Não há deuses no futebol. Há golos e jogadas divinas, momentos dourados em que simples futebolistas “tocam o céu”, mas tudo isso é curto quando comparado com a incomensurável tragédia cronológica. O tempo passa, as peças caem, a bola murcha; as lendas do passado deixam-nos, levando consigo experiências de um “ontem” irrecuperável. Eusébio, Di Stefano, Garrincha, Puskas, nomeando apenas alguns, são testemunhas de uma realidade que não permite contradições ou segundas interpretações. Estes homens, que um dia foram jovens, levaram ao choro milhões de pessoas por todo o mundo quando partiram, deixando para trás, pelo menos, uma obra acabada.
Mesma sorte não tiveram os tripulantes de um certo avião que partiu esta noite rumo à Colômbia. Nele, uma aeronave igual a tantas outras, seguiam atletas, técnicos, dirigentes, médicos e restante pessoal do staff rumo à partida mais importante da história de um clube que ficará, pelas mais incomportáveis razões, na história do “desporto rei”. A Chapecoense, que em 2009 alinhava na 4ª divisão brasileira, subiu a pulso, degrau a degrau, tendo por destino a primeira liga brasileira. Este ano, além da boa prestação no campeonato (terminaria sempre no top 10), alcançou a final da taça sul-americana (a “Liga Europa” da América do Sul), que disputaria contra o Atlético Nacional se a tragédia não perseguisse o voo. A felicidade de participar numa final continental deu lugar, em meros segundos, a uma angústia de dimensões titânicas e, por volta das 7 da manhã, hora portuguesa, qualquer réstia de divertimento já se esvaíra.
Esta não foi a primeira nem será a última tragédia a, infelizmente, assombrar o futebol ou o desporto em geral. Os casos coletivos de Torino (1949) e de Manchester United (1958) e particulares de Marc-Vivien Foé (2003), Miki Fehér (2004) e Antonio Puerta (2007) são exemplos de um facto que o Homem conhece bem: nada é garantido. A Chapecoense, que vivia a fase mais audaz da sua história, repentinamente perde aquilo que, acima de conquistas e títulos, lhe era mais precioso: a vida dos seus representantes. Recuperar, agora, será o primeiro passo, ainda que pareça missão impossível após um incidente tão terrível: 19 jogadores morreram, bem como o técnico principal e adjunto, o preparador físico e o médico.
As mensagens de apoio, provenientes de todo o mundo, realçam uma das caraterísticas mais gloriosas do ser humano: a solidariedade. O Corinthians, que propôs à Federação Brasileira a permanência da equipa de Chapecó na Serie A durante 3 anos sem ser despromovida ou o Atlético Nacional, que ofereceu a Taça Sul-Americana ao “Chape”, demonstram aquilo que os clubes e os seus fãs deveriam ser sempre: fraternos. Sim, porque em momentos de dor como este as rivalidades, as quezílias, as mesquinhices glorificadas em 80% da comunicação social não ficam sequer em segundo plano, desaparecem, porque quando um sofre, todos sofrem. Só é pena haver necessidade de tragédias destas surgirem para se encontrar a verdadeira essência do desporto…
Em memória dos atletas Ananias, Arthur Maia, Bruno Rangel, Ailton Canela, Cleber Santana, Dener, Danilo, Filipe Machado, Sergio Manoel, Matheus Biteco, Lucas Gomes, Kempes, Gimenez, Gil, Thiego, Tiaguinho, Josimar, Marcelo e Mateus Caramelo; dos técnicos Caio Junior e Duca; do médico Marcio Bestene Koury, do preparador físico Anderson Paixão e de todos os jornalistas e restantes membros da tripulação.
Força Chapecoense!
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar com o VM aqui!): António Hess


16 Comentários
Fefe Varanda
Sem qualquer tipo de ironia, hoje ao ler todos os textos sobre a Chapecoense, ficava sempre emocionado..
A vida é tão efémera.
JoaoMiguel96
Infelizmente está perfeito todo o texto. Quando sobe da noticia hoje de manhã nem queria acreditar e depois de ler aquilo que aconteceu ainda aos sobreviventes (Follmann que teve uma perna amputada, Ruschel que deve ficar paraplégico) ainda fico pior.
O futebol para muitos destes rapazes foi provavelmente um escape daquilo que seria uma vida mais complicada (especialmente nestes paises na America do Sul e em África) e agora, do nada, isto acontece.
Ricardo Ricard
5 estrelas! Parabéns!
Goncalo R
Eu não tenho sabido o que comentar em relação a isto, sou uma pessoa que prefere nem saber das tragédias, não consigo ajudar, e faz-me uma pena imensa, fico imenso tempo a pensar e a olhar para o vazio.. é mau demais, somos tão pequeninos, tão insignificantes, não controlamos absolutamente nada.
Neste momento em quem mais penso é nas familias, sobretudo nas crianças que ontem perderam os pais tão precocemente.
Enfim, porquê…
VettelF1
Estamos contigo Chapecoense!
