Da última vez que o Benfica defrontou o Barcelona o treinador era Koeman e a equipa era formada por um grupo de, à falta de palavras portuguesas para “misfits”, deslocados. Não quer dizer que fossem maus, mas as expressões estrelas ou bem-sucedidos não seriam usadas para descrever estes jogadores: Moretto, Anderson, Léo, Giovanni, Beto, Marcel, Robert, Karyaka e até Karagounis compunham então um plantel feito de trapos e cozido com o talento de Miccoli e Manuel Fernandes e a liderança de Simão e Luisão. O Benfica foi afastado da Champions num eliminatória surpreendentemente equilibrada que viu Simão falhar a 10 minutos do fim um golo feito que com certeza colocaria o Benfica nas meias-finais da liga dos campeões. Dado este equilíbrio como é possível que, entre 2006 e 2012, o Barça tenha tantos títulos e o Benfica tão poucos?
É fácil. A qualidade do Barça era sustentada e a do Benfica não. O Barcelona em 2006 era uma grande equipa porque desde o início dos anos 90 se instalou uma mentalidade e um método de trabalho no Barça que permitiram um crescimento apoiado do clube. Hoje em dia essas filosofias fazem com que o Barcelona seja considerado o melhor clube do mundo e tenha tido nos últimos 20 anos um conjunto de plantéis cuja qualidade não terá comparação na história do futebol. Isto não acontece porque gastam milhões em transferências mas porque trabalham o talento com objectivos definidos e depois complementam-no com idas cirúrgicas ao mercado. Percebido? A qualidade do Benfica não era sustentada e a do Barça era. O Benfica em 2006 era uma equipa forte na Europa porque Koeman trabalhou bem os aspectos tácticos defensivos com os jogadores que tinha e tornou o Benfica europeu numa equipa fria e eficaz. Fê-lo também nalguns momentos do campeonato português. Koeman, apesar de ter perdido o campeonato, ganhou por 2 vezes ao Porto. No entanto o clube não tinha filosofia nenhuma. O Benfica andou sem rumo durante muitos anos e a pouca solidez que apresentou naquele ano deveu-se ao trabalho do técnico holandês e de Trappatoni um ano antes. Mas esse trabalho, ainda que pudesse complementar-se de certa maneira, não definia uma filosofia, não indicava o caminho do clube. Claro que no final do campeonato o castelo de cartas de Koeman caiu. Havia muito pouco a suportá-lo.
Este ano é o quarto de Jorge Jesus à frente do Benfica. E isso nota-se. Se na verdade os títulos ainda escasseiam pela Luz, o Benfica parece finalmente ter definido um caminho. Apesar de todas as falhas que se conseguem apontar ao treinador, à estrutura de trabalho e ao modo de planeamento, algumas delas com assustadora facilidade, é notório que se segue para um lado e que se pensa de uma maneira. Para o clube de Lisboa, a importância de existir uma direcção e uma mentalidade determinadas é evidente logo no clube rival. O Porto muitas vezes ganha títulos nacionais por ser melhor, mas também ganha títulos apenas por ter uma filosofia completamente definida e uma estrutura de trabalho completamente estável. E muitas vezes é melhor exactamente por isso. Estes anos para o Benfica podem ser o início dos anos 90 para o Barcelona. Não quer dizer que os encarnados permaneçam com Jesus no comando para sempre, mas que adoptem uma filosofia e que, independentemente dos treinadores se mantenham fiéis a ela. O interessante disto, e do encontro de amanhã entre os dois clubes, é que o Barça é a grande referência de Jesus. Nunca se intimidou com comparações nem nunca se coibiu de ele próprio as fazer. Não é exactamente o mesmo estilo, eu diria que nunca na história se conseguirá imitar o estilo de jogo do Barça e da Espanha pelo simples facto de eu duvidar da repetição de uma geração de jogadores tão boa e que joga tantas vezes junta, mas baseia-se na mesma filosofia ofensiva. A ideia de Jesus para o Benfica baseia-se na contratação de jogadores latinos, talentosos, e da construção de um ataque à volta deles; baseia-se num grande volume e alta intensidade de ataque; baseia-se num pivot defensivo no meio-campo, que pode funcionar como defesa, que equilibre a equipa; baseia-se em laterais muito físicos capazes de andar por todo o campo todo o ano (para bem do treinador, e do futebol, não falemos em Emerson); baseia-se em bolas paradas bem trabalhadas. Nos anos de Jesus houve falhas que só posso atribuir ao próprio e que fizeram com que estes pontos não tenham sido suficientes. Mas estes pontos estão lá e são a base para que o castelo de cartas, mais à frente na época e na década, não caia.
Esta Terça-feira o Benfica joga com um Barcelona também em transição. Treinador novo, jogadores novos, gerações novas. Mas quando se tem uma filosofia definida, um caminho traçado, pode ir-se fazendo isto tranquilamente porque os lugares estão lá. É só preciso compreender como ocupá-los. Tito Vilanova vai perceber o que tem de fazer; Cuenca, Thiago, Tello, Alba, Montoya, Cesc, Alexis vão perceber onde se sentar; a miudagem leva calduços dos mais velhos e são obrigados a sentarem-se no chão. O nível desce um pouco antes de subir outra vez. Porque o crescimento é sustentado. E é isso que se quer, amanhã, no Benfica: que Enzo mostre que quem tem qualidade tem qualidade e não é por ser adaptado que as características da sua posição mudam; que quer o Benfica jogue com 4 ou com 5 no meio-campo, ninguém se assusta com a posse de bola dos outros; que o Melga não tenha medo do Pulga. Porque é hora dos lugares também serem definidos na luz. É tempo de provar que a estrutura está construída e não há que recear que caia. É altura que o conforto de se estar no caminho certo permita que a qualidade duma equipa sobressaia. Porque este já não é um grupo de deslocados. Prognósticos? Conseguirá o quarteto: Enzo, Aimar, Salvio e Gaitán contrariar a posse de bola do Barcelona? Teste a sério para Jesus (ele que há muito desejava um duelo com o Barcelona e que nos últimos anos sempre comparou o futebol do Benfica com o dos catalães)? Que hipóteses tem o Benfica frente à melhor equipa do Mundo? Quem podem ser os protagonistas do encontro?
Luís Figueiredo


