Em fim-de-semana de jogo grande, enorme, porventura o maior de sempre, foi o autocarro que transportava a equipa do Boca Juniors para o Estádio Monumental de Núñez, caixa-forte do eterno rival River Plate, o grande protagonista do superclássico do futebol argentino, assistido de forma magistral por pedras e gás pimenta. Tévez, Pavón, Benedetto, Quintero, Pity Martínez e Enzo Pérez, incontestáveis craques, assistiram assim do banco de suplentes ao jogo da sobrevivência.
Do outro lado do Atlântico, escassos minutos antes das agressões ao seu homónimo argentino, e tendo igualmente como pano de fundo um jogo de futebol, outro autocarro foi notícia: o do Tondela. Desta feita, pelo momento de fair play protagonizado entre adversários. Este clube, que se confunde com a pequena cidade do distrito de Viseu no qual está sediado, disponibilizou o seu autocarro para ir buscar o FC Vale Formoso, equipa que defrontaria no dia seguinte, ao aeroporto Francisco Sá Carneiro, e levá-la até a unidade hoteleira onde estes pernoitaram. Acabaria por vergá-la na tarde de domingo, por 7-0, e carimbar o apuramento para os oitavos de final da Taça de Portugal, não deixando por mãos alheias os créditos da viagem de regresso dos açorianos ao ponto de partida.
85 anos depois da união entre os dois grandes clubes da região de Besteiros, o Tondela Futebol Club e o Operário Atlético Clube, o Clube Desportivo de Tondela assume-se como líder do campeonato do Bom-Senso, à boa maneira de Antero de Quental na Questão Coimbrã. Com cerca de 4500 habitantes, Tondela afigura-se como umas das mais fiéis e apaixonadas cidades de Portugal pelo clube da sua terra. O relvado natural do novinho João Cardoso, construído há dez anos, tem observado com um sorriso – há quem diga que é a linha de fora-de-jogo manipulada pelas televisões – o crescente apoio vindo das bancadas, que quinzenalmente contribui para o cimentar de um honroso oitavo lugar no ranking que contabiliza a média de ocupação do estádio (quase 50%). Há quatro anos no principal escalão do futebol português, a permanência, que em tempos foi uma miragem (correto, Petit?), hoje é já uma convicção. Assente num jogo de posse, Pepa mudou o paradigma do que vinha a ser feito até então, numa mudança que resultou num futebol mais atrativo, levando mais adeptos ao estádio e valorizando inúmeros jogadores, com o guarda-redes Cláudio Ramos à cabeça.
À imagem do agora internacional português, destaque para a presença regular de nomes como Hélder Tavares e Murillo nas seleções de Cabo Verde e Venezuela, respetivamente. Detentor de um dos departamentos de comunicação mais assertivos e criativos do futebol português, onde dividem o pódio com o Sporting Clube de Braga e com o Rio Ave Futebol Clube, este emblema emana já uma aura de Primeira Liga, procurando, a poucos dias da deslocação a Portimão, dar sequência ao bom momento iniciado frente ao Feirense (outra das boas formações deste campeonato), onde venceu por 4-2 num vendaval de futebol ofensivo (e positivo).
Sem querer fazer deste texto um manifesto patriótico – todos temos bem presente a malfadada final da Taça de 96, os cânticos aludindo à trágica morte dos jogadores da Chape e a invasão de Alcochete –, é de salutar este tipo de iniciativas por parte dos clubes nacionais, que em tudo promovem os valores inerentes a uma modalidade que vem sendo tão maltratada e desvalorizada pelos seus principais agentes.
Visão do leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui): Miguel Araújo


4 Comentários
noizero
Muito bom, desconhecia por completo esse episódio!
Grande atitude, é assim que são formam grandes homens e instituições.
Tiago Silva
Parabéns ao Tondela, cresceram imenso ao sabor dos seus adeptos, um clube honrado e que se deve respeitar. Deveriam haver mais equipas como o Tondela na nossa Liga.
Ss
Gesto bonito. Bravo
RodolfoTrindade
Boa atitude.
Mas se fosse o Benfica a fazer isto, aposto que diziam que o Benfica estaria a comprar o adversário.