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Jogadores fantásticos e onde encontrá-los

Vivemos na era da estratégia, dos equilíbrios e do GPS. O futebol é cada vez mais medido em números, o jogo está refém das estatísticas e analisa-se mais em folhas de Excel do que no campo. Há muitos jogadores de qualidade, claro, mas os influentes deram lugar aos impactantes. Celebra-se os jogadores que correm muito, que recuperam muitas bolas, renega-se os médios que marcam pouco ou os laterais que não disparam como setas junto à linha. É por isso que quando aparece alguém como Lamine Yamal, um jogador fantástico não por ser apenas “muito bom”, mas por trazer verdadeira fantasia ao jogo, temos de celebrar e celebrá-lo para que não desapareça num mapa de calor qualquer.

Não desconsidero, claro está, a vertente táctica do jogo. É evidente que jogadores fantásticos como Yamal, Messi ou Ronaldinho Gaúcho têm de ter uma base de onde partir, uma ideia de jogo por que devem orientar-se. As melhores equipas da história tinham jogadores fantásticos, sim, mas tinham também uma filosofia que respeitavam. Entendo é que esses jogadores devem servir a tal ideia de jogo na mesma medida em que esta os serve. Ou seja, um jogador fantástico tem de saber ocupar o seu espaço na equipa, com e sem bola, mas deve ter liberdade para pôr a sua fantasia a render. Um jogador desses deve poder ter espaço para, em determinados momentos, não fazer o que o treinador pede, para perder bolas, para se estar nas tintas para as métricas. Seja ele um extremo irreverente como Yamal, um criativo como James ou um organizador como Busquets.

Infelizmente, é cada vez mais difícil encontrá-los. Uns estão amarrados à linha, outros exclusivamente dedicados a tarefas defensivas porque a organização nem por lá passa, outros ainda jazem sentados no banco, porque outrem “dá mais equilíbrios”. Não têm espaço para ser influentes, nem são vistos como tal. Esse título está reservado para os burocratas que recuperam muitas bolas por jogo – o que fazem com ela não interessa -, ou para os velocistas que correm inúmeros quilómetros por jogo – se chegam a fazer alguma coisa com a bola no fim da correria não interessa. A esperança volta, por exemplo, quando se vê portistas saudosos de Fábio Vieira e Vitinha ou sportinguistas que afirmam que o melhor futebol de Amorim foi o de 23/24, mas logo se esvai quando, também por exemplo, se vê Neres como suplente do Benfica, jogo atrás de jogo, ou a França jogar com Rabiot tendo Camavinga no banco.

Viva Lamine Yamal! Não nos levem os jogadores fantásticos os jogadores que nos fazem apaixonar pelo futebol, dêem-lhes tempo e espaço para pensar, criar e organizar, deixem-nos ser influentes, mais do que impactantes. No fundo, porque como Angel Cappa, numa equipa com 11 Iniestas, quem defende, quem corre atrás da bola, é o adversário.

Visão do Leitor: Joaquim Alberto

24 Comentários

  • Jasomp
    Posted Julho 10, 2024 at 12:20 pm

    Acho que se está a exagerar um pouco sobre ele. O futebol está cheio de jogadores que apareceram ainda adolescentes e que mostraram mais qualidade que o Yamal e se apagaram demasiado cedo. Lembro-me do Michael Owen, por exemplo.

    São miúdos que apareçam muito cedo e depois ressentem-se fisicamente porque o corpo não está feito para aguentar tamanhas cargas quando ainda está em desenvolvimento.

    • FCPSTYLE
      Posted Julho 10, 2024 at 1:10 pm

      Parabéns pelo seu comentário com o qual concordo. Embora com 16 anos e jogar assim é algo de admirável, mas veremos no futuro como ele estará.

