente, é um projecto com um caminho muito estranho e que sinceramente não entendo qual o planeamento definido para o futebol, ainda para mais com rostos de projecto com tanta influência como Jorge Mendes e tanto capital como Peter Lim. Mesmo aposta em Gary Neville representa esta ideologia que falo, onde após o insucesso do treinador português se esperasse que a escolha recaísse em alguém com maior experiência, como Bielsa ou mesmo Laudrup por exemplo.Não consigo prever o que vai ser o Valência no curto/médio prazo mas, acredito, que muitos dos adeptos do clube se sintam enganados e preocupados com o desenrolar deste projecto.

  • Kafka I
    Posted Dezembro 3, 2015 at 2:12 pm

    Já que se fala no Valência, é pura especulação, mas em Espanha já se diz que o Mourinho vai ser treinador do Valência na próxima época

    • SlyRP
      Posted Dezembro 3, 2015 at 2:31 pm

      Eu ontem meio que em brincadeira disse isso numa conversa com amigos, pelos vistos ando a virar adivinho e não sabia.

      Deve ser pura especulação, não me parece que o Mourinho queira treinar uma equipa em construção, por mais dinheiro que tenha.

    • Anónimo
      Posted Dezembro 3, 2015 at 2:39 pm

      O Mourinho quando fracassar no próximo clube acabará por ir para clubes medianos. É natural.

      Jonathan

    • Logen
      Posted Dezembro 3, 2015 at 8:02 pm

      Clubes medianos?
      Inter, M.U ,PSG só para dar alguns exemplos de clubes que iriam andar na cola do Mourinho

  • Anónimo
    Posted Dezembro 3, 2015 at 2:12 pm

    Para mim o NES é fraco e aconteceu o normal.

    Jonathan

  • Rodolfo Trindade
    Posted Dezembro 3, 2015 at 2:13 pm

    Excelente texto a resumir tudo aquilo que já se previa que ia acontecer.

    Obviamente que só um lunático poderia pensar que o Valência andaria já a lutar pelo título.

    Esta aposta no Gary é mesmo de chorar a rir.

    • NoSense
      Posted Dezembro 3, 2015 at 3:36 pm

      A dúvida era entre o Gary Neville e Freitas Lobo…mas como os espanhóis poderia levar a mal outro português, optou-se por um comentador estrangeiro…

  • Diogo Moura
    Posted Dezembro 3, 2015 at 2:25 pm

    Qualquer projecto que se preze deste género tem que ter duas bases fundamentais. Uma direcção/estrutura presente e activa – que não perca demasiado em outras negociatas – e um treinador de topo acompanhado de uma excelente equipa técnica que tenha as ideias bem cimentadas. Depois sim, vem o plantel. Jogadores com qualidade à imagem do treinador e da ideia de jogo da equipa, e não jogadores de 15, 20 ou 30 milhões que servem para favorecer empresários – tirando o André Gomes, o resto não correspondeu às expectativas (o Rodrigo é cabeça de cartaz).

    • Kafka I
      Posted Dezembro 3, 2015 at 2:38 pm

      Basicamente é isto

    • coach407
      Posted Dezembro 3, 2015 at 4:20 pm

      Correspondeu o Otamendi, o Mustafi, o André Gomes e o Cancelo até agora. Enzo foi um upgrade apesar de dizerem que não, Negredo foi importante, Rodrigo também deu algumas coisas mas estes foram por valores exagerados e por isso são os 3 principais fiascos. O resto foram baratos e acrescentaram qualidade. Santos parece ser candidato a fiasco

    • The Monster
      Posted Dezembro 3, 2015 at 6:45 pm

      Coach, o Enzo foi um upgrade nas admoestações só se for.

  • Nuno R
    Posted Dezembro 3, 2015 at 2:26 pm

    Esta coisa de comprar jogadores porque sim sempre me fez confusão.
    Sem colocar em causa a qualidade de Rodrigo e Andre Gomes, em que bases eles foram contratados? O futuro treinador tinha uma ideia de jogo, e precisava daqueles elementos, ou pelo menos com as suas características?
    Já não falando que, por valores idênticos, haveria outras soluções no mercado.
    No fim ve-se jogadores como o Rodrigo a jogar fora de posição porque…

    • João Magalhães
      Posted Dezembro 3, 2015 at 2:38 pm

      Ainda assim grande parte das contratações foram acertadas. Os 15 milhões do Gomes foram um achado, já os do Rodrigo acabaram por se revelar um desperdício. Mas essa lógica de contratações não acontece só por lá, aqui em Portugal não falamos propriamente de meritocracia em muito do que chega do estrangeiro.

