Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

Farioli, o sonso com memória seletiva e espinha de gelatina

Diz-se por aí, nas tertúlias onde se discute a metafísica do futebol moderno e a cor das pastilhas elásticas dos treinadores, que Francesco Farioli é o novo profeta da bola. Um “filósofo” de computador debaixo do braço, que olha para um campo de relva como se estivesse a decifrar o código da Matrix. Mas, para quem tem olhos de ver e não se deixa levar pela cantiga do bandolim, o italiano é, acima de tudo, um sonso de primeira categoria. Durante os noventa minutos, é um festival de braços ao léu, de saltinhos na área técnica e de um histerismo que faria um maestro de ópera parecer um monge trapista. Farioli vive o jogo como se estivesse a dirigir a orquestra do fim do mundo, gesticulando para os árbitros com aquele ar de quem está a ser vítima de uma conspiração internacional montada pela própria FIFA.

O problema, claro, é quando o apito final soa e o homem se senta diante do microfone. Aí, a metamorfose é digna de um Óscar. O energúmeno do banco transforma-se subitamente num intelectual de voz pausada, um tipo melífluo que despeja chavões sobre “processos”, “espaços” e “dinâmicas”, com aquele sorrisinho de lado de quem sabe que nos está a vender gato por lebre. É uma atitude execrável, de quem atira a pedra durante o jogo e esconde a mão na conferência de imprensa, armando-se em vítima da incompreensão alheia. Na Holanda, já lhe tiraram a pinta: dizem que é um “laptop manager” que trata os jogadores como se fossem sub-rotinas de um programa informático, com uma soberba que não cabe na Arena de Amesterdão.

A verdade é que este Farioli tem aquele perfume de quem quer ser o próximo Guardiola, mas falta-lhe a classe. É o tipo de personagem que nos faz ter saudades do futebol de antigamente, onde um treinador não precisava de se armar em cientista da NASA para explicar porque é que a equipa não dá três passos seguidos. Sempre que o vejo com aquele ar de quem descobriu a pólvora, sinto uma vontade súbita de lhe oferecer uma pá e uma picareta, para ver se ele percebe o que é o trabalho a sério. Enquanto ele continuar a fazer este teatro de bastidores, entre o grito histérico e a mansidão de fachada, continuará a ser apenas isso: um sonso com bom marketing que, se não tiver cuidado, acaba por se perder no labirinto da própria arrogância.

O homem teve até o desplante de vir para cá falar do caso Calabote – uma historieta mofada de 1959, mal contada e enterrada no tempo, que ele deve conhecer tão bem como eu conheço a vida íntima das formigas – quando poderia falar do Apito Dourado ou da “fruta” que durante décadas serviu de dieta ao nosso futebol. É de uma falta de espinha dorsal que brada aos céus: esquece-se do desaparecimento das toalhas do guarda-redes do Sporting, das tropelias nos balneários do Norte ou do desaparecimento súbito de bolas sempre que o resultado convém aos donos da casa, mas depois, num palco europeu, vira virgem ofendida e vem queixar-se de que lhe faltaram as toalhas ou as bolas. É o clássico sonso que quer dar lições de moral sobre o que não sabe, enquanto fecha os olhos à podridão que lhe passa à frente do nariz.

O Porto caminha para ser um campeão com justiça, mas daquela justiça poética de quem aproveita o suicídio coletivo dos vizinhos. É um título que se explica muito mais pelo demérito escandaloso de quem habita na Segunda Circular do que por uma qualquer magia celestial vinda do Norte. Benfica e Sporting, possuidores de equipas e plantéis que, comparados com o dos dragões, parecem porta-aviões ao lado de barcos de pesca, conseguiram a proeza de se perder no nevoeiro da própria incompetência. Enquanto nos entretemos a polir o ouro de plantéis milionários, o Porto, com menos brilho mas muito mais manha, vai recolhendo as sobras de uma mesa que nós próprios resolvemos virar, provando que no futebol português, às vezes, ter as melhores armas serve de pouco se o exército resolver disparar contra o próprio pé.

Valter Batista

5 Comentários

  • JJ Okocho
    Posted Abril 23, 2026 at 3:52 pm

    Hipótese a
    O fcp faz doutrinação a quem entra no clube, a nível de comportamento e agressividade verbal e física

    Hipótese b
    O fcp vai buscar atletas e treinadores com certo perfil psicológico e comportamental

    Hipótese c
    a e b

    Os adeptos adoram. Enquanto ganhar. Se o presidente que tanto lhes deu a ganhar levou um chuto mal viram que não dava mais, quanto mais este para-quedista.

  • Christian Benítez
    Posted Abril 23, 2026 at 4:09 pm

    Personagem totalmente execrável e sem escrúpulos. Se o campeonato fosse minimamente competitivo, o Farolim e a sua equipazinha não ganhavam mais nenhum jogo.

    Na próxima época, já sem Froholdt, a sorte do Farolim e do Duque da Foz acaba-se. Não vale tudo para ganhar, mas os adeptos do Porto, como já vem sendo hábito, há mais de 40 anos, não se importam de ganhar a qualquer custo. Porque fosse com PdC ou seja com o Duque da Foz querem é ganhar, nem que tenham de meter os valores do desporto onde o sol não brilha.

  • Matias Fernandez
    Posted Abril 23, 2026 at 4:17 pm

    Eu sempre que o vejo com aquele ar de quem descobriu a pólvora sinto uma vontade súbita de ____ . acrescentar o que quiserem…
    Falando mais a sério, concordo com tudo menos o último parágrafo.
    Acho que houve muito mérito do FCP e não tanto demérito dos rivais. O excelente número de pontos das 3 equipas assim o comprova.

  • maZe
    Posted Abril 23, 2026 at 4:44 pm

    Para os portistas que respondem a estas críticas (que não são dirigidas a eles mas sim a quem gere o clube) com os típicos “mas o coiso também fez e disse” gostaria de dar um exemplo: quando o Sporting tinha BdC e JJ, eu deixei de ver futebol. Não me identificava com os broncos que geriam o clube e perdi o interesse. E não tem a ver com ganhar ou perder pois houve anos BEM piores a nível desportivo (os Paulos Sérgios e Vercauterens e Godinhos da vida) e eu mesmo assim continuava a seguir. Se eu ouvisse do meu treinador as coisas que o Farioli diz e assistisse a estas artimanhas de bolas, toalhas e balneários já tinha cag*** há muito para o clube. Surpreende-me que não só não haja críticas a esta postura e atitudes como ainda por cima ainda as defendem ou, pior ainda, gozam com os adversários como o Villas-Boas gosta tanto de fazer depois de mandar adversários para o hospital e fazer meros adeptos passar por humilhações à porta do estádio. Contra tudo e todos deve referir-se na verdade aos conceitos de desportivismo, leis e até civismo básico.

  • In a Silent Way
    Posted Abril 23, 2026 at 4:50 pm

    Eis um tipo que faz mal ao futebol português.

Deixa um comentário