Desde que a Ucrânia se tornou num país independente, que a luta pelo campeonato nacional se tem resumido a dois clubes: o Dínamo Kiev, que já arrecadou 15 títulos – 9 deles de forma consecutiva, entre 1993 e 2001 –, e o Shakhtar Donetsk, que contrariou esta supremacia nos últimos 15 anos com a conquista de nove troféus. Até hoje, o único clube que se conseguiu intrometer neste ombro-a-ombro foi o Tavriya Simferopol, que se sagrou campeão na 1ª edição da recém-criada Vyshcha Liha, em 1992.
Num passado recente, Metalist Kharkiv e Dnipro Dnipropetrovsk funcionaram como as principais alternativas aos dois gigantes ucranianos. O primeiro, liderado por Myron Markevych – recordista de jogos na I divisão –, terminou o campeonato no pódio em 8 ocasiões consecutivas. O melhor desempenho: um 2º lugar em 2012/13. Nas provas europeias, o clube que equipa de azul e amarelo nunca foi além dos quartos-de-final da Liga Europa, nos quais acabaria eliminado pelo Sporting, em 2011/12.
Em 2013/14, o Dnipro repetiu a proeza do Metalist, ao terminar o campeonato na 2ª posição, com o espanhol Juande Ramos a assumir os destinos da equipa. Contudo, seria com Markevych, que chegou ao clube depois de a sua ligação com mais de oito anos ao Metalist ter terminado, que o Dnipro conseguiria atingir a final da Liga Europa. Desde então, muita coisa mudou na vida destes dois emblemas.
O Metalist não reagiu bem à saída de Markevych em 2014, terminando a temporada seguinte no 6º lugar, o que resultou na ausência do clube das competições europeias na temporada transacta. O seu líder, Serhiy Kurchenko, fugiu do país após a revolução de 2014. Com muitas dívidas acumuladas e suspeitas de resultados combinados, o clube acabou por declarar insolvência. Na sequência deste processo, dois novos clubes foram criados: o SK Metalist Kharkiv e o FC Metalist 1925 Kharkiv.
A situação do Dnipro não é tão grave, mas tudo começou com uma abordagem muito deficiente ao mercado, após a final da Liga Europa perdida para o Sevilha. As saídas de Yevhen Konoplyanka, Jaba Kankava e Nikola Kalinic nunca foram devidamente colmatadas, e como se isso não bastasse, na reabertura da janela de transferências, Yevhen Seleznyov, Valeriy Fedorchuk e Denys Boyko também abandonaram o clube. A equipa ressentiu-se e o Dnipro acabou eliminado da Liga Europa de forma precoce. A situação agravou-se com alegadas dívidas para com a anterior equipa técnica de Juande Ramos e vários meses de salários em atraso. A UEFA não demorou a intervir e excluiu o clube das competições europeias em 2016/17, o que precipitou a saída de Markevych no passado mês de Junho.
No meio de toda esta crise, envolvendo alguns dos principais clubes ucranianos, um outro emergiu para constituir actualmente a principal alternativa ao bicampeão em título Dínamo Kiev e ao Shakhtar Donetsk, de Paulo Fonseca. Fundado originalmente em 1923, por um grupo de trabalhadores de uma fábrica de comboios a vapor, o FC Zorya Luhansk – adversário do Manchester United na última quinta-feira – resultou da fusão do SC Zorya com o Trudovi Rezervy, em 1964.
Em 1972, o clube causou uma das maiores surpresas na história do futebol soviético, após conquistar o título da I divisão, apenas na sua 2ª temporada no primeiro escalão. Dínamo Kiev com 13 – recorde –, e o Dnipro com 2, são juntamente com o Zorya, os únicos clubes ucranianos com pelo menos um título da URSS nas suas vitrinas. Em 1979, o clube foi despromovido e apenas regressaria à I divisão em 1992, isto é, após a independência da Ucrânia. Actualmente, o clube vive um dos melhores períodos da sua história.
Nas duas últimas temporadas, o Zorya terminou o campeonato na 4ª posição, e em 2015/16, foi o finalista vencido da Taça da Ucrânia. Curiosamente, este sucesso surge numa fase em que o Zorya se viu obrigado a abandonar o se estádio, à semelhança do que aconteceu com o Shakhtar, em virtude dos conflitos que decorrem desde 2014 no Leste da Ucrânia. O último jogo em Luhansk realizou-se a 27 de Abril de 2014 e terminou com uma vitória do Zorya sobre o Hoverla Uzhhorod.
Um dos segredos para este crescimento reside no treinador Yuri Vernydub (50 anos), que chegou ao Zorya em 2009, como adjunto de Anatoly Chantsev. Em Novembro de 2011, depois de o clube cair na zona de despromoção, Vernydub assumiu o comando da equipa de forma interina e salvou-a da descida. No ano seguinte, o clube terminou na 10ª posição e a sua ascensão prosseguiu com um 7º lugar em 2013/14 – a melhor classificação do Zorya desde a independência da Ucrânia.
A exclusão do Metalurh Donetsk das competições europeias permitiu que o Zorya se qualificasse para as mesmas pela 2ª vez na sua história, e mais de 40 anos após a sua estreia. Em 1973, após a conquista de um inédito título soviético, o clube disputou a Taça dos Clubes Campeões Europeus, sendo eliminado pelos checos do Spartak Trnava na 2ª ronda, o equivalente aos oitavos-de-final.