    • Joga_Bonito
      Posted Julho 10, 2024 at 1:23 pm

      O Messi continuou nesta mesma idade e ainda dura…Fabregas também durou imenso…é tudo uma questão de gestão…
      O Owen tinha predisposição para lesões, li qualquer coisa sobre ele em que se dizia que ele tinha algo genético que o levava a lesionar-se…Já o pai e o irmão coleccionavam lesões musculares.
      Owen teve uma lesão grave logo aos 19 anos (como aconteceu com o Fenómeno) e acabou por não aguentar…
      A partir dos 25 começou a decair e a mudar a forma de jogar…
      Mas o Messi lesionava-se muito no início da carreira (não de forma grave mas com lesões pontuais) e mudou algo na dieta e nos treinos e tem aguentado uma carga de jogos absurda jogando sempre em alto nível.
      Tudo depende de cada caso…

    • Joga_Bonito
      Posted Julho 10, 2024 at 1:33 pm

      Ah, esqueci-me de dizer que hoje com a medicina actual os jogadores podem durar mais, consoante um conjunto de factores. Se não tiverem predisposição para lesões e alguma sorte em evitar problemas nos ligamentos ou tornozelos que tendem a ser fatais na carreira, podem durar muito. O Owen pertence a uma geração distinta, à do R9 onde a medicina não é que é hoje. Além disso os jogadores levavam muito pancada, competiam em péssimos relvados e a medicina não era o que é hoje. Não vejo drama nenhum em alguém jogar aos 16 anos. Pelé, Maradona, Fenómeno começaram aos 15 anos e deram o que todos sabemos. Os três aliás, dá a impressão que nesta era actual com outra medicina, melhores dietas e gestão de esforço, mais proteção aos atletas e melhor estilo de vida tinham durado muito mais.

      • Jasomp
        Posted Julho 10, 2024 at 3:06 pm

        As épocas são cada vez mais desgastantes. Não dá para comparar. Ainda há pouco li um artigo de um médico a explicar os riscos para a saúde de por adolescentes a levar com as cargas físicas de hoje em dia nos jogos. Eu tenho sérias dúvidas de que um aparecimento tão precoce não vá fazê-lo decair muito cedo.

    • Joaquim Alberto
      Posted Julho 10, 2024 at 1:37 pm

      Daqui o autor do texto (a quem o VM chamou Lamine Yamal, quem me dera ahah). O objectivo é celebrar este tipo de jogadores criativos e irreverentes que, parece-me, têm cada vez menos espaço no futebol. Só parti do exemplo do Yamal porque está fresco.

      Em todo o caso, vejo no Yamal coisas raras em miúdos desta idade, como um assinalável compromisso colectivo e uma compreensão táctica admirável. Não me parece que venha a ser mais um Bojan, por exemplo…

    • Neville Longbottom
      Posted Julho 10, 2024 at 5:26 pm

      O Michael Owen ganhou a Bola d’Ouro. Brilhou jovem e brilhou velho. Não em todo o lado, mas não é o melhor exemplo.

      • Jasomp
        Posted Julho 10, 2024 at 7:53 pm

        Brilhou velho? Aos 30 anos já não contava para a seleção inglesa e era uma figura secundária no United. Dizer que brilhou velho é puxado.

      • AndreChaves9
        Posted Julho 10, 2024 at 8:09 pm

        Onde é que brilhou velho? Aos 25 já não brilhava quanto mais velho

  • 2DedosDeTesta_
    Posted Julho 10, 2024 at 2:04 pm

    Concordo com a maior parte do artigo.

    ” Para que não desapareça num mapa de calor qualquer ” foi absolutamente delicioso.

  • CABONG
    Posted Julho 10, 2024 at 2:24 pm

    E que tal ” fabrica los”?
    O futebol continua a fabricar ótimos talentos o problema é mesmo o enquadramento tático.
    É só ver o Brasil.
    Vini Jr e Rodrygo são excelentes mas parecem amarrados a condicionantes táticas absurdas.
    A Espanha por seu lado coloca a tática ao serviço dos jogadores e não o inverso.
    Cada vez mais os treinadores são mais impactantes na qualidade apresentada

  • Paulo Roberto Falcao
    Posted Julho 10, 2024 at 2:48 pm

    Sei que por estes dias é uma comparação comum, mas como Lamine Yamal só vi o Messi. O mesmo descaramento de ir para cima, aquela genialidade dos putos travessos, a mesma inconsciência e irresponsabilidade. Jogam como se estivessem na rua ou no pátio da escola. Acho que estamos a assistir desde o início da temporada ao despontar da carreira de um jogador que vai ser gigantesco, já o é.

    • Jasomp
      Posted Julho 10, 2024 at 4:15 pm

      Os habituais exageros.

      • Paulo Roberto Falcao
        Posted Julho 10, 2024 at 6:05 pm

        Juro que não é exagero, a prova disso é que o puto chegou ao seu primeiro Euro e está tranquilamente a partir aquilo tudo. Há jogadores que já nascem preparados.

