Leighton Baines não é o futebolista, desportista, típico. Olhemos para Ronaldo, Zlatan, Pogba, recuemos até Cantona se for preciso. Exemplos extremos de homens confiantes. Donos do seu Mundo. Leighton Baines não é assim. Bem longe disso. Reservado. Tímido. Cultural. Educado, afável e, acima de tudo, humilde. Dentro da mente de Leighton Baines há um enigma por resolver e não há qualquer tipo de ego. Melhorou com o tempo mas, Baines, hoje, aos 32 anos, ainda não sabe como aqui chegou. Das ruas de Kirkby, Liverpool, no Merseyside brotou um dos mais admiráveis, enigmáticos e, sejamos justos, melhores futebolistas britânicos dos anos recentes. Este é Leighton John Baines, o craque que achava ser fraude.
Sábado. Não importa qual. Um qualquer. De quinze em quinze dias uma coisa era certa: o Everton Football Club estaria por Goodison Park. À porta? À espera que chegassem os dez/quinze minutos finais do jogo, estava Leighton Baines. Pequeno. Franzino. Não importa com quem estivessem os Toffees a jogar. Baines só queria poder aproveitar a abertura das portas de saída de Goodison Park para apreciar aquele momento. Para um miúdo como ele não havia nada melhor. O seu ídolo estava ali. Quem? Big Dunc. Duncan Ferguson. Ídolo que sonhava imitar mas que nunca acreditara realmente conseguir fazê-lo. Muito menos ali. Naquele relvado que considerava sagrado. O relvado do, então, quarto ou quinto clube mais condecorado de Inglaterra. Não um clube qualquer. Aquele era o relvado do glorioso Everton Football Club. Sonhar representá-lo? Sim. Acreditar? Jamais. O curioso? Por algum tempo apoiou o Liverpool. Culpem Robbie Fowler. Pouco depois o Blackburn, cortesia de Shearer e Sutton. Mas, em 1995, tudo mudaria quando vê o Everton, em Wembley, vencer o Manchester United por 1-0. Era em Goodison Park que se sentia em casa.
Baines dá nas vistas cedo. Aos 10 anos, ainda na escola primária, já se via talento. Mas Leighton Baines tinha um problema. A timidez. A sua incurável e abissal timidez e completa falta de confiança. Ao ponto de Baines não conseguir, sequer, descontrair ao jogar em Sunday Leagues. Na escola tudo bem. Já conhecia os amigos, o ambiente, mas retiram-no da sua zona de conforto e é um problema. Queria jogar, mas tinha demasiado medo para se aventurar. Via os restantes rapazes antes de desistir e regressar a casa. Tinha a certeza de algo: não era bom o suficiente e tinha pânico que os outros o descobrissem e negas no Liverpool e no Everton não ajudam. Um medo que o acompanha durante toda a vida e que só a chegada aos trinta parece ter desfeito.
Agosto de 2004. Leighton Baines é um jovem lateral esquerdo a dar nas vistas no Wigan Athletic. Os Latics estão pelo Championship mas Peter Taylor não dorme. Aquele lateral esquerdo é um dos melhores jovens ingleses da época e merece a chamada. Para Baines? Uma honra e um terror. “O que faz um miúdo de Wigan aqui?”, pensava Baines ser a pergunta geral da comitiva inglesa que procura derrotar a Áustria rumo ao Europeu Sub-21 de 2005. Sentia-se deslocado. Como se não pertencesse ali. Lá está, não acreditava ser bom o suficiente e que, mais cedo ou mais tarde, alguém o descobriria. Não importa que por esta altura fosse um dos mais excitantes laterais ingleses, num Wigan forte, a competir pelo título e a conseguir a promoção no Championship rumo à Premier League pela primeira vez na sua história. Baines faz 42 jogos pelos Latics na época da promoção e a chegada à Premier League não trouxe a Baines a felicidade que seria de esperar. Afinal, esta era uma competição internacional, sob os holofotes mediáticos de todo o Mundo e a sua suposta falta de qualidade estaria ainda mais exposta.
Um medo que comanda a vida de Baines. Que o acompanha. Aos 18 é pai mas tem medo de contar aos companheiros o sucedido. Tem medo que achem que a filha seja uma distração desnecessária. Tem medo, principalmente, que Paul Jewell o descubra. A pressão aperta, é ainda maior agora. Nem na música encontra paz. Um dos seus prazeres – é amigo pessoal de Miles Kane, por exemplo. Compra uma guitarra mas, até com isso, tem problemas. Torna-se autodidata pois tem medo de ter aulas. Nunca tinha pegado numa guitarra e, para não variar, tem medo que o percebam. Vive cada semana, cada treino, cada jogo, com um peso nos ombros. Vai ser hoje, após aquela sessão, que irá ser cortado da equipa. Só quando percebe que esse momento não chega ganha alguma confiança.
2016. Leighton Baines já não é o mesmo. A cumprir a décima temporada ao serviço do Everton Football Club e várias épocas consecutivas a ser um dos melhores laterais esquerdos da Europa, Baines é hoje um homem mais confiante. Já admite alguma imaturidade, normal, anteriormente. Hoje os problemas que o atormentam são outros. Uma lesão no tornozelo no final da temporada 14/15 fá-lo perder boa parte da temporada 15/16 na qual nunca viria a estar realmente ao seu nível. Nova lesão, já esta época, obriga-o a ficar fora da equipa em seis jornadas e só agora vai regressando ao seu melhor nível. Voltaremos a ter um Leighton Baines em grande? Uma coisa parece certa. Hoje, em 2016, Leighton Baines já é um homem convencido. Não totalmente. Mas convencido de que, pelo menos, não é uma fraude e na história da Premier League, nenhum defesa tem tantas assistências quanto Bainsey. Erudito. Inteligente. Afável. Uma das melhores pessoas no mundo do futebol. Este é Leighton Baines, o craque que acreditava ser fraude.”


