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Ac. Viseu: Um clube com destino incerto

Viseu foi umas das cidades que mais cresceu a todos os níveis desde o inicio deste século. Apesar de se localizar no interior, com o passar dos anos tornou-se cada vez mais inovadora e vencedora de prémios relacionados com a qualidade de vida. A nível desportivo, a cidade também sofreu algumas reformas. A atividade desportiva pratica-se principalmente no Parque Desportivo do Fontelo, situado na Mata com o mesmo nome. As estruturas desportivas localizadas na zona, sofreram uma grande reforma, passando a ter ótimas condições para a prática desportiva, nomeadamente para os mais jovens. É neste ponto da cidade que se situa o histórico Estádio do Fontelo, casa do Académico de Viseu Futebol Clube, apesar de ser propriedade da Câmara Municipal de Viseu. A turma viseense, embora tendo nascido em 1914, entrou em insolvência em 2005, após quatro presenças na Primeira Divisão Nacional ao longo da sua história. Tal como aconteceu em muitos casos, o clube “refundou-se” em torno de outro, na época o Grupo Desportivo Farminhão. Assim esta entidade desportiva assumiu o símbolo do antigo Clube Académico de Futebol e as suas cores, assumindo o posto do maior clube da cidade.

A subida até ao segundo escalão do futebol português foi relativamente rápida. O regresso do Académico a esta competição foi conquistado em 2012/13, com Filipe Moreira no cargo de treinador e como grande herói da subida. Porém o grande mérito da recuperação do clube foi António Albino, presidente do clube desde 2007, que na época era uma figura totalmente incontestável no seio do clube.

Apesar da rápida ascensão aos campeonatos nacionais, esta subida estagnou e há 8 anos que o Académico se mantem na Segunda Liga. A euforia que existia na época de 2013/14, neste momento já desapareceu há muito tempo. Durante este período, somente uma vez o Académico conseguiu estar na briga pela subida de divisão por uma vez, em 2017/18, onde foi realizado o investimento necessário para que os Viriatos entrassem nessa luta. O treinador inicialmente era Francisco Chaló, salvador da manutenção na época transata, porém foi substituído por Manuel Cajuda, técnico que, apesar de muito reputado, não conseguiu o objetivo da promoção. Apesar do terceiro lugar conquistado e da continuidade de Cajuda no cargo, a época seguinte foi muito distinta. O experiente timonenrio contou com uma equipa de nível bastante inferior e saiu após 17 jogos e somente 5 vitórias. Na sua substituição o seu adjunto Floris Schaap (provavelmente o pior treinador da história recente do Académico) não venceu nenhum dos 4 encontros que disputou. Com a sua saída, Rui Borges deixou o Mirandela e melhorou a situação do clube viseense, levando-os à 11.ª posição. Na época seguinte, o agora treinador da Académica de Coimbra, alcançou a oitava posição com uma equipa bastante humilde.

Se analisarmos os plantéis do Académico de Viseu desde o momento que está na Segunda Liga, reparamos sempre em equipas humildes, com poucos nomes sonantes. O jogador que obteve mais sucesso na carreira foi sem dúvida nenhuma Dalbert Henrique. O brasileiro passou em Viseu nas épocas 2013/14 e 2014/15, saindo de pois para o Vitória Sport Clube e mais tarde ao Inter de Milão, clube pelo qual tem contrato. António Albino e o Académico de Viseu acabaram também por ficar conhecidos por apresentarem aos campeonatos profissionais jovens treinadores. Alguns deram errado como Alex Costa ou André David e outros obtiveram aprovação dos adeptos como Ricardo Chéu e o já referido Rui Borges. 

No inicio da época de época 2019/20, a situação do Académico era uma aparente normalidade. A contestação à direção tinha acalmado com a chegada às meias finais da Taça de Portugal na temporada anterior e com o 8º lugar, ainda que o grande mérito desses feitos fora essencialmente de Rui Borges. Com a saída do técnico de 39 anos, começou o caos. António Albino, elegeu como sucessor Sérgio Boris, conhecido pelo bom trabalho que havia feito no Cova da Piedade, ainda que já tivesse deixado a equipa de Almada em 2017. Após isso acumulou trabalhos negativos no Campeonato Portugal Prio, no Sintrense, Loures e Fabril Barreiro, fazendo uma pequena passagem no Recreativo Libolo. Não tendo o melhor cartão de apresentação e sofrendo algumas críticas dos adeptos (essencialmente nas redes sociais), António Albino referiu que Boris era um técnico que já queria contratar anteriormente. 

