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Formação, o nosso bem mais precioso

vtFundado em 1919, o FC Metz é um dos clubes profissionais mais antigos em França, e um dos membros fundadores do campeonato francês, onde totaliza 59 participações. Nunca foi campeão, mas esteve muito perto de o conseguir em 1997/98, quando terminou na 2ª posição, em igualdade pontual com o RC Lens. Os únicos títulos de relevo no seu historial são duas taças de França, ambas conquistadas na década 80, e uma Taça da Liga, em 1996.

À semelhança do que acontece com muitos outros clubes franceses, a academia do Metz desempenha um papel fundamental na política do clube. Só na última década, foram 67 os jogadores que se tornaram profissionais. Entre eles, estão Miralem Pjanic, Sadio Mané, Kalidou Koulibaly, Emmanuel Adebayor, Papiss Cissé, ou os já retirados Robert Pirès e Louis Saha (que não entraram nas contas). Em 2012, quando o Metz foi despromovido à III divisão, pela primeira vez na sua história, o futuro do futebol profissional chegou mesmo a ser posto em causa, mas a hipótese de encerrar a sua academia, nunca esteve em cima da mesa.

Com uma nova equipa técnica, chefiada por Albert Cartier, uma figura histórica do clube, e um plantel composto por vários jogadores que conquistaram a Taça Gambardella, a competição mais importante do futebol de formação em França, em 2009/10, o Metz garantiu, não uma, mas duas promoções consecutivas, que colocaram a equipa grená na Ligue 1, após sete anos de ausência. Aliás, este sobe e desce que marcou a última década e meia do clube, valer-lhe-ia a alcunha de “clube ioiô”. Ao todo, foram cinco despromoções e outras tantas promoções desde 2002, quando a descida à Ligue 2 interrompeu uma série de 35 temporadas consecutivas na I divisão.

Em 2015/16, o Metz garantiu o retorno à Ligue 1, após uma breve estadia na II divisão. Carlos Freitas era o director desportivo do clube e seria responsável pela chegada de vários jogadores portugueses ao nordeste de França. O ex-Sporting Nuno Reis e Candeias cimentaram-se como indiscutíveis. André Santos e Tiago Gomes iniciaram a época como titulares, mas acabariam por perder os seus lugares. Já a aventura de Amido Baldé, revelar-se-ia bem mais curta. Na reabertura do mercado de transferências, o agora jogador do Marítimo mudou-se para o Benfica de Luanda.

vtDos terrenos arenosos do Dakar, à elite europeia

A academia do Metz surge constantemente entre as melhores do país num ranking que todos os anos é publicado pela Federação Francesa de Futebol. Por exemplo, na última temporada, apenas as academias de Lens, Lyon e PSG ficaram melhor posicionadas. Um reconhecimento que até já se estendeu ao estrangeiro. São vários os clubes, federações e outras instituições que procuram compreender e replicar o modelo do clube francês. Do Canadá, da China, da Índia, de Singapura, etc. Contudo, até hoje, nenhuma destas parcerias se tem revelado tão proveitosa para o Metz como a que mantém com a Génération Foot, no Senegal.

Fundado em 2000 por Mady Touré, um ex-futebolista que fez carreira em França, a AS Génération Foot é um clube que desde 2003 trabalha em estreita parceria com o Metz. O seu complexo de treinos, com 20 hectares, localiza-se na periferia da capital Dakar e acolhe mais de 100 atletas, cujas idades variam entre os 13 e os 21 anos de idade. Lá, estes jovens têm acesso às melhores condições de treino e ensino: campos relvados, ginásio, posto médico, salas de aula e residências – que receberam os nomes de Babacar Gueye, Diafra Sakho, Sadio Mané e Emmanuel Adebayor, apenas alguns dos seus mais ilustres formandos.

Ao rendimento desportivo, soma-se os encaixes financeiros que as transferências de alguns destes jogadores já permitiram ao Metz. 15 milhões de euros é quanto o clube já recebeu com as vendas de Sakho, Adebayor, Cissé, Gueye, Fallou Diagné e Mané, ele que se tornou no futebolista africano mais caro de sempre quando, no último verão, trocou o Southampton pelo Liverpool, por mais de 40 milhões de euros. E é também isto que reforça o selo de qualidade atribuído a este projecto, que já inspirou equipas como a Juventus, a Udinese ou o Lyon.

A equipa principal da Génération Foot é orientada por Abdoulaye Sarr, que conduziu o Senegal às meias-finais da CAN 2006. Em 2014/15, o clube sagrou-se campeão da III divisão, mas cometeu uma proeza ainda maior depois de bater o primo-divisionário Casa Sports por 4-3 na final da Taça do Senegal, após prolongamento. Foi a 1ª vez que um clube da terceira divisão levantou o troféu, o maior choque na história de uma competição criada em 1961.