19 Comentários
Ricardo Ricard
Artigo genial e história fantástica!
GraphicPesKing
Bom texto!!
Sempre que tinha oportunidade de ver o Everton, o Baines não me passou despercebido. Tinha pés de craque e era certo a decidir com a bola. Dava gosto em vê-lo jogar. E acho-o injustamente desvalorizado, logo numa altura em que a grandeza do jogador se confunde com a da equipa que representa…
Bisc8
Texto muito bom.
Kacal
Comentário de excelência e textos melhores ainda, parece impossível, mas é verdade, é realidade. Parabéns e muito Obrigado João-Pedro Cordeiro! Adorei.
Era (e sou) fã do Leighton Baines, um lateral que sempre foi um pouco subvalorizado, diria muito até, mas que antes da lesão que teve era um dos melhores na Europa, não um prodígio de técnica ou exuberante mas com uma atitude competitiva enorme, uma disponibilidade física enorme, uma raça e garra maiores ainda e um pé esquerdo muito bom em cruzamentos, remates e bolas paradas. Um lateral do mais equilibrado que há.
Identifico-me com esta história dele, eu próprio era humilde mas tímido (ainda sou mas nada a ver com antes) e tinha bastante talento para o futebol (todos diziam) mesmo sem nunca ter treinado mais a sério mas não arrisquei em entrar para clubes, infelizmente, embora me aconselhassem, por causa dessa timidez e desse medo de falhar, não acreditar que fosse bom o suficiente mas agora vejo que era e devia ter arriscado, já lá vai mas identifico-me e falhei, o Baines foi a tempo de corrigir e os resultados estão à vista, conseguiu, espero que as lesões o larguem e continue a jogar com regularidade e volte a exibir-se ao seu nível ou pelo menos perto disso. Não é fraude, é craque e tenho grande respeito e admiração por ele, agora ainda mais graças a este texto fantástico. Respect.
Daniel Salgueiro
Do melhor que já li por aqui! Grande artigo, como já vem sendo apanágio do João Pedro Cordeiro.
Carlos Moreira
Grande texto, e grande história!
Nickles
Nao há jogadores iguais, como não há personalidades iguais. Mas se todos os jogadores fossem assim…
Excelente texto João Pedro Cordeiro!
Cassafa
Wow, muito bom texto!
Capitão Tsubaca
Texto incrível, obrigado.
Alexis
Grande texto, mais um, do João Pedro Cordeiro. Eu bem dizia que o blog sentia a tua falta, no tempo que andou mais “afastado” destas lides. Obrigado!
Bruno
Que belo lateral. Chegou a ser muito falado na Europa e lendo este tecto percebo porque nunca saiu do Everton.
A única pergunta que tenho para o João Cordeiro é: onde foste buscar está informação? Pareces o melhor amigo do Baines a falar (ok talvez ele tivesse demasiado medo de perder um amigo para ter um melhor amigo ahahah).
João-Pedro Cordeiro
Ahah não, mas é juntamente com Gareth Barry os meus dois jogadores preferidos, além disso tem esta personalidade distinta que me faz segui-lo. Há várias entrevistas pela net (ao Daily Mail e ao Guardian principalmente) dadas ao longo dos anos com as informações que utilizei no texto.
SoNNy
Excelente artigo de um lateral com um pé esquerdo fantástico!
Durante anos a fio fez parte das minhas equipas da fantasy, muito forte nas bolas paradas e sobretudo no cruzamento. E uma postura super profissional, não me lembro de qualquer atitude incorreta da sua parte para com colegas de profissão e árbitros, um Senhor!
TCL
Muito bom João, ao nível que nos tens habituado!
Quanto ao Baines, excelente lateral, pé esquerdo refinado, grande arma nas bolas paradas, e uma enorme disponibilidade, tanto física como mental (toma quase sempre a decisão acertada) que lhe permitem suprir alguma falta de velocidade e potência, que hoje caraterizam quase todos os laterais supersónicos que vemos nas equipas de topo e que o tornam diferente. Em tempos ano após ano associado ao United, pelo texto perguntamo-nos, será que não foste tu Bainsey que nunca quiseste saír de casa e rumar ao Teatro dos Sonhos??
João-Pedro Cordeiro
Ele chegou a falar sobre isso numa entrevista dada ao Telegraph em 2014. Não foi só uma questão de lealdade ao clube, mas também uma questão de perceber que nem sempre um clube maior significa uma melhor direcção desportiva. Esteve bastante tentado porque tem uma grande relação com Moyes, mas ele próprio nunca pediu para sair. Deixou o assunto ser tratado pela direcção e simplesmente esperou para ver o que acontecia. Não se consumou e o engraçado é que aquilo que o atraia no United perdeu-se entretanto: Moyes, lutar pelo título e futebol de Champions.
LMMarado
Uma salva de palmas em pé para este texto! Venham mais uns quantos.
Rodrigo Ferreira
Muito bom texto!
Ricas
Artigo top!!
Pedro o Polvo
Muito bom, já conhecia a história mas está aqui retratada com mestria!