Os reforços para a equipa foram poucos e com qualidade bastante abaixo dos que saíram. Não se conseguiu substituir jogadores como Joel Pereira ou João Mário, com substitutos da mesma categoria, o que levou a um futebol muito pobre e sem qualidade. Para acautelar a pouca quantidade de novos jogadores, existiu a promoção de alguns juniores ao plantel principal como Rafael Melo, Diogo Bondoso ou Filipe Soares. Apenas o último jogou na Segunda Liga, realizando 90 minutos. Na Taça de Portugal Bondoso jogou 20 minutos e Filipe Soares 120. A “aposta” na formação revelou-se até agora um fracasso, pois nunca o clube viseense foi conhecido por ser uma equipa formadora, deixando esse papel para clubes como Os Repesenses (de onde saiu Paulo Sousa) ou o Lusitano de Vildemoinhos (atualmente no CPP). O último jogador com algum calibre que o Académico lançou foi Fernando Ferreira que atualmente tem 34 anos! Sérgio Boris não venceu nenhum dos seis jogos oficiais. Para o seu lugar entrou Pedro Duarte, anterior técnico do Estoril Praia e campeão de juniores pelo Sporting Clube de Braga. Os resultados com o atual técnico melhoraram, ainda que a proposta de jogo não seja a mais atrativa com linhas muito juntas a nível defensivo e movimento atacante focado no contra-ataque. Pedro Duarte é um treinador prático, jogando com os que tem e trabalhando-os de acordo a atingir o alvo da manutenção, sendo difícil apontar-lhe qualquer tipo de critica. Em Janeiro não recebeu nenhum reforço, ainda que Bernardo Martins tenha sido anunciado por empréstimo do Paços de Ferreira. O jovem nos últimos dias de mercado foi anunciado como jogador do Sporting da Covilhã, não havendo qualquer justificação por parte da direção a explicar a não inscrição do jogador (os sócios e adeptos falam de que existem salários em atraso, algo que fez com que os viseenses ficassem proibidos de inscrever jogadores).

Atualmente a equipa a equipa ocupa o 15.º lugar, com quatro pontos de vantagem do Varzim, porém a situação não é otimista. O futebol praticado é mau e os rivais da luta pela manutenção reforçaram-se no mercado de meio de época. 

António Albino é cada vez um homem mais só, liderando uma direção que somente uma época ousou ser ambiciosa. Estando numa cidade que cada vez mais está ligada ao desporto, o Académico não consegue apresentar ao nível do futebol um projeto (mesmo que a longo prazo) faça o clube crescer. A comunicação clube-adeptos é francamente má (ainda que já tenha sido bem pior ou seja, nula) levando a que muitos olhem para o rival Tondela como o clube do seu distrito. Outra crítica a fazer à direção academista são os preços dos bilhetes. Se o clube já não consegue seduzir os seus adeptos a irem ao estádio, conseguem afastá-los ainda mais com os preços praticados, ainda que haja desconto para jovens. A imagem do jogo Académico de Viseu- Futebol Clube do Porto, realizado a 4 de Fevereiro de 2020 foi uma situação paradoxal daquilo que se passa nos jogos “normais”: poucos adeptos, poucos gritos, poucos cânticos.

A venda da SAD está em cima de mesa, porém o preço pedido é elevadíssimo. É o próprio António Albino o sócio maioritário da sociedade, com 51%. Ele pede 7 milhões de euros pela SAD, valor demasiado alto para o fraco desempenho, afastando possíveis interessados.

Para a cidade e para o Interior seria algo negativo que o Académico de Viseu descesse para a futura Terceira Liga, que vai ser um campeonato disputadíssimo, perdendo os campeonatos profissionais um histórico clube e a Beira Alta o seu único representante na Segunda Liga. Para que isto não aconteça é necessário que o presidente e os homens da sua confiança melhorem as condições da Instituição, nem que para isso ouçam os próprios adeptos, já que no fundo, são os adeptos que fazem um clube.

Visão do Leitor: Ricardo Lopes

18 Comentários

  • Amigos e bola
    Posted Fevereiro 18, 2021 at 5:28 pm

    É triste ver a realidade dos clubes históricos da Zona Centro. Ac.Viseu, União de Leiria, Beira-Mar, Naval, e tantos outros que são exemplos de má gestão.
    Todos ele com estrutura para andar em bons lugares na I Liga, mas todos eles em patamares longe de onde já estiveram, não obstante a Académica poder subir à I Liga este ano.

