Todos os adeptos de futebol reconhecem a posição de Guarda-Redes como a mais ingrata do desporto. Encontram-se familiarizados com a lenga-lenga do costume: se um avançado falhar vários golos cantados, mas marcar um, mesmo que não seja o golo da vitória, a bola no fundo das redes é rapidamente elogiada ao passo que os falhanços caem no esquecimento; se um guardião passar os noventa minutos da partida a defender “tudo e mais alguma coisa”, mas sofrer um único golo onde falha de alguma maneira, mesmo que com culpas partilhadas, leva com críticas avassaladoras em cima e o resto da equipa é ignorado.
Quantas intervenções positivas compensam uma negativa?
Esta jornada servirá de exemplo futuro para comprovar a ideia do parágrafo inicial desta rubrica, principalmente a parte que toca aos guarda-redes sobre como várias defesas parecem ser menosprezadas ou completamente ignoradas se, no mesmo encontro, o guardião cometer algum erro que leve a golo adversário. Jhonathan (Rio Ave), Buntic (Vizela) e Hugo Souza (Chaves) tiveram prestações repletas de defesas, mas uma breve análise a comentários online pelas redes sociais leva a conclusões totalmente enganadoras, quase como se tivessem sido os culpados-mor, quando até foram os elementos que mais lutaram por um resultado positivo.
No Farense 1-1 Rio Ave, Jhonathan voltou a comprovar que é uma das razões pelas quais a equipa vilacondense poderá vir a permanecer na liga principal portuguesa. Aliás, é importante constatar que as equipas abaixo do Rio Ave na classificação encontram-se todas na casa dos 50+ golos sofridos, enquanto que Jhonathan lidera a 8° (!) melhor defesa do campeonato com 35. Não há dúvidas que podia fazer melhor aos 30’ numa defesa incompleta que origina o golo adversário, mas fartou-se de impedir mais bolas no fundo das redes – destaque para as defesas aos 15’, 23’, 65’ – sendo que, lá na frente, o seu colega conseguiu falhar o potencial golo da vitória de maneira escandalosa aos 72’. Questão para a comunidade: do que acham que se falou mais no fim do jogo? Se fosse a vossa equipa, comentariam o erro do guardião ou o falhanço do avançado? Pergunta retórica, todos sabemos a resposta.
Situação semelhante aconteceu no FC Porto 4-1 Vizela. Buntic tinha tarefa quase impossível pela frente, mas apesar de ficar a sensação que tem qualidade para impedir os golos aos 67’ e 76’, está longe de receber o termo ‘culpas’ por um resultado inevitável que tanto tentou adiar com intervenções fantásticas aos 16’, 55’, 56’ e mesmo aos 88’ consegue uma boa mancha que os colegas não conseguiram completar. Não me parece ser pelo guardião que Vizela está em risco de descida…
Finalmente, temos o Chaves 1-2 Vitória SC. Hugo Souza foi dos guardiões com pior performance na I volta, mas apareceu motivado para mudar esse rumo negativo no virar do campeonato. No entanto, a sorte nem sempre nos segue, mesmo quando fazemos de tudo para a merecer. Num encontro com múltiplas defesas importantes aos 10’, 34’, 44’, 68’ e 69’, o guarda-redes vai ficar marcado pelo penalty cometido aos 60’, apesar de nem ser um lance propriamente incomum no futebol – foi mais infelicidade de timing do que qualquer problema técnico individual. Não posso afirmar que o Chaves não se encontra na última posição da classificação por causa de outros jogadores, mas se há encontro que Hugo Souza não merecia sair com críticas, era este.
Conclusão: é a sina dos guarda-redes a trabalhar como de costume. Por mais que se esforcem, por muitas defesas que façam, o que fica para a história são os golos que se sofrem e, se existe uma sensação mínima de que o guardião pudesse fazer melhor em algum remate, na vasta maioria das vezes não conseguirá fazer esquecer esse ‘erro’, mesmo que se tenham cometido bem maiores na área contrária.
Defesas Neuer da Jornada:
– Buntic (Vizela): parada à Schmeichel aos 55’, sempre bonita de se ver e tecnicamente complicada de executar.
– Jhonatan (Rio Ave): a defesa mais complicada que um guardião pode fazer é a que envolve movimento para trás devido à dificuldade em manter a leitura da trajetória da bola com o ajuste constante de posicionamento. Por isso, merece menção a defesa aos 15’.
– Andrew (Gil Vicente): acredito que até possa ter passada despercebida a muitos, mas toca com a ponta dos dedos o remate potente aos 34’.
Falhas Kralj da Jornada:
– Jhonatan (Rio Ave): podia ter feito muito melhor para evitar a recarga de golo fácil aos 30’.
– Buntic (Vizela): nem o remate que entra pelo seu poste aos 67’ é culpa do próprio, nem a sua defesa aos 76’ era propriamente fácil, mas não deixa de ficar um sabor amargo nesses lances.
– Franco Israel (Sporting): um misto de má abordagem – tinha tempo de sair e agarrar a bola – e falta de comunicação aos 2’ no cruzamento que origina o golo solitário do adversário.
Visão do Leitor: AdeptoImparcial