A vitória valeu o apuramento para a Taça das Confederações da CAF, competição equivalente à nossa Liga Europa. Contudo, a Génération Foot não iria além da ronda preliminar. A nível doméstico, o clube deu sequência à sua ascensão, garantido a 2ª promoção, em outros tantos anos – a Génération Foot chegava à I divisão. Em todos estes momentos, houve um jogador que sobressaiu sobre os restantes. Tem 18 anos, é extremo, e em Julho, assinou um contrato de 5 anos com o Metz.

Ismaïla Sarr foi um dos 5 jogadores que abandonaram a Génération Foot no último verão rumo à Europa, mas o único que foi directamente integrado na equipa principal do Metz. Alieu Jatta e Lemouya Goudiaby foram colocados na equipa de reservas. Wagana Faye e Ibou Faye, por sua vez, foram emprestados ao Seraing United, clube-satélite da III divisão belga, que acolhe regularmente jovens jogadores formados na academia do clube francês.

Muito veloz e imprevisível nas suas acções, Sarr iniciou a época como suplente, mas logo na 1ª jornada causaria estragos quando, lançado ao minuto 73, arrancou uma grande penalidade que deu início a uma reviravolta sobre o Lille. Na 4ª jornada, a 1ª como titular, arrancou uma segunda grande penalidade que permitiu a Mevlüt Erding fixar o 3-0 final sobre o Nantes. E como não há duas sem três… Na 7ª jornada, diante do Montpellier, Sarrconquistou uma terceira grande penalidade, que valeu ao Metz a sua 4ª vitória no campeonato.

Este bom momento valeu-lhe, ainda no início de Setembro, a estreia pela selecção principal do Senegal, diante da Namíbia. Ao minuto 67, Sarr rendeu Sadio Mané, dois jogadores que partilham origens na Génération Foot. Tão natural como a quebra de forma que sofreu recentemente – na última jornada, pela 2ª vez em 4 desafios, não foi titular – é afirmar que estamos perante o próximo grande talento senegalês a dar-se a conhecer no Metz.

João Lains

10 Comentários

  • Rui L
    Posted Novembro 17, 2016 at 12:37 am

    Mais um recital de conhecimento do João Lains

  • Kevin
    Posted Novembro 17, 2016 at 12:39 am

    Desconhecia por completo que estes jogadores tinham passado pelo Metz. Podiam formar uma equipa de sonho.

    Em França costuma falar-se mais da formação do Auxerre, Lens, Le Havre e PSG. Mas são sem dúvida o País com as melhores academias do Mundo

    • João Lains
      Posted Novembro 17, 2016 at 1:08 am

      Era uma equipa de luxo. O guarda-redes é o que defende a baliza actualmente. Tem 20 anos e foi internacional em todas as selecções jovens de França.

  • Kafka
    Posted Novembro 17, 2016 at 12:55 am

    Estes textos são qualquer coisa…

    Lains MUITOOOO OBRIGADO por nos trazeres estas realidades fora dos grandes colossos

  • Daniel Alves
    Posted Novembro 17, 2016 at 4:55 am

    Espectacular mesmo…

  • Tiago Silva
    Posted Novembro 17, 2016 at 8:25 am

    Mais um excelente texto! Realmente em França dão muito valor à formação e pensam muito no futuro (talvez demasiado). O Metz tem uma das melhores academias do Mundo, formou jogadores espetaculares como o Mané, Koulibaly ou o Pjanic e atualmente têm o Thill que penso que vai ser um fenómeno.

    Mas para o bem das formações francesas, estas pérolas têm que se manter por mais tempo nos seus clubes de forma a evoluirem com o clube, porque o futebol francês tem diminuido de qualidade, mas a formação tem aumentado! Vê-se um futuro risonho para França.

  • RodolfoTrindade
    Posted Novembro 17, 2016 at 9:34 am

    Mais um texto excelente!

  • Kacal
    Posted Novembro 17, 2016 at 4:22 pm

    Fantástico post, o habitual. Parabéns e muito Obrigado João Lains! Não há muito que possa acrescentar mas acho que o mínimo que podemos fazer e devia haver mais pessoas a fazê-lo, é ler o post e dar os parabéns e agradecendo, continua a trazer conteúdo deste para enriquecer ainda mais o blog.

  • Kacal
    Posted Novembro 17, 2016 at 4:36 pm

    Ah fiquei surpreendido ao saber que o Pjanic foi formado no Metz e vou anotar aqui o nome de Ismaila Sarr!

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