        • Heathcliff
          Posted Julho 10, 2024 at 10:53 pm

          Tanto jogador jovem que depois se perde por estes anos fora.. Um jogador para chegar ao nível de um Messi é uma vez em 100 anos. Sempre que surge um jogador com habilidade estonteante comparam-no logo aos melhores dos melhores quando para o ser tem de mostrar isto e muito mais ao longe de muitos anos, não é só causar impacto. Se tiver cabeça acredito que vai ser um belo jogador, agora não o comparo aos maiores de sempre.

          • Paulo Roberto Falcao
            Posted Julho 11, 2024 at 7:11 am

            Lamine Yamal é um fenómeno incomum. Quem viu esta edição de La Liga percebeu que ele, nuns meses e aos 16, tomou conta do Barcelona, e sentou de vez o Félix no banco. Isto só vi o Messi fazer, apareceu e tomou conta da equipa. Não comparo qualidades, comparo a personalidade e o descaramento

  • AJ
    Posted Julho 10, 2024 at 3:19 pm

    Texto MUITO bom… parabéns ao Joaquim Alberto!

    Ainda ontem falava disto com uns amigos e concordo basicamente com tudo o que foi escrito… Falta fantasia ao futebol, jogadores que por si só nos façam sair de casa num dia de inverno para ir vê-los ao estádio… Cresci a ver Maradona, Futre, Romário, Baggio, Cantona, Ronaldo, Figo, Zidane, Bergkamp, Rivaldo, Ronaldinho, Iniesta, Cristiano, Messi, Ibrahimović… entre tantos outros… e neste momento não vejo quase ninguém com este “perfume”… o futebol precisa de “gajos” destes, deem-lhes espaço…

  • Mantorras
    Posted Julho 11, 2024 at 8:05 am

    O futebol e um jogo de skill, essencialmente, onde a inteligencia e tecnica irao sempre ser mais importantes que o fisico, IMO. Os “minimos” fisicos vao subindo ano apos ano, com a evolucao do treino/preparacao, e tambem ha “novos minimos” em organizacao colectiva, muito mais estudo e melhor preparacao dos varios momentos, e o que sera que ira desmontar isso? A mais valia individual. Quando se consegue ter uma equipa quase 100% fiel a isto, com quase todos os atletas super inteligentes na leitura do jogo e na tomada de decisao, e com qualidade tecnica para executar o que pensam… acaba-se com o Barcelona de Guardiola, capaz de banalizar qualquer equipa, porque a maior mais valia prevalece, se bem enquadrada na ideia colectiva, com jogadores capazes.

    • Joaquim Alberto
      Posted Julho 12, 2024 at 5:47 pm

      Eu não tenho nada contra as métricas, o GPS e quejandos, desde que sejam postos ao serviço de uma ideia e de uma filosofia e não determinantes (ou determinadores) da forma de jogar.

      A equipa corre pouco? Sim. Porquê? Falta mobilidade, os jogadores não sabem que espaços ocupar? O jogador x recuperou muitas bolas? Sim. Onde? Junto à sua área, porque a equipa não está a conseguir construir de trás? Porquê? Porque o próprio as perdeu, porque não sabe o que lhe fazer e é abafado pela pressão adversária?

      É isto que defendo.

    • Joaquim Alberto
      Posted Julho 12, 2024 at 5:51 pm

      E o que acho que acontece é que se olha para os números como um fim em si mesmo. Idolatra-se uns e odeia-se outros, porque têm bons ou mais números, ignorando o resto.

  • M4R7UCH0
    Posted Julho 11, 2024 at 8:56 pm

    Nem se nota nem um pouco que es adepto do barcelona

    • Joaquim Alberto
      Posted Julho 12, 2024 at 5:42 pm

      Em resposta a um texto a falar de futebol e de uma ideia de futebol – concorde-se ou não, falei do jogo jogado -, um comentário que reduz o dito desporto a clubismos. É a típica visão tuga, infelizmente tão comum, que acha que é impossível gostar de futebol, só do clube A ou B.

      Já agora, não sou adepto do Barcelona, nem deixo de ser. Para além do Porto – que também critico e criticarei quando me apetecer – só sou adepto de bom futebol. Ou seja, vendo as coisas como tu, este ano fui mais adepto do City, do Bolonha e do Leverkusen, por exemplo. Mais: se quiseres faço um texto a elogiar o futebol do Sporting de 23/24.

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