Contudo, o acesso à fase de grupos da Liga Europa não ficaria confirmado, após o afastamento no playoff pelo Feyenoord, equipa que agora completa na companhia do Manchester United, do Fenerbahçe e do próprio Zorya, o grupo A da segunda prova da UEFA. Há um ano, o carrasco no playoff foi o Légia de Varsóvia. Esta temporada, no entanto, o Zorya garantiu entrada directa na fase de grupos, em virtude do castigo aplicado ao Dnipro.
Com duas jornadas já disputadas, o Zorya soma apenas um ponto, um desempenho muito meritório face à imensa bagagem internacional dos seus adversários. No 1º jogo, o conjunto ucraniano arrancou um empate ao Fenerbahçe e ainda ontem foi derrotado pela margem mínima pelo Manchester United, em pleno Old Trafford. Segue-se um duplo duelo com o Feyenoord e o Zorya estará desejoso de vingar a eliminação dramática de há dois anos, quando a equipa caiu no tempo de descontos, depois de anular uma desvantagem de três golos, que a colocava pela 1ª vez na fase de grupos.
O clube é chefiado por Yevhen Heller, político e antigo presidente da equipa de futsal do Shakhtar. Heller, de 42 anos, mantém uma relação muito próxima com o líder do Shakhtar e o homem mais rico da Ucrânia, Rinat Akhmetov, e isso reflecte-se na relação que existe entre os dois clubes. Todos os anos, o Zorya recebe vários jogadores provenientes do Shakhtar, que se encarrega de todos os seus salários. No entanto, esta situação não está livre de controvérsias.
Em 2014/15, o Zorya derrotou o Shakhtar na sua própria casa, atrapalhando a corrida dos mineiros ao título. Na segunda volta, Mircea Lucescu proibiu todos os jogadores com ligação contratual ao Shakhtar de defrontarem a equipa-mãe. O resultado foi um triunfo expressivo dos mineiros por 4-1. Daí que a mais valia que estes jogadores representam não possa ser questionada. Só em 2016/17, são 6 e é neles que residem grande parte das esperanças desta equipa.
O Zorya apresenta-se habitualmente num 4-2-3-1 e é a partir dos corredores que cria maior perigo para os seus adversários. Os alas Oleksandr Karavaev e Ivan Petryak – um dos principais novos talentos do futebol ucraniano – são as figuras da equipa, e formam com o veterano Zeljko Ljubenovic, o tridente que serve de apoio ao brasileiro Paulinho. É aqui, no eixo do ataque, que subsiste o maior problema da equipa. Pylyp Budkivsky, um gigante de 1,96m, abandonou o Zorya no verão, depois de apontar 13 golos no campeonato. A baliza também registou uma baixa com o regresso de Mykyta Shevchenko ao Shakhtar. De notar que à excepção de Ljubenovic, médio ofensivo de 35 anos, todos os restantes jogadores aqui referidos pertencem ao Shakhtar e são internacionais ucranianos.
Desde que o Zorya abandonou o seu estádio, que a Slavutych Arena, em Zaporizhia, a 400km de distância da cidade de Luhansk, tem servido de palco para os seus jogos no campeonato. A equipa segue actualmente na 2ª posição, a 5 pontos de distância do Shakhtar, mas com mais um que o Dínamo Kiev, que foi surpreendido no passado dia 18 na sua própria casa, justamente pelo Zorya (0-1). No último fim-de-semana, o clube também levou a melhor sobre o Vorska Poltava, uma das boas equipas deste campeonato, e agora prepara-se para visitar a Arena de Lviv, onde medirá forças com o Shakhtar, que permanece invicto ao fim de 9 jornadas. Em caso de vitória, o Zorya reduz para 2 os pontos de desvantagem para a liderança. Para seguir de perto.
João Lains


10 Comentários
Morgan
Lains,
Sabes porquê que o Dynamo Kiev e o Shakhtar não compraram jogadores esta época?
NazaUkra
Uma pergunta que responde a tua pergunta…
Estavas disposto a ir para um país em guerra com uma das super potenciais mundiais?
Logen
Penso que tenha a ver com a situação política do país.
Os jogadores têm algum receio em jogar la e os próprios donos dos clubes não estão tão mãos largas.
O presidente do Shaktar veio dizer que quer ter uma equipa baseada em talentos nacionais.
Logen
Penso que tenha a ver com a situação política do país.
Os jogadores têm algum receio em jogar la e os próprios donos dos clubes não estão tão mãos largas.
O presidente do Shaktar veio dizer que quer ter uma equipa baseada em talentos nacionais.
Lemos
Mais um excelente post,
Vi o jogo de ontem e não sei se é por o Manchester jogar muito pouco mas o Zorya foi das equipas mais agradáveis que vi este ano. Futebol apoiado, boa exploração do espaço interior, faltou-lhes foi qualidade na frente
Luis la liga
Post maravilhoso. Parabéns joao
NazaUkra
Uma pergunta que é a resposta a tua pergunta.
Estavas disposto a ir para um país em guerra contra uma das super potenciais mundiais?
Kafka
Grande post Lains, obrigado
LMMarado
Obrigado por este post, que elucida e entretém o leitor. Traz um colorido diferente às competições Europeias, porque faz com que cada equipa vá sendo um personagem no nosso imaginário! Parabéns!
Pedro o Polvo
Como sempre, de parabéns!