Vamos ao primeiro caso, Luís Freire. No primeiro ano, subiu o Rio Ave da segunda para a primeira divisão. Uma subida esperada, diga-se de passagem, já que contava com o maior orçamento de sempre para uma equipa da II liga. Mas, mérito é mérito, e o objetivo foi cumprido. Até aqui, tudo certo. O problema é que, desde então, jornada após jornada, assistimos a um futebol que roça o desespero. E a desculpa é sempre a mesma: “Mas ele subiu a equipa! Mas ele cumpriu os objetivos.”.
Por quanto tempo mais vamos usar essas conquistas e dificuldades passadas como escudo? Será que uma subida apaga todos os erros que se seguem? Porque, convenhamos, há algo profundamente errado quando o principal trunfo de um treinador continua a ser algo que aconteceu em épocas passadas, enquanto o presente se arrasta numa teia de exibições “desinspiradas”. A gratidão é bonita, mas não pode ser eterna. Para agravar esta situação, na assembleia realizada a semana passada foi anunciado que o clube terá um orçamento de 26 milhões de euros este ano o que fará do Rio Ave o 5.º conjunto do nosso campeonato com mais capacidade financeira. No entanto, a equipa, agora cheia de reforços, baixou ainda mais o nível exibicional, sendo que por pouco não foi eliminado pelo Atlético na Taça de Portugal.
E agora olhemos para o caso de Fernando Santos, o homem que nos trouxe o tão desejado Euro-2016. Uma conquista histórica, sem dúvida. Mas… a que custo? Durante anos, Portugal jogou um futebol enfadonho, apático, que nada condizia com a qualidade de jogadores que tínhamos à disposição. E, no entanto, Santos manteve-se firme no cargo, protegido pela gratidão nacional. “Ganhámos o Euro, temos de ser gratos.” Sim, claro. Mas até quando? Porque, enquanto nos agarrávamos a essa glória, perdíamos ano após ano de talento desperdiçado, sem conseguir dar o salto que a nossa seleção merecia. E hoje, todos nós temos consciência que a gratidão se prolongou muito no tempo.
E aqui está o paralelo. Luís Freire, tal como Fernando Santos, vive sob o manto da gratidão. Sim, subiu o Rio Ave, mas será que isso significa que estamos condenados a suportar exibições medíocres indefinidamente? Até quando a memória de um feito do passado vai sufocar a crítica necessária do presente? A gratidão é importante, mas também precisa de saber quando dar lugar à exigência.
Porque, no fundo, há uma pergunta que devemos fazer: quanto tempo mais vamos permitir que a história continue a ser desculpa para o presente?
Visão do Leitor: Daniel Silva


6 Comentários
manel-ferreira
Olha, esta agora surpreendeu-me. Um texto a malhar naquele que é possivelmente o treinador com melhor imprensa em Portugal.
E nem acho essa imprensa injustificada, percebo a simpatia pelo homem devido ao seu trajeto, mas como o texto diz, o Rio Ave investiu brutalmente este ano e está a ser uma época decepcionante. E claro, muita gente vai assinalar as várias mudanças no plantel como o grande culpado, mas as contratações deles foram todas as aqui tratadas como excelentes quando foram anunciadas. Passaram todas a ser horríveis?
E eu sou o primeiro a dizer que os jogos com os grandes interessam zero para uma equipa que luta pela permanência, mas o objetivo do Rio Ave nem era esse, era claramente mostrar-se como projeto de crescimento/futura luta pela Europa (tipo Famalocão) e isso não está a acontecer. Ao contrário do Fama, a imagem que têm passado nestes jogos de maior visibilidade é bastante fraca.
Apesar de tudo, dava mais algum tempo ao Freire, até porque o calendário vai começar a melhorar. Mas a história do “sucessor do Amorim” ainda parece estar muito longe…
Rio Ave Sempre
Quem acompanha o clube semanalmente, percebe a péssimo futebol praticado pela equipa do Rio Ave (e isto já não é desta época.)