    • lipe
      Posted Fevereiro 18, 2021 at 6:50 pm

      A triste realidade é a de que na verdade ninguém quer saber desses clubes, especialmente as pessoas das terras dos clubes. Um clube que pode desaparecer do dia para a noite sem que ninguém lhe chore o desaparecimento está condenado a isso.

  • LMMarado
    Posted Fevereiro 18, 2021 at 6:03 pm

    Não conhecia este histórico recente do Académico de Viseu. Agradeço ao Ricardo Lopes esta boa exposição contextual!

  • briosa
    Posted Fevereiro 18, 2021 at 6:08 pm

    é de facto muito estranho o deserto de clubes da zona centro na primeira liga…. Claro que não me esqueço do tondela que todos os anos se safa com planteis muito humildes, mas sempre com uma equipa aguerrida e com espirito combativo. Devo dizer que o ano passado chegaram as meias e tiveram um campeonato tranquilo muito devido ao Rui borges. Como adepto da AAC, estou a delirar com o trabalho dele! Basta olharem para a equipa da academica e percebem que é a 4 mais forte da liga e o que é facto é que estamos em primeiro, por enquanto.
    O Academico tem o mesmo problema que a Academica, a falta de ligação entre a cidade e o clube. Os jovens que antigamente enchiam o calhabe, já nao apoiam a equipa. Isto deve se a dois fatores: adeptos hoje em dia são adeptos mais ferrenho dos tres grandes e o facto da academica nos anos que esteve na primeira liga jogar um futebol sofrivel! Sou adepto da academica mas andamos anoooos a jogar na primeira liga com um futebol horrivel e com planteis em nada identificados com a mistica academicista.
    Resta me desejar boa sorte ao Academico de Viseu que nos ganhou 3-0 e perdeu 2-1 connosco nos ultimos minutos. Que venham mais derbys e sempre que precisarem do autocarro, avisem ahahah!

    • Academista
      Posted Fevereiro 18, 2021 at 9:58 pm

      As pessoas em Portugal não querem saber do futebol para nada, apenas são dos três eucaliptos para poderem festejar e discutir com a malta no café, muitos nem vêem os jogos, desde que no final da época o clube ganhe e lá vão eles festejar… Viseu uma cidade com mais de 100 mil habitantes e não ter ninguém que queira saber do clube.. Temo que mais dia menos dia o clube volte acabar e Viseu apenas tenha futebol de distrital. O Lusitano esta época também vai descer do campeonato de Portugal.

    • Ricardo Lopes
      Posted Fevereiro 18, 2021 at 11:37 pm

      Os jovens não são muito interessados no clube, porém a instituição infelizmente não ajuda. Antes do covid, um bilhete para assistir ao Académico era muito caro e embora os estudantes (como eu em tantos anos) aproveitassem o facto da entrada bem mais barata para os jovens (nas ultimas épocas até era de borla se apresentasses o cartão estudante), perdiam o interesse quando passavam a ter de pagar. Isso somado a um clube sem objetivos fortes não ajuda! Já não existe uma grande força em torno do clube como havia há uns 7/8 anos.
      Obrigado pelo autocarro! Mais uma péssima imagem do Académico para o país, sendo que já é um clube pouco presente nos jornais.

    • AbbasK
      Posted Fevereiro 19, 2021 at 9:33 pm

      O Académico ao contrário da Académica foi mesmo lá ao fundo e demorou muitos anos a regressar. O clube tem uma estrutura basicamente amadora, um clube completamente preso no tempo. Os jovens não têm qualquer ligação ao clube. O mesmo se aplica a várias equipas da região Centro, mas acho que os casos de Académica e Académico são mais óbvios pq eram dois clubes reconhecidos pelo forte apoio popular e enchentes dos estádios, mas isso acabou.

      • Amigos e bola
        Posted Fevereiro 19, 2021 at 11:26 pm

        O exemplo do Beira-Mar é bem mais gritante que o do Académico. O Beira-Mar chegou a ter 10 000 sócios e médias de assistências de 6000, 7000 pessoas por jogo. E no entanto caiu no fundo.

  • Zedomuro
    Posted Fevereiro 18, 2021 at 7:46 pm

    O meu primeiro clube em Portugal é o Academico de Viseu… Precisamente porque nasci em Viseu e fui habituado a ir ao futebol desde cedo. Infelizmente longe vão os tempos que tínhamos casas dignas de 1a divisão e o Académico era tema de conversa na cidade. Actualmente por tudo que o Ricardo disse, e muito bem (excelente retrato das nossa realidade), o clube e a cidade estão divorciados. A comunicação do clube é péssima, a relação com a cidade é nula e muita gente foi maltratada pelo Académico ao longo dos anos. Nao vivo em Viseu mas tento sempre ir ver os jogos em casa e bastantes jogos fora na zona norte mas como diz a minha família…É so para quem é maluco.

