Se o Benfica tivesse tido sucesso desportivo no final do século passado, João Vale e Azevedo ainda seria presidente. E, depois dele, também Luís Filipe Vieira se teria mantido imperturbável no comando se não tivesse calculado mal a época do pentacampeonato falhado – e Rui Costa, seu fiel escudeiro, ainda hoje estaria mudo e quedo.
A irracionalidade do futebol, que muitos insistem em chamar de “indústria” e outros de “negócio”, confina à conquista do título em cada época o resultado positivo de uma gestão, que tudo permite aos detentores do poder, à revelia das boas práticas administrativas, desde o silenciamento da razoabilidade a que se assiste no Benfica até à infame colecta de prémios de desempenho com que se vêm locupletando os dirigentes do FC Porto.
Se a equipa de futebol ganhar, vale tudo. Roger Schmidt e Sérgio Conceição deviam ser designados como verdadeiros CEO, pois é das decisões diárias deles que depende a estabilidade e a prosperidade dos dirigentes parasitas.
Rui Costa aprendeu durante décadas esta arte de permanecer presidente até à eternidade: acertar no treinador, uma espécie de roleta russa da sobrevivência que até Vale e Azevedo esteve perto de atingir com a “bala dourada” de José Mourinho, e ficar sempre em cima do muro perante temas fracturantes que possam “perturbar” o balneário – o célebre axioma futebolístico “em equipa que ganha não se mexe”.
No Benfica, graças a Roger Schmidt, deixou de haver auditoria, estatutos, oposição, para dar lugar a festa permanente, expectativa crescente e orgulho incontinente.
“Todos unidos” – é o longo abraço familiar que inclui suspeitos e, até, condenados que lesaram, em primeira instância, o próprio clube. A família, inebriada pelo sucesso, perdoa quem a rouba indecentemente porque os “verdadeiros benfiquistas” são os que não se preocupam com nada mais do que as “reservas” do Marquês de Pombal.
Mas não há bela sem senão: aproxima-se uma tomada de decisão que não lhe permite permanecer em cima do muro, a famigerada centralização dos direitos televisivos, por força de lei, que mais não é do que um ataque corporativo, quase uma declaração de guerra.
E, agora, Rui Costa? Ou isola o Benfica e satisfaz o desejo dos associados, ou satisfaz os parceiros e a opinião publicada e se isola num poder fragilizado, ficando ainda mais à mercê dos resultados desportivos.
João Querido Manha


16 Comentários
MuchoG
Cheguei a votar em Vieira uma vez, quando tinha 18 anos e motivado pelo facto do Benfica ter sido campeão nesse ano. Não votei em Vieira nas eleições seguintes, nem em Rui Costa, se o Benfica fosse hoje a eleições, não votava em Rui Costa.
Não vou negar as melhorias que o clube teve no seu comando, nem falando do aspeto futebolístico porque o regime de Vieira também acertou em treinadores e construiu equipas com muita qualidade.
Renovação do estádio é um exemplo, o clima está geralmente mais limpo e nota-se mais benfiquismo no dia a dia do clube. Noronha Lopes esteve presente e recebeu o emblema de 50 anos de sócio do clube, de Rui Costa, algo que não vejo Vieira fazer. Claro que tudo tirando a renovação do estádio é romanticismo que pode ser explicado pelo enorme sucesso da equipa, mas é a sensação que tenho.
Claro que está longe de ser perfeito, a auditoria é um promessa que já devia ter sido cumprida, e os casos continuam a amontoar-se. O maior problema é que, na minha opinião, o Benfica precisava de um verdadeiro corte com a era Vieira, que nunca irá acontecer com Rui Costa, vice-presidente da antiga direção. Por muito de bom que tenha feito até agora, e do seu benfiquismo, que acredito que seja real, é algo que não consigo ignorar.
Veremos como corre o resto do seu mandato, como lidará com a tal questão dos direitos televisivos, quando e se teremos resultados da auditoria e mudança dos estatutos. E o João tem toda a razão, um hipotético 2º mandato dependerá sempre dos resultados desportivos. Do meu lado, pelo menos, será preciso muito mais que isso.
Christian "Chucho" Benítez
Mais um excelente artigo de enormíssima qualidade, meu caro João Querido Manha.
Isto no futebol é tudo muito simples de explicar: enquanto a bola for entrando e os títulos se somando, os adeptos do Benfica perdoarão tudo e Roger Schmidt será um novo Mestre da Tática. Assim que a bola deixar de entrar, começarão os assobios, os pedidos de auditoria e Roger Schmidt será contestado.
Saudações Leoninas ?
P.S.: Nos exemplos em cima citados, não esquecer Bruno de Carvalho. Se aquela bola do Bryan Ruiz tem entrado, BdC perpetuar-se-ia no poder e o Sporting continuaria ainda pior sob a sua direção.
Mantorras
“Por muito pouco se vendem” e a frase que para mim resume tudo isto. E assim no futebol, mas tambem no resto, em bom da verdade, se trocarmos resultados desportivos por promessas e subsidios.
Nao e um problema do Benfica apenas nem vai mudar agora. O Benfica so tem que fazer o que acha certo. Centralizacao sem pre requisitos e perder a oportunidade de melhorar muitas outras coisas por arrasto e limpar varios podres. Deve avancar com condicoes claras de sustentabilidade e seriedade.
dachau
Continua a passar-se a ideia que a centralização é má para o Benfica mas ainda não explicaram porquê. Os ganhos teóricos que a centralização irá ter serão superiores às percas teóricas que a curto prazo parecem vislumbrar.
Mantorras
Parece me que a palavra chave e “teoricos”.
