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O “avô” do ano do Futebol Internacional

Um jovem vive tudo a mil à hora. Sente tal vontade de viver que essa vertigem fá-lo querer sentir tudo o mais depressa possível e da forma mais intensa que exista. À medida que os anos vão passando, essa turbulência vai acalmando, ganha-se serenidade e uma maior capacidade de respeitar os tempos que a vida dita. Daí que se diga que tudo é melhor depois dos 40. No campo é igual. Quanto mais velho, mais sábio, mais preparado, mais conhecedor, menos facilmente surpreendido porque cada vez menos situações se apresentam como novas. Ora, há uma zona do campo onde ocorrem poucas acções durante uma partida, mas onde as mesmas são absolutamente decisivas: a grande área. Dentro desta, heróis foram forjados e vilões passaram a ser odiados. Cada toque exige uma precisão e velocidade de execução praticamente perfeitas, pois não há espaço nem tempo de correcção.
Devida a esta necessidade de acerto semelhante à de um relógio suíço, desaconselha-se ao habitante da área que deixe a adrenalina do momento subir-lhe à cabeça; pede-se frieza, calma e controlo emocional. Todos estes requisitos são, muitas vezes, inimigos do sangue jovem, quente e e nervoso. Daí que muitos goleadores vão refinando com a idade, porque, por força do hábito de pisar as zonas próximas do golo, estas deixam de lhe causar desequilíbrio mental. Já dizia o mestre César Luis Menotti que o melhor caminho para o golo raramente é uma linha recta. E com a idade ganha-se a serenidade para escapar à tentação de seguir o caminho aparentemente mais fácil. É o caso de um dos protagonistas do ano do futebol Europeu: Luca Toni.
O possante “Bomber”, de 38 anos, só se estabilizou na Série A aos 27, idade com que somou a sua primeira internacionalização. Depois de ser melhor marcador da Série A, campeão do mundo e de brilhar em Florença ou Munique, os últimos anos da sua carreira pareciam anunciar um fim sem grande glória, com fracos registos goleadores e uma passagem pelo Médio Oriente. Mas Luca Toni queria provar que quanto mais velho, mais conhecedor dos caminhos que vão dar ao golo, e na época passada somou 21 golos ao serviço do Hellas Verona. Esta