A principal razão do insucesso de Miguel Cardoso em Vigo? O técnico português só contou com Aspas em boas condições físicas em 4 jogos (até à lesão do craque no Camp Nou), nos quais somou 7 pontos (nos outros 10 encontros da La Liga em que dirigiu os galegos, Cardoso somente arrecadou 4 pontos). A influência do canhoto – quer com Miguel Cardoso no banco quer com qualquer outro técnico que nos últimos anos tenha passado pelos Balaídos – é impressionante, ao ponto de ser legítimo dizer que, sem Aspas, o mais provável seria o Celta descer e, com ele a 100% durante todo o campeonato, o mais normal seria o Celta lutar pela Europa.
O Celta de Vigo anunciou a renovação de contrato de Iago Aspas até 2023. O avançado espanhol, de 31 anos, seguirá assim ligado ao clube por cuja equipa principal se estreou com 20 anos e que só abandonou entre 2013 e 2015, para representar Liverpool e Sevilla. No total, Aspas, 17 vezes internacional espanhol, leva 301 jogos e 131 golos pelo conjunto de Vigo. Nas últimas temporadas, o jogador tem sido a referência indiscutível do clube, com 18 golos em 2015-2016, 26 em 2016-2017 e 23 em 2017-2018.
Nesta campanha, Iago Aspas sofreu um complicado problema físico em Camp Nou, a 22 de dezembro, o qual só foi debelado no final de março (pelo meio actuou 24 minutos em Getafe no começo de fevereiro). Ainda assim, o peso de Aspas na equipa galega é enorme e bem ilustrado pelos números: com o avançado em campo, o Celta soma 1,33 pontos por partida, enquanto que sem ele soma 0,4. Projectando estas tendências às 31 rondas já realizadas da La Liga, a turma de Vigo teria somado 12,4 pontos se não tivesse Aspas, o que significaria estar já despromovido; e teria 41,2 pontos se tivesse tido sempre o jogador, pontuação que colocaria o Celta no 10.º lugar. Os vários técnicos que foram passando esta época por Vigo sentiram esta diferença: Miguel Cardoso estava em 9.º quando Iago se lesionou em Barcelona, na 17.ª jornada, e caiu para 17.º após as 10 rondas em que o jogador esteve a contas com problemas físicos; Fran Escribá perdeu os seus dois primeiros embates como técnico, nos quais Aspas não alinhou, e leva 7 pontos arrecadados nas 3 jornadas em que contou com o internacional espanhol. O Celta está longe de ter a manutenção garantida (só tem mais um ponto que o Valladolid, primera equipa em posições de descida), mas contar com um elemento deste nível é um trunfo importantíssimo.
Aspas, por si só, muda a face do jogo do Celta. Com ele em campo, o Celta remata mais por cada 90 minutos (12,4 tiros contra 9,9 sem ele), dispara mais à baliza (4,7 contra 2,9 na sua ausência) e marca mais (atinge os 1,83 tentos por desafio face aos 0,71 quando o espanhol não actua). Apesar da sua larga ausência, Iago é o melhor marcador espanhol da La Liga, com 15 golos (e só foi titular em 20 das 31 jornadas). Nas últimas 4 temporadas, Aspas apontou 69 golos no campeonato espanhol, a mesma cifra que Antoine Griezmann e apenas superado por Messi, Luis Suárez e Cristiano Ronaldo. Iago Aspas, a lenda do Celta de Vigo que catapulta o nível de jogo dos galegos e com a qual Miguel Cardoso pouco pôde contar, continuará a defender as cores do clube do seu coração até 2023.


5 Comentários
Tiago Silva
Um craque! É bom ver lendas como ele a lutar pelos seus clubes do coração ainda no auge das suas capacidades. Merecia ter uma equipa a acompanhar e talento não falta. Com jogadores como Hugo Mallo, Lobotka, Braias Mendez, Boufal, Sisto ou Maxi Gomez, o Celta tinha a obrigação de fazer muito melhor!
Marcos
Uma lenda… Isto é amor ao clube. Isto sim, um clube que o máximo que almeja é chegar à liga Europa, e esta época até luta para não descer… E ele continua lá, quando a opção mais fácil seria sair. Lenda.
