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Conte até três

Em meados do século XIX, aquando da sua invenção em Inglaterra, o futebol parecia um desporto completamente diferente do que conhecemos hoje em dia. Os melhores jogadores eram os mais capazes fisicamente e, a nível tático, o jogo era caótico. A maioria das equipas apresentava uma linha avançada composta por cinco homens, quase metade do onze inicial. Com o passar dos anos, o jogo evoluiu (surgiu a regra do fora de jogo, por exemplo) e os treinadores começaram a entender que a melhor maneira de ganhar jogos não passaria por ter mais unidades em posições avançadas nem por escolher os atletas fisicamente mais aptos, o que levou a um gradual inverter da “pirâmide tática” – mais peças em zonas recuadas e menos no último terço – e ao aparecimento de executantes mais evoluídos tecnicamente.

Na década de 50 do século passado, um trio de treinadores húngaros – nos quais se incluía Béla Guttmann – inventaram uma disposição tática que viria a revolucionar o futebol, o 4-2-4. Esta formação surgiu como resposta ao 3-3-4, muito popular e eficaz entre 1925 e 1950. Mais do que a utilização dos dois médios ou dos 4 avançados, o mais marcante aqui foi a introdução de uma linha defensiva a quatro, composta por dois defesas centrais e dois laterais. Desde então, sete décadas passaram e podemos verificar que a defesa a quatro tem sido a mais popular para a maioria dos treinadores.

No entanto, nos últimos 12 anos, temos verificado que é possível ter sucesso com outra disposição tática defensiva. Podemos começar por observar o palmarés de Antonio Conte, um dos mais bem-sucedidos treinadores da atualidade. Chegou à Juventus em 2011 e, apesar de ter começado por utilizar uma defesa a quatro, rapidamente alterou para uma linha de 3 e não mais mudou. O resultado: 3 scudettos e duas supertaças em três épocas. Depois de passar pela Squadra Azzurra (quartos de final do Euro 2016), mostrou que o seu sistema também funciona fora do seu país ao ganhar uma Premier League (16/17) e uma FA Cup (17/18) em duas temporadas. Na última temporada interrompeu um jejum de títulos que durava há 10 anos no Inter de Milão ao conquistar um Scudetto. Este ano assumiu o comando do Tottenham, já com a temporada a decorrer, e conseguiu colocar o clube na luta pelos lugares de acesso à Liga dos Campões. Entre muitos outros fatores, há um denominador comum no sucesso de Conte: o uso de 3 centrais. É o italiano quem apresenta o palmarés mais impressionante entre os treinadores que optam por este esquema defensivo, mas há mais casos que merecem ser realçados. A última edição da liga dos campeões foi ganha por uma defesa a três (Chelsea) orquestrada por um treinador que chegou com a temporada em andamento. Metade das equipa da final four da Liga Nações (França e Bélgica) jogavam com 3 centrais e uma delas viria a vencer a competição. Treinadores como Jorge Jesus ou Diego Simeone, que nos brindaram com um 4-4-2 ao longo da última década, têm optado por uma defesa a 3 esta temporada, apesar do sucesso desportivo ser incomparável com os demais casos supracitados. Até à saída de Jorge Jesus, 3 das quatro maiores equipas nacionais apresentavam uma defesa a 3, sendo o F.C. Porto a exceção. Os 3 centrais também estão intimamente ligados ao regresso do título de campeão nacional a Alvalade.

Estando o autor longe de ser um especialista, vai tentar expor algumas nuances comuns a este tipo de esquemas táticos. Os esquemas mais populares com este tipo de defesa (3-4-3 e 3-5-2), quando bem trabalhados, têm a particularidade de ser um encaixe favorável contra sistemas mais tradicionais como o 4-4-2,o 4-2-3-1 ou o 4-3-3 uma vez que sobrecarregam o corredor central (no 3-5-2 é evidente, no 3-4-3 tal acontece quando é pedido aos extremos que fechem dentro), dificultando a penetração do adversário no bloco defensivo, forçando os oponentes a jogar por fora, o que os pode levar a abusar dos cruzamentos. Tendo 3 centrais, haverá uma vantagem no jogo aéreo perto da sua área, portanto um abuso de bolas altas por parte do rival será bem recebido. Outra vantagem desta abordagem é a superioridade numérica que ela permite produzir através da largura oferecida pelos alas. Com bola, a possibilidade da equipa atacar com uma linha de 5, forçando o recuo de médios por parte do treinador adversário e, sem bola, ter uma linha defensiva a 5.

Para que a aplicação deste sistema resulte serão necessários inúmeras condições, mas há algumas que são evidentes: ter, pelo menos, um stopper – central muito forte na antecipação e no jogo aéreo; (mais relacionado com o 3-4-3) ter extremos fortes no jogo interior, disponíveis no momento defensivo, bem como um avançado muito capaz na construção e no jogo de costas para a baliza; a mais importante, na opinião do autor, ter excelentes jogadores a nível técnico, físico e mental a atuar como alas, capazes de fazer vaivéns constantes de modo a produzir as já mencionadas superioridades em ambos os lados do terreno.