    A única solução pro clube é mesmo a venda da SAD mas isto só pode acontecer tendo certeza de quem a compra.

    Por fim, agradeço ao presidente Albino por ter salvo o clube mas infelizmente é também ele que o vai matar.

    • Ricardo Lopes
      Posted Fevereiro 18, 2021 at 11:31 pm

      O tempo do Presidente Albino terminou. Os adeptos e sócios vão estar eternamente agradecidos pela recuperação do clube (onde eu me incluo). Deveria ter aproveitado e saído depois da sua recuperação, no ano passado. Infelizmente quanto mais tempo passa, as boas memórias vão-se esvanecendo e vão ficando as más como os péssimos mercados de transferências (de jogadores e treinadores) e a péssima comunicação.
      Igualmente interessante vai ser a questão de quem será o seu sucessor, mas a grande missão é aproximar o clube da cidade a apresentar um projeto de longo prazo para o futebol (tanto a nível de futebol sénior, como os escolões de formação).

      • Zedomuro
        Posted Fevereiro 19, 2021 at 11:10 am

        Pois… Concordo em absoluto. O problema é que sem Albino duvido que haja alguém tal a separação entre clube e cidade

        • Ricardo Lopes
          Posted Fevereiro 19, 2021 at 2:07 pm

          Em 2019 houve uma lista que se apresentou nas eleições, até tinha boas ideias. Gostava que houvesse alguém que apresentasse um projeto válido, mas haverá sempre o problema de que António Albino tem a maioria da SAD.
          Uma outra opção seria uma renovação dos parceiros do presidente, mas não vejo isso a acontecer.

          • pedrorafael47@hotmail.com
            Posted Fevereiro 19, 2021 at 3:43 pm

            Sinceramente acho que era mais um paraquedista…até porque depois das eleições nunca mais o vi. E sim, a SAD sendo do Albino é um problema e por isso é que acho que só vendendo a SAD mesmo é que fazermos algo

            • Ricardo Lopes
              Posted Fevereiro 19, 2021 at 6:44 pm

              Sim, a ele também nunca mais o somente alguns apoiantes. Apesar de tudo dou-lhe o mérito de se ter apresentado em eleições, já que mais ninguém o fez, o que faz parecer que a Direção atual não tem oposição.

  • AbbasK
    Posted Fevereiro 19, 2021 at 9:29 pm

    O Académico era um clube com um potencial enorme. Tem o estádio na melhor localização de um estádio em Portugal, estava numa cidade que acarinhava imenso o clube (lembrar que foi o clube com terceira melhor média de assistências num dos anos em que esteve na Primeira, à frente do Porto), mas o clube morreu. Está refém de empresários e não se modernizou. O Presidente Albino tem denotado uma enorme incompetência desde a chegada aos campeonatos profissionais e os viseenses estão totalmente desligados do clube, a comunicação é horrenda.

  • Meu nome é Toni Sylva
    Posted Fevereiro 20, 2021 at 12:23 pm

    A região Centro é o parente pobre mas convencido que é rico da região de Lisboa. No norte faz-se pela vida; no sul é-se pobre; em Lísboa vive-se de ser a capital; no centro quer-se viver disso também, mas desde o tempo do Dom Dinis que não somos capital.
    Isto não é uma crítica às pessoas, que trabalham tanto e tão bem como as outras, nem às lideranças em si. É uma constatação do modo como a sociedade no seu todo funciona. Aquilo que se passa com os clubes reflecte o que se passa com as empresas em geral. Temos empresas pequenas, muitas de valor, mas atoladas numa região em que a sociedade espera que seja o Estado a providenciar toda a economia. Não temos iniciativa e não compreendemos aqueles à nossa volta que a têm. Temos medo de falhar e ficamos desconcertados quando alguém ao nosso lado não mostra o mesmo medo e tenta fazer alguma coisa, porque achamos que está votado ao fracasso e como resultado acabamos por não ajudar nada. Não é de propósito. Somos assim. Queria que não fôssemos assim.

  • cards
    Posted Fevereiro 20, 2021 at 6:27 pm

    O Interior só tem um histórico o Grupo Desportivo de Chaves o resto são aspirantes a históricos

  • marquess
    Posted Fevereiro 20, 2021 at 11:59 pm

    Parabéns pelo artigo e análise.

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