Hugo Mallo é outra lenda do Celta, único clube que conhece enquanto profissional. Espero que se mantenham na primeira, espero mesmo.
T. Pinto13
Lenda viva do clube e um craque. Fico feliz que o Celta o tenha conseguido manter.
SenyorPuyol
Respondendo à questão levantada logo no início. Sim, a ausência de Aspas foi determinante, o jogo do Celta não era mau, mas faltava resolução na frente, faltou sempre aquela capacidade de desequilibrar as coisas, principalmente com boas decisões. Brais, Boufal e Sisto, a meu ver, decidem muitas vezes mal. Não sei se Mor daria um melhor rendimento mas a indisciplina tem dificultado que seja aposta.
Com tudo isto, o Celta tem-se visto muito reduzido a meter bolas em Maxi Gomez, mas estas não chegam com qualidade. Lobotka é muito interessante e tenho ideia que as melhores fases do Celta têm também coincidido com os bons momentos de forma do eslovaco, mas lá está, não é ele que tem de trazer essa capacidade resolutiva na frente.
O que se passa com Aspas é um pouco o que se passa com Messi (salvo as distâncias). Ainda há dias disse que um jogador destes é essencial na Liga espanhola (para quem se lembrar do comentário onde disse isto, volto a pedir desculpa por me ter excedido na forma como me referi à Serie A). O nível táctico da liga é tão alto que sem um abre-latas custa muito que uma equipa ganhe ascendente nos jogos. E quando digo abre-latas não me refiro a um tipo exclusivo de jogador, refiro-me a aqueles jogadores que acabam por assumir duas posições em simultâneo ou que conseguem gerar superioridade por si sós.
– Messi no Barça.
– Aspas no Celta pela capacidade de aparecer em segunda linha ou em desmarcação e quando necessário descongestionar o jogo, aguentar a bola e instalar a equipa na frente.
– Modric pela capacidade de gestão de ritmo e ainda chegada aos três quartos de campo. Estando fisicamente bem, o croata parece omnipresente.
– A época passada, Ronaldo no Real pelas razões que todos sabem. Alvo/referência para a saída de bola, atracção e arrasto de marcações e movimentos de ruptura na área.
– Griezmann no Atlético pela capacidade de aparecer entre linhas e permitir a subida dos interiores em ataque organizado e pelos movimentos de fora para dentro em ataque rápido. Saúl é outro abre-latas pelo transporte de bola, mas Simeone vê-o um pouco como bombeiro e acaba por não usá-lo sempre para dar isso à equipa.
– Rodrigo e Guedes no Valência, para dar velocidade ao modelo exageradamente rígido de Marcelino. Respondem bem tanto por fora como por dentro.
– Canales e Lo Celso no Bétis. Médios que juntam capacidade de organização e de chegada na frente, um pouco como Modric, mas sem terem tanta responsabilidade como o croata na transição, essa no Bétis fica a cargo de William.
– Williams no Athletic.
– Jordán no Eibar.
– Cazorla no Villarreal.
Todas as equipas na Liga Espanhola precisam deste tal abre-latas, jogadores à volta dos quais montar o seu jogo. Mas insiste-se em dizer que “equipa X sem Y é medíocre” (pronto, diz-se para os três primeiros classificados neste momento que são os jogos que se vêem). As equipas e o seu jogo não são medíocres, simplesmente há duas equipas em campo, os treinadores têm de procurar anular o adversário e ganhar superioridade sobre os mesmos, com um jogador destes é mais fácil e os modelos constroem-se sobre isso. Se um destes jogadores não está, quer por ausência ou por menor rendimento, há duas soluções, ou se encontra forma de mimetizar o papel dessa peça-chave, ou se constrói outro modelo. No caso do Celta, não têm nem ninguém capaz de substituir Aspas no seu papel, nem matéria para construir outro modelo. E Miguel Cardoso acabou por sofrer com isso.
Por último, não posso passar sem congratular a forma como foi apresentada esta notícia, excelente post Pedro Barata!!
Oldasity
Uns são venerados por lutarem pelo clube de coração até ao último segundo e enquanto têm forças, já outros são criticados e rotulados como covardes.
Uma lenda do clube e do campeonato espanhol, é daqueles jogadores que nota-se o amor que têm pelo clube dentro de campo e não com textos ou fotografias.