Estes esquemas de três centrais, quando bem aplicados, são extremamente exigentes para os jogadores quer a nível tático (para além da complexidade, não são sistemas com os quais os venham familiarizados na formação), quer a nível físico, como tal, não surpreende a sua popularidade mais recente. Não só os futebolistas dos dias que correm são muito melhores atletas do que nunca devido aos avanços científicos que permitem uma constante monitorização dos seus índices físicos, como também estão taticamente mais cultos que nunca – por vezes os adeptos até se queixam da falta de irreverência do passado – fruto duma formação cada vez mais cuidada e devido aos avanços tecnológicos que permitem às equipas técnicas dissecar os adversários e a própria equipa como nunca antes recorrendo ao uso de vídeos, e não só, quer dos jogos, quer dos treinos, sendo agora muito mais fácil de explicar ao jogador tudo o que lhe é pedido com uma minúcia que não existia no passado.

Posto isto, existe a possibilidade de que estejamos a assistir uma gradual alteração do status quo e daqui a dez anos o mais comum seja as equipas jogarem com 3 defesas centrais.

Visão do Leitor: Gonçalo Salgado Martins

VM-Desporto
Author: VM-Desporto

5 Comentários

  • Antonio Clismo
    Posted Abril 26, 2022 at 6:15 pm

    Bom texto

  • Neville Longbottom
    Posted Abril 26, 2022 at 6:25 pm

    Obrigado pelo texto Gonçalo.
    Vou pegar no caso do Sporting. Coates é esse homem que mencionas como sendo o stopper, mas acho que é mais fundamental para o sucesso do Sporting a utilização dos outros 2 centrais como construtores de jogo.

    Sou da opinião de Amorim, penso que o Sporting jogou melhor este ano, mas claramente esteve mais tempo com bola do que no ano passado, o que obrigou Amorim a usar Matheus Reis como central porque, fora Inácio, os restantes centrais (Neto e Feddal) não são propriamente fortes neste tipo de futebol. E isso pode explicar alguma dificuldade do Sporting em alguns jogos onde foi obrigado a construir o jogo todo (não me sai da cabeça o jogo nos Açores – isto até fez Amorim meter o Esgaio a central, foi quase a partir daí)…

    E já agora, vejam uma coisa: Tiago Tomás era mais fulgurante com a defesa mais baixa e com o futebol mais vertical, era peça importante nos primeiros 11s do Sporting de 2020/2021 e depois foi perdendo gás, lá está, a partir do momento em que os adversários passaram a perceber que o Sporting era forte em transição com as bolas a saírem longas dos nossos centrais (os tais 3). Curioso como estes 3 centrais influenciam bem mais a forma como a equipa ataca do que parece. No caso do Sporting, mais ainda devido ao facto de termos 2 médios e nenhum ser criativo.

    Feddal, Neto e Coates, um bloco de 3 centrais, fortíssimos na bola parada defensiva e intransponíveis quando recuados (jogaço em Braga em Abril passado, com esta linha de 3, quem se lembra?). Com a equipa sempre em posse, é mesmo preciso que os centrais do Sporting sejam fortes com bola. Marsá parece estar na calha para assumir um lugar no plantel do próximo ano para ser esse backup de Inácio ou quando Reis jogar à esquerda.

    Daí talvez não ter resultado muito bem com Jesus. A somar ao facto da equipa não estar rotinada, tinha centrais como Vertonghen ou Otamendi (belíssimos centrais) mas sem a capacidade para construir que é exigida neste sistema a um candidato ao título (e com Veríssimo fora até o Almeida metia na posição). Ele que já tinha testado uma defesa a 3 no Sporting com Coates no meio, Mathieu à esquerda e Piccini à direita…

    Quanto à generalidade, concordo. É talvez a grande mudança que prespetivo no futebol moderno após a queda do Nº 10 (que praticamente não existe hoje em dia).

    SL

  • Fireball
    Posted Abril 26, 2022 at 7:02 pm

    Acho relevante destacar a Itália de Mancini também aqui. No papel nao joga com 3 centrais, mas no campo, é um 3-5-2 (3-5-1-1) bem interessante no momento ofensivo, com Chiellini à esquerda, Bonucci no meio, Di Lorenzo à direita, Spinazzola e Chiesa nas alas, Verrati, Jorginho, Barella no meio, Insigne a derivar para dentro e a acompanhar Immobile.

  • Pao com Presunto
    Posted Abril 26, 2022 at 11:58 pm

    Acho que sim, o futuro vai passar por estes esquemas de 3 centrais, até porque os centrais de hoje em dia são muito evoluídos com os pés, já passou o tempo dos centrais durinhos de rins e lentos. Assim, tanto dá para criar jogo a partir do GR como dos centrais.

    Acrescento que já começam a surgir equipas a proporem-se jogar sem ter 1 referência ofensiva, o que baralha muito na hora de definir marcações. Na verdade, até têm várias referências, mas com enorme mobilidade de movimentos – em equipas de topo, isso verifica-se por vezes (também fruto da necessidade, poder-se-ia dizer, mas não me parece justificação forte o suficiente) com o City

    • Estigarribia
      Posted Abril 27, 2022 at 9:54 am

      Pao com Presunto,

      Concordo contigo.

      E acrescentando ainda sobre os ataques sem uma referência ofensiva, o nosso Sporting já tem jogado sem jogos sem ponta-de-lança ou avançado, como aconteceu em Tondela ou no Bessa, e eu gostei de ver o ataque composto por Pote-Sarabia-Edwards.

      Saudações Leoninas

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