Desde há muito tempo que o nosso país sofre de uma espécie de “doença crónica”. A falta de cultura desportiva é comum a grande parte dos adeptos portugueses, incapazes de aceitar uma derrota por demérito da própria equipa ou de reconhecer que o adversário foi superior.
O futebol é um desporto que arrasta multidões por todo o mundo. As discussões sobre o jogo em países como Inglaterra, Brasil e muitos outros atingem grandes proporções, mas longe do que se observa actualmente em Portugal. Ao invés de se analisar as tácticas, as performances individuais dos jogadores, prefere-se fazer uma crítica (apenas se tiver um mau desempenho) ao trabalho dos árbitros. As rivalidades entre clubes são saudáveis, são elas que fazem soltar um grito de golo, que fazem o mais tímido adepto saltar da sua cadeira para comemorar. Nesta altura, os espectáculos desportivos, não só no futebol mas em outros desportos, são impróprios para as famílias. As picardias entre presidentes, os “mind games” dos treinadores, provocando-se a cada conferência de imprensa e o clima de violência entre adeptos (petardos, bolas de golfe, insultos) afastam cada vez mais o público dos estádios. A imprensa desportiva, bastante parcial diga-se, apesar de não ser oficialmente assumida, também colabora para essa instabilidade, com capas dedicadas exclusivamente a árbitros ou factores que em nada têm a ver com o futebol jogado no campo. A televisão tem igualmente a sua quota parte de responsabilidades, com programas como o “Dia Seguinte”, “Trio de Ataque” ou “Prolongamento”, dedicados não ao futebol, mas sim às polémicas que o rodeiam, principalmente da arbitragem. O excesso de clubismo do adepto português é preocupante, e poderá levar o nosso futebol para uma dimensão ao nível do ambiente vivido em estádios turcos ou gregos, onde por vezes se prefere uma derrota do adversário do que uma vitória do próprio clube.
Mas não só no futebol o nosso país demonstra uma baixa cultura desportiva. Em várias modalidades amadoras, onde atletas com pouquíssimos apoios procuram representar Portugal com dignidade em provas internacionais, os feitos obtidos são de certa forma desvalorizados e ocultados pelos portugueses e pela imprensa. Notícias de fecho de telejornal ou um mísero canto na capa do jornal, é o destaque que o nosso “país futebolístico” dá a quem tão bem os representa por esse mundo fora. Ainda mais grave é o facto de estes atletas serem criticados por não obterem bons resultados, principalmente quando chega a altura dos Jogos Olímpicos.
Em suma, o número de verdadeiros amantes de desporto em Portugal é bastante reduzido. Adeptos que estejam realmente preocupados com o rumo do futebol português, que pode ficar de fora de todas as competições internacionais. O enorme número de estrangeiros e a pouca aposta na formação, a ausência de público nos estádios ou a má qualidade dos espectáculos de futebol, deveriam ter tanto destaque quanto o que as equipas de arbitragem têm. O nosso país vizinho tem desportistas de elite em variadíssimas modalidades. É sem dúvida um modelo a seguir, pelo patriotismo que demonstra, apoiando todos aqueles que os representam. Contudo, em Portugal é praticamente impossível de apoiar algo que não passe por uma bola a rolar num tapete verde.
Qual a razão do enorme destaque que as equipas de arbitragem têm, não só dos adeptos como da imprensa? Serão os árbitros os únicos responsáveis pelas derrotas? Consideram que os portugueses não são verdadeiros amantes de futebol, não demonstrando interesse por aspectos tácticos do jogo? Algum dia Portugal poderá ter vários atletas de topo em diversas modalidades?
T. Cunha

