Sou da opinião que vivemos numa era de extremos, as opiniões dividem-se entre o gostar ou se odiar, raramente encontro alguém com um meio-termo sobre uma opinião. Fazendo a ponte para o tema em questão, sistemas de jogo, passamos de um tempo onde na boca de muitos entendidos (?) o futebol se resumia ao 4x4x2 ou 4x3x3, para uma realidade onde ninguém valoriza o sistema, mas sim as dinâmicas.
Como maneira de estar na vida, sou fã de equilíbrios e neste tema, partilho esse sentimento. O sistema de jogo não é tudo, é certo, mas tem o que quê de importância na formação de um processo na equipa.
Olho para o sistema de jogo como algo não estático, que serve de referência para algo perfeitamente moldável durante os momentos de jogo. O sistema de jogo, seja ela qual for, é sempre sinónimo de referência posicional para o atleta/equipa e não de posição. A posição é território ocupado pela sua presença no momento, mas a referência posicional é a área que aquela posição referência costuma percorrer, e se não for o atleta em questão a estar lá, pelo menos outro terá de estar. Por exemplo:
Imagine-se que a minha equipa joga com um sistema de jogo de uma linha de 4 atrás. E o meu defesa esquerdo, que normalmente como referência posicional ocupa a parte esquerda do terreno de jogo, foi parar ao lado oposto, lado direito, numa iniciativa que nos acrescentou com bola naquele momento específico de jogo. Perdemos a bola, e neste caso a posição do atleta não reflete a sua referência posicional. Ele está errado? Afinal ele não nos acrescentou ao ir por outros caminhos? Agora como fica o sistema? A equipa tem conhecimento que o nosso sistema é de 4 elementos atrás, por isso alguém deve compensar e equilibrar a falta de um elemento que realizou uma ação positiva mas que não está dentro das dinâmicas habituais da equipa. Onde vão buscar essa informação para a compensação? Ao sistema, esse, serve como referência e informação para a equipa.
Por tudo isto, acredito que o sistema de jogo tem a sua importância, não é tudo no jogo, nem lá perto, muito menos é tão fundamental como se dizia à uns tempos, mas não pudemos de repente o desvalorizar como se não importasse nada.
Visão do Leitor: Hélder P. Gonçalves


3 Comentários
Tiago Silva
É um bom ponto de vista e cada vez mais a preparação do próximo jogo é cada vez mais fundamental. O ideal é encontrar uma ideia de jogo, o tal sistema, e adaptá-lo a cada adversário através do estudo intensivo deste. Os treinadores que conseguirem perceber isso e que o sabem implementar na sua equipa estão mais perto do sucesso.
Tal como o autor do texto, sou fã de equilíbrios, acho-os fundamentais para o sucesso da equipa. Todos os jogadores têm que ter a segurança de poder arriscar com bola, de forma a poderem desequilibrar, sem desequilibrar atrás, porque outro colega tem que ser solidário a esse ponto. E tudo isto estará bem oleado se tivermos um sistema bem oleado. O maior exemplo que consigo encontrar destes constantes equilibrios é o Leipzig de Nagelsmann, é uma equipa sensacional neste aspeto.
André Dias
Concordo com o ponto de vista do autor do post. E bom post, já agora. Sem uma referência posicional não há dinâmicas que valham, os jogadores precisam de ter um sistema táctico para se orientarem e saberem onde devem estar. Isso não implica que uma equipa deva estar presa ao esquema táctico e é aí que entram as dinâmicas que diferenciam o estilo de jogo de cada equipa e fazem a diferença nos vários momentos de jogo.
O sistema e as dinâmicas são (ou devem ser) simbióticos.
Por exemplo, um 4-3-3 pode transformar-se num 3-4-3 de duas formas. Opção A, laterais projectados e o trinco recua para fazer parte do eixo central. Opção B, um dos laterais sobe enquanto o outro apoia os centrais e o trinco fica mais próximo dos colegas do miolo. Ambas as opções disponibilizam mais jogadores no ataque sem desequilibrar demasiado a defesa mas uma delas dá mais largura enquanto a outra permite ocupação do espaço entre linhas. Tudo depende daquilo que o treinador pretende na sua equipa consoante a sua filosofia de jogo e/ou forma de jogador do adversário.
Af2711
Eu concordo do ponto de vista de jogar sem bola; é fundamental no jogo de hoje ter inteligência para mover-se dentro do campo. Aqueles que não sabem, dificilmente dão certo num colosso europeu.
Por outro lado, me permito discordar (ou apenas tentar expor o ônus, o que não quer dizer que esteja errado) do exemplo do lateral esquerdo apenas como opinião pessoal do que vejo do jogo. Se no caso for uma situação de bola parada até entendo, mas sendo um caso de movimentação atacante em que o defesa movimenta-se até o outro flanco (exemplo) ele terá corrido mais numa jogada em que há uma possibilidade alta de ser infrutífera (a menos que seja um contra-ataque onde a probabilidade de perigo cresce) e com isso desgasta-se mais e acaba por não ser tão útil como se estivesse na posição de origem com movimentações que são mais naturais de um defesa esquerdo.
Para isso que propôs, creio que aspectos fundamentais do entendimento de um atleta são; saber jogar sem bola para que não deixe a equipa descompensada e ser ágil e veloz, até para que se possa gerar uma situação de desequilíbrio. Jogadores lentos, com pouca capacidade física teriam dificuldades em conseguir aguentar este ritmo.
Para a equipa ter entendimento do que propôs, só o entrosamento e senso de posicionamento defensivo para não deixar a equipa descompensada, para além dos outros aspectos individuais que mencionei.
Os jogadores precisariam ser extremamente adaptáveis neste sistema, podendo acrescentar tecnicamente no momento ofensivo e defensivo.