Freire, ou melhor o Rio Ave, sempre teve uma boa imprensa. Conta nos seus quadros com um diretor geral com passado muito longo ligado aos Media (desde rádios locais, a Sportv e até como diretor de comunicação do Braga).
O Rio Ave, como passou algumas dificuldades nas últimas duas épocas, controlou muito bem essa comunicação. O Principal beneficiado foi Luís Freire.
Agora com dinheiro e reforços, esta comunicação bem se esforça mas não está a ter os resultados de outrora.
Basta ir dar uma olhadela nas redes sociais do clube para ver como é tão grande o desagrado.
Aliás, ontem na luz a grande maior parte dos adeptos mostraram lenços brancos: não houve um meio de comunicação (pelo menos que eu encontrasse até agora) que tenha noticiado
KingPin
Faz me lembrar casos de discursos de presidentes, como Luís Filipe Vieira ou Pinto da Costa. Casos de jogadores também vem me á memória de repente. Otamendi, Di Maria, Renato Sanches. Estatuto pelo passado, que vai ficando cada vez mais distante… O maior caso conhecido será de Cristiano na seleção, parece me um pinheiro, seca o que há volta existe. Acho sinceramente que não anda bem a nível mental. Porque se acha o maior de sempre, já nem é uma questão de ego. Chaga me a meter pena as pessoas que o veneram como um Deus.
Dei exemplos que não são só os treinadores que vivem desta gratidão. Simoene vive de alguma proteção deste tipo, e é mais remunerado do que suficiente para demonstrar outro tipo de resultados. Mais vale cair em graça do que ser engraçado é o lema.
Jan the Man
Faz-me alguma confusão que se critique um treinador cuja equipa esteve 3 mercados sem poder contratar desde que chegou à 1a Liga e que mesmo assim este meteu sempre nos 12 primeiros. Um treinador que fez do Rio Ave a 2a melhor defesa do campeonato na 2a volta da época passada, com apenas 1 derrota e 12(!) partidas consecutivas a pontuar…
É certo que o início de temporada não está a ser auspicioso, dado o investimento, mas em 9 partidas já foram a casa dos 3 grandes e Braga, além de terem recebido o Famalicão. Isto com um treinador que não abdica de um estilo de jogo muito próprio, quando o mais fácil era ir estacionar o autocarro e jogar para o pontinho nestas deslocações.
Se há algo que Luís Freire já demonstrou nestas últimas 3 temporadas, além de ser um bom comunicador, é que em nada é mediocre e merece que lhe seja dado tempo para trabalhar, com certeza o Rio Ave ficará a ganhar com isso.
manel-ferreira
Quem esteve 3 mercados (4, and counting) sem contratar foi o Boavista. O Rio Ave só esteve um mercado sem contratar, que foi o Verão de 2023 e nessa altura mantiveram quase todos os jogadores da época anterior. Depois em Janeiro já contrataram bastante (e alguns jogadores conceituados até).
Estiveram 12 partidas consecutivas a pontuar, o que é bom, mas foi quase tudo empates, aliás eles quebraram o recorde de empates da história do futebol português (19), que tenho a certeza que com um treinador com pior imagem seria visto como uma coisa bastate negativa (e eu nem acho que seja, mas imaginem um Mota ou Daniel Ramos a quebrar o recorde de empates, o que se diria…).
Mas sim, concordo que deve ser dado tempo, o calendário foi de facto muito chato (mas é preferível ter.estes jogos no início do que no fim).
Antonio Clismo
25 milhões de euros de orçamento para competir na Liga Portuguesa com um plantel cheio de estrangeiros sem qualidade e co um nível de jogo risível e num estádio que parece uma zona de guerra em Gaza??
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Sintomático do futebol português… Lavandaria a céu aberto e está tudo bem, o regulador faz sempre vista grossa…