    • Nuno R
      Posted Dezembro 3, 2015 at 2:44 pm

      Esta situação é comparável ao Sporting do Marco Silva.
      Basicamente deram-lhe um grupo de jogadores, melhores ou piores (não é isso que está em discussão), e disseram-lhe para fazer uma equipa.
      Já este ano, o treinador escolhe, ou ajuda a escolher, jogadores na linha daquilo que pretende para a sua ideia de jogo.

    • João Magalhães
      Posted Dezembro 3, 2015 at 2:50 pm

      E também não me parece que tenha sido o Rui Vitória a escolher grande parte dos reforços. Já se sabe que em muitos dos casos o treinador não tem poder nenhum na escolha do plantel, por isso é que me faz impressão avaliar o valor de alguns treinadores pela eficácia nas movimentações de mercado ou como lhe queiram chamar

    • JSC
      Posted Dezembro 3, 2015 at 3:00 pm

      Isso acontece porque um jogador fica como activo do clube e o treinador é sempre o elo mais fraco e o primeiro a sair caso a equipa não tenha os resultados desportivos desejados.

      Ou seja, os jogadores ficam enquanto os treinadores vão.

  • Judge Dredd
    Posted Dezembro 3, 2015 at 4:27 pm

    Eu não considero a passagem de NES má pelo Valencia.
    Mesmo que nos ultimos meses as coisas não correreram como deveriam, acho que a exigencia foi demasiada para o material humano que tem.

    O problema dos magnatas é que a maioria não percebe de futebol, pensa que a solução para ganhar é atirar com dinheiro para o clube comprar jogadores e que os resultados aparecem por geração espontanea.

    Concerteza que NES é hoje um treinador mais capaz e mais preparado depois desta experiencia

  • LuisRafaelSCP
    Posted Dezembro 3, 2015 at 5:12 pm

    Muito bom Nuno R., mais uma vez! Descrição perfeita do momento do Valência.

    No meio disto tudo, NES sai mais cotado de Valência do que entrou.

  • DMS
    Posted Dezembro 3, 2015 at 5:54 pm

    Muito bom texto. Ainda me lembro de ler sobre a reação dos adeptos do Valência aqui no VM aquando da contratação de NES. Na altura o clube acabava uma temporada atribulada em que Pizzi levara a equipa às meias da LE, eliminados por M'Bia nos últimos minutos. Pizzi tinha os adeptos do seu lado. Nos últimos anos vemos treinadores a pegar em equipas com história mas em épocas 'sem Europa' que levam a cabo recuperações interessantes mas que perdem fulgor com a exigência da segunda temporada: Rodgers o ano passado, NES este ano, Rudi Garcia de certa forma mas de uma maneira menos notória, Leonardo Jardim no Mónaco. De resto estou interessado por ver o que vai mudar na política de contratações do Valência que ainda o ano passado gastou 14 milhões em Cancelo que tinha jogado 7 jogos a titular, 13 no total se não me engano.

    SL

  • KG
    Posted Dezembro 3, 2015 at 7:17 pm

    Bom artigo, bom trabalho Nuno .

  • Saci Pererê
    Posted Dezembro 4, 2015 at 6:53 am

    Falta só a parte em que os adeptos do Valencia são do mais histerico que há, eles já correram com Unai Emri, Pellegrini, Benitez, Djukic e todos os que por aqui passam vivem o mesmo, do 8 ao 80 numa semana. Também a mania anti-tuga está enraízada nesta cultura meio campónia que se vive nesta cidade, não é só Nuno e Mendes, aqui o único reforço portugues ou vindo de Portugal que recebe elogios ou não é fortemente criticado é o Android Gomes como o apelidam aqui, de resto Enzo, Cancelo, Aderlan, Rodrigo, Danilo são sempre criticados joguem bem ou joguem mal.

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