Para muitos de nós, pensar na África do Sul numa fase final é recuar imediatamente a 2010: as vuvuzelas, o ‘Waka Waka’, a polémica Jabulani, o golaço de Tshabalala frente ao México… enfim, a atmosfera única do primeiro Mundial disputado em solo africano. Apesar de não ter conseguido ultrapassar a fase de grupos, aquela continua a ser a última imagem dos Bafana Bafana em Campeonatos do Mundo. Pelo menos até hoje. No preciso dia em que se completam 16 anos desde o arranque do Mundial de 2010, a África do Sul regressa ao maior palco do futebol mundial e quis o destino que voltasse a disputar o jogo inaugural frente ao agora coanfitrião México. Desta vez, porém, liderada por um jogador cuja história vai muito além do futebol: Lyle Foster.
Aos 25 anos, o avançado do Burnley é a principal referência da seleção sul-africana. O seu percurso, no entanto, esteve longe de ser linear. Em novembro de 2023, já em Inglaterra, Foster afastou-se temporariamente dos relvados para cuidar da sua saúde mental, numa altura em que lidava com problemas de depressão e ansiedade. A decisão acabaria por afastá-lo da Taça das Nações Africanas, disputada num período em que os Bafana Bafana alcançaram o seu melhor resultado desde 2000, um terceiro lugar com destaque para um triunfo memorável sobre Marrocos nos oitavos de final.
Sem a sua principal referência, a perceção pública em torno de Foster dividiu-se: haveria ainda espaço para ele nos Bafana Bafana? Continuaria a ser uma peça importante? Ou estaria verdadeiramente comprometido com o projeto da equipa nacional? O avançado respondeu da melhor forma possível: regressou ao futebol, recuperou o seu lugar, quer no Burnley, quer na seleção, e voltou a assumir um papel central na caminhada rumo ao Mundial. Mas há um detalhe curioso que liga Foster ao futebol português.
Para isso, é preciso recuar à temporada 2020/21, quando o Vitória de Guimarães protagonizou um dos mercados de verão mais peculiares dos últimos anos. Na altura, o clube vimaranense decidiu apostar fortemente em jovens jogadores provenientes de algumas das mais prestigiadas academias do futebol europeu. Jacob Maddox chegou do Chelsea, Lyle Foster do Mónaco, Abdul Mumin do Nordsjaelland, Jonas Carls do Schalke, Denis Poha do Rennes, Noah Holm do RB Leipzig e Yann Bisseck do Colónia, entre outros.
Carlos Freitas, então diretor-geral do Vitória, explicava numa entrevista à Tribuna Expresso, que o clube procurava construir uma equipa tendo por base uma visão de recrutamento que o próprio descrevia como “mais europeísta”, combinando análise de dados, atributos físicos e jogadores com formação em contextos competitivos exigentes. A ideia passava por identificar talento antes da sua explosão e criar ativos capazes de gerar retorno desportivo e financeiro no futuro.
No papel, a ideia parecia ambiciosa. No relvado, porém, os resultados imediatos ficaram muito aquém das expectativas. O Vitória terminou a temporada fora dos lugares europeus e viveu um ano marcado pela instabilidade, com quatro treinadores diferentes — Tiago Mendes, João Henriques, Bino e Moreno. Nem a estrutura escapou à turbulência: Carlos Freitas acabaria por abandonar o clube em março, por motivos de saúde. Nesse contexto, muitos dos jovens recrutados tiveram dificuldade em encontrar espaço para se afirmarem.
Os números ajudam a perceber a dimensão do fenómeno: Poha terminou a época com apenas 329 minutos. Maddox ficou pelos 288. Holm chegou aos 264. Foster participou em apenas 198, enquanto Carls não foi além dos 90. E Bisseck, hoje internacional, não chegou sequer a disputar um único minuto oficial pela equipa principal.
Olhando para trás, aquela janela de transferências parece quase um save de Football Manager em versão demo. Muitos jogadores, muitas origens e muito potencial, mas pouco tempo para se transformar em rendimento imediato. Alguns passaram por Guimarães sem deixar grande marca. Outros desapareceram tão rapidamente quanto surgiram. Mas o futebol raramente permite tirar conclusões definitivas.
Seis anos depois, alguns destes nomes acabaram por construir carreiras bastante interessantes. Bisseck é hoje uma presença regular no Inter de Milão. Holm consolidou a sua carreira no futebol escandinavo. Mumin afirmou-se na La Liga. E Foster, aquele avançado que teve uma passagem discreta por Guimarães, tornou-se uma das principais figuras da seleção sul-africana que regressa agora a um Campeonato do Mundo.
Talvez aquele mercado não tenha sido tão absurdo quanto pareceu na altura. Mais do que uma questão de avaliação de talento, o caso do Vitória expõe a dificuldade em equilibrar duas realidades do futebol atual: a aposta em jovens com potencial e a necessidade de lhes dar contexto competitivo para evoluírem.
Entre todos, porém, o percurso de Foster acaba por ser o mais singular. Em Guimarães teve pouco espaço e um impacto reduzido. Mais tarde, já ao serviço do Burnley, ultrapassou um período delicado fora dos relvados relacionado com a sua saúde mental. Hoje, chega ao Mundial com um papel central na seleção sul-africana.
João Lains

