Se o futebol fosse uma Religião, Cristiano Ronaldo seria o seu Profeta.
Se o Reino Saudita fosse apenas a colina de Safa, lá existiria um vulcão a expelir torrentes de ouro negro, como os poços do deserto da Arábia.
Diz o livro que o monte sobranceiro a Mecca não se moveu quando Maomé o chamou para provar as suas profecias, não porque falhasse o milagre, mas apenas por misericórdia divina de não esmagar as pessoas com o terramoto pretendido: “Irei eu à montanha, agradecer a Deus por nos ter poupado uma geração de obstinados”.
Assim fez Cristiano Ronaldo: em vez de esperar que o dinheiro da Arábia Saudita viesse esmagar a lógica competitiva do futebol internacional, foi ele mesmo para Riade banhar-se na inesgotável montanha dos petrodólares. E arrastando agora uma legião de “obstinados” para quem o profano dinheiro também vale muito mais do que o milagre da vida.
Diz o mensageiro que a Liga da Arábia Saudita, cheia de jogadores e treinadores portugueses e pré-reformados de outros países periféricos, é “muito competitiva” e vai ser uma das melhores. Só Lionel Messi não foi suficientemente crédulo – ou estúpido – para lhe seguir a peregrinação.
Permito-me o pecado da dúvida, quiçá da descrença, Cristiano seja louvado!
Que adepto europeu em seu perfeito juízo se dispõe a seguir a Liga da Arábia Saudita? Nenhum. Porque há uma barreira cultural que não permite sequer decorar o nome dos clubes, quanto mais associar-lhes os jogadores ou treinadores e entender as rivalidades.
Há craques ingleses na Liga Saudita? Há alemães? Espanhóis? Italianos? Não, apenas portugueses, franceses islâmicos e alguns africanos e sul-americanos de segunda categoria para fazer número. Nunca suficientes para subir o nível de penúria deste campeonato a um ponto de interesse do público consumidor europeu – ou, sequer, o asiático, que há-de sempre preferir as tradicionais disputas no velho continente.
Em seis meses do melhor jogador do Mundo ao serviço do Al-Nassr, nem um jornal, nem uma televisão, nacional ou internacional, teve interesse em reportar a vida desportiva de qualquer dos nossos heróis com nome de “infiéis”, no coração da vida islâmica, de Cristiano a Jesus, passando por Espírito Santo.
Eles estão no exílio, podres de ricos, mas desportivamente indigentes. Descartados.
A indiferença tem sido tão gritante que não pode deixar de se associar o súbito interesse do jogador pelo negócio da informação à ideia de uma próxima jogada de propaganda desesperada ao seu ocaso desportivo: mal posso esperar pelos “pés em riste” e “polémicas” tontas nos rodapés da CMTV de um acalorado “late show” All Cristiano.
Estes erros já tinham sido cometidos há muitos anos com a tentativa de impor o “soccer” nos Estados Unidos, através da contratação de grandes jogadores em fim de carreira – e foram só Pelé, Cruyff, Eusébio, entre muitos outros. E mais recentemente com o estouro de mais de cinco mil milhões de euros em quatro anos na Super Liga da China, levando à falência 16 dos clubes profissionais criados. Porque onde não há religião, nunca haverá fé.
A lavagem do dinheiro saudita enche o tambor da máquina do futebol depois de idênticos empreendimentos noutras modalidades, em particular o golfe, com a sua LIV Golf, que dinamitou o modesto European Tour e fez abanar a poderosa PGA americana, contratando a maioria dos melhores jogadores mundiais e propondo um modelo de competição e de cobertura mediática realmente inovadores numa modalidade tradicionalmente bloqueada por modelos conservadores.
Porém, o sucesso ainda relativo do LIV Golf não me parece replicável no futebol: à excepção da final, as provas são todas realizadas bem longe de Riade, da Austrália à Califórnia, passando pela Andaluzia, onde está esta semana, e não há qualquer jogador saudita envolvido.
Ou seja, quando ajoelha e se prosterna de bolsos bem abertos e virados para Riade, o futebol e o desporto só esperam o milagre da chuva de dinheiro, montanhas dele, e só recitam versículos de sete ou oito algarismos – o “sportswashing” como ritual sagrado.
João Querido Manha


3 Comentários
O Comendador
Grande texto.
É sempre mais fácil ver as coisas a preto e branco. Se incluirmos os vários tons de cinzento podemos deixar espaço à dúvida e não ter dúvidas é bem mais engraçado.
Contudo a dúvida é motor da ciência e duvidar os seres humanos estão sempre a surpreender-nos.
No geral é difícil não concordar. O que move o mundo é o dinheiro, o poder e o sexo, nem sempre por esta ordem.
SL
Diogo Cunha Ribeiro
A Liga Árabe está a fazer um all in, vamos ver o que acontece, mas não me parece que os Portugueses sejam os agentes que vão despertar o real interesse do adepto comum em seguir uma liga periférica. Cabe aos clubes nacionais aproveitar esta situação que será passageira.
Deveriam apostar as fichas na profissionalização do atletas, das infra-estruturas e de treinadores mais capazes. Por que contratar jogadores em final de carreira pagos a peso de ouro não me parece solução.
Fireball
O objetivo não é criar uma liga competitiva. É sportswashing. É mediatismo. É fama.
O único objetivo é distrair de tudo o que se passa de errado naquele país e naquela zona do globo, é mostrar poder. Não é um investimento desportivo.