Pedro o Polvo
Muita força para todas as famílias dos tripulantes do voo, não só futebolistas obviamente. Foi uma tragédia e vai ficar para sempre marcada na história do futebol. Que continuem as bonitas manifestações e gestos de apoio. As famílias, os sobreviventes e os restantes membros da equipa e staff que não voaram precisam mais do que nunca.
Rui Miguel Ribeiro
Amen.
Max Alves BR
Luto Chapecoense
#ForçaChape
Kacal
Estas coisas emocionam-me e só tenho pena de não poder ajudar mais além de uns comentários de força nas redes sociais e dar força mental às famílias, gostava de poder ajudar monetariamente ou em pessoa mas infelizmente não posso e isso impede-me de pôr em prática a minha essência, orgulho em ser quem sou e o que represento porque, ao contrário de muitos, eu faço o que diz no texto todos os dias do meu dia-a-dia, olho pelos outros e tenho preocupação pelos outros e por tudo que faço, penso antes de agir e o bom senso e a minha consciência limpa são o mais importante, a solidariedade é linda, ser fraternos também, mas deve acontecer todos os dias da nossa vida e não só quando acontecem estas tragédias e serve para ficarmos bem na fotografia, o fair-play no desporto deve existir SEMPRE! De resto, a vida é assim e nós somos meros peões nela, o que hoje é verdade, amanhã é mentira e o que hoje está bem, amanhã está mal, é uma incerteza total e nós somos pequeninos neste mundo portanto deixemos a nossa marca da melhor forma.
FORÇA CHAPECOENSE! ESTAMOS JUNTOS!
GroovyTony
A maior dor no coração que eu tive hoje foi um vídeo de um dos jogadores que faleceu, não sei dizer quem era, a receber a notícia de que ia ser pai. Isto há alguns dias, talvez semanas. É nessa hora que percebemos que não são só jogadores que estavam ali. Eram filhos, pais, irmãos, primos, tios, sobrinho, netos, e até mesmo avós. Membros da tripulação, jornalistas… E só 6 sobreviveram. Entre eles 3 jogadores, um perdeu uma perna, o outro pode vir a ficar paraplégico e o terceiro sofreu traumatismo craniano. Mas maior perda dos três, a maior dor, a maior cicatriz que nunca vai sarar, foi a perda de seus amigos, seus mentores, sua família. Que todos que ficaram consigam superar isso e que sejam os pilares da Chape para os anos que se seguem. O bom entre essa tragédia toda é a mobilização que vai dos clubes do Brasileirão, passa por Inglaterra, pela NBA, dando a volta ao mundo. Uma tragédia que dá esperança em relação à humanidade.
SlyRP
Por norma não assisto a futebol brasileiro, nem a muito futebol sul-americano mas por alguma razão senti-me tentado a ver a meia-final da taça sul-americana, não sei bem porquê, mas aquela equipa do Chapecoense chamou-me à atenção, pela sua história, por aquilo que estava em jogo contra o San Lorenzo, pela “torcida” vibrante, enfim, aquelas coisas do futebol que não conseguimos explicar.
Acompanhei os jogos contra o San Lorenzo e contra o Palmeiras (nessa altura, mesmo por vontade de ver o Chapecoense, nem tinha a percepção de que o campeão ali estava) e nesses meros 3 jogos, senti um grande carinho pela equipa, tendo até comentado com um amigo que acompanha o Brasileirão, que me ia tornar espectador assíduo dos jogos deles.
Hoje acordei, li a notícia e o meu cérebro não processou a informação, tive que reler duas vezes e só depois percebi do que estava em causa, de quem estava naquele avião.. Tinha prometido a mim mesmo não me esquecer de ver a final, hoje sinto que a história deles ficou incompleta, mas que mesmo assim, serão para sempre lembrados.
O futebol não são apenas 22 pessoas a correr atrás de uma bola e as emoções hoje sentidas, a solidariedade entre “rivais”, isso o demonstra.
Os meus pensamentos vão todos para as famílias que hoje perderam alguém, muita força!
vfcquiterio
Uma tragédia! Fantástico o que os clubes estão a fazer para ajudar o Chape. Infelizmente não são somente os 19 jogadores que morreram que desfalcam a equipa do Chape, os que sobreviveram infelizmente jamais vão poder jogar futebol. :(
A ficha não caiu e penso que todos imaginámos e se fosse o nosso clube! Por mais maus, péssimos, bons, craques sejam os jogadores, era sempre péssimo ver isto acontecer!
RodolfoTrindade
Como ir da alegria imensa à tristeza profunda em poucos dias :(
Força Chapecoense!
Kafka
Excelente texto, parabéns
Rui Sousa
Texto bonito.
Não consegui escrever sobre este acontecimento, que só de ver as imagens dos jogadores a festejar no balneário ainda há 6 ou 7 dias, ver o “miúdo” de 22 anos que soube que ia ser pai pouco antes, ver a felicidade do que estavam a conseguir fazer no futebol……parece que sinto um vazio. A vida por vezes é madrasta, e custa ver a felicidade e sonhos de tanta gente serem roubados à força,
Força Chape.
cards
Excelente texto.
Por estes Dias somos todos da Chapecoense.
Que Deus olhe por todas as pessoas que estiveram envolvidos no acidente bem como dos seus familiares e amigos.