Silvestre
É sempre prejudicial. Mesmo que em termos absolutos receba mais do que o que recebe hoje e mais do que os rivais, em termos relativos vai ficar sempre pior. Objetivamente o SLB é responsável por cerca de 50% das audiências de futebol em Portugal. Não estou a ver os outros clubes a aceitarem que o Benfica fique com 50% do bolo. Aliás FCP e SCP, vão tentar, e bem, exigir receber o mesmo que SLB. E aí começa a ser prejudicial para o SLB entrar neste acordo. Se existisse uma visão global do desporto e da atratividade do nosso campeonato isto não aconteceria. Como disse recentemente um economista da praça, Camilo Lourenço, um acordo de centralização não desastroso para o SLB seria desastroso para os outros…Este acordo só vai beneficiar os clubes pequenos nada mais. Mesmo SCP e FCP duvido que tirem grandes vantagens disto.
lipe
United e Liverpool também hão de ser responsável por uma grande percentagem das audiências do futebol inglês e por lá não se vê este choro. Da parte do Bayern a mesma coisa, Real e Barcelona idém aspas.
É tudo uma questão de mentalidade. Todos os campeonatos que se levam a sério têm direitos centralizados há décadas; nós ainda andamos a discutir se vale a pena.
Borsalino
A questão nem é se vale a pena. A questão é: que “produto” vai ser vendido? A nossa Liga funciona em roda livre, limitando-se a sua Direção a ser a gestora do calendário de jogos, assistindo passivamente a que o futebol português seja desrespeitado diariamente por tudo e quase sempre pelos mesmos, com as consequências óbvias para a qualidade dos espetáculos e a desvalorização da imagem da nossa Liga. A lei que impera no futebol português há muitos ano é, quem mais “chora” e intimida recebe dividendos, quem ficar calado e respeitar as decisões é penalizado.
Em Portugal, o relevo de ter Departamentos de Comunicação ativos e que fazem constantes pressões, é de suma importância.
É esse o “produto” que vamos vender?!
Silvestre
Percebo o teu interesse mas estás a comparar mercados e países incomparáveis.
Em Inglaterra tens a massa adepta muito mais divida que em Portugal. Em PT eu diria que 90% da população é adepta de 3 clubes. Os teus exemplos são desonestos.
A questão dos direitos televisivos é muito importante. Mas antes disso existe muito caminho a trilhar. A arbitragem tem que ser seriamente profissionalizada. A regulamentação dos campeonatos tem que ser revista. Inclusivamente o número de equipas na 1 liga. Queres vender um produto que te mostra estadios com 2000 pessoas? Eu percebo que seja uma tábua de salvação de muitos e que o que realmente interessa é para não mexer….
lipe
E se falar em países como a Bélgica, Holanda, Turquia, Noruega, Polónia, Dinamarca, Áustria, Escócia, Roménia (até a Roménia) já é aceitável?
Portugal tem o campeonato mais desnivelado da Europa em praticamente todos os níveis, isto nem é uma opinião, é um facto comprovado pelos números.
https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_domestic_football_league_broadcast_deals_by_country
Ibagaza
Grande discernimento ao partilhar um texto assim num momento em que o Benfica ganha e respira saúde financeira e desportiva. Parabéns ao autor.
El Pipito
Resumir as mudanças no clube à contratação do Roger Schmidt é uma idiotice. Muita coisa tem mudado no clube e ainda há um caminho longo por percorrer, mas o Benfica não está melhor só porque contratou o alemão.
Antonio Clismo
Discordo completamente. Nada tem mudado no clube a não ser em termos de sucessos desportivos e isso é trabalho do treinador Schmidt.
Tivessem contratado outro treinador e não tivessem já o campeonato encaminhado e não tenho dúvidas que o assunto auditoria não seria assim tão facilmente esquecido.
Silvestre
O Benfica é dos associados. Se a direção decidir apoiar a centralização deve procurar validação junto dos associados em assembleia. E aí, todos saberemos o resultado.
Como disse em resposta a um comentário anterior a centralização só interessa aos clubes “ditos” pequenos. Acredito que para os “três grandes” vá ser prejudicial. Especialmente para o SLB que goste-se ou não é responsável pela fatia maior das audiências desportivas neste país.
Rui Costa ainda não está estabelecido e duvido que arrisque o “pescoço” pela centralização. Se o fizer corre sérios riscos junto dos sócios. Esta é uma decisão estruturante no futuro do clube e das competições em Portugal. Existem muitas situações que deveriam ser corrigidas antes de se pensar nisso. Mas nessas nimguém quer tocar porque não dá jeito…a começar obviamente pela arbitragem.
Borsalino
Concordo contigo, muita coisa tinha de mudar. Como é que querem replicar modelos como da NBA ou Premir League com o modu operandi do Futebol Português? Chegámos ao máximo de ter o centro de treinos dos árbitros invadido, por adeptos de um certo clube, e nada acontecer… e repito, NADA ACONTECEU! Na Premier League ou NBA isso aconteceria? Eu poderia falar de diversas coisas que ajudariam a sustentar a ideia que a centralização só deveria acontecer, se muita coisa mudasse.
Antonio Clismo
Quando depois de 10 anos a cometer crimes (muitos deles a serem agora investigados pelo MP) o CFO conseguir ter-se mantido no lugar 3 anos depois das últimas eleições é dos maiores mistérios que existem…
A prova de que esta é apenas uma direção de continuidade…
Uma direção envolta em dezenas e dezenas de casos de corrupção e polémicas e o diretor financeiro ficar lá mais alguns anos é só absurdo…
As trituradoras de papel nunca devem ter trabalhado tanto pelos lados da Luz como nos últimos 2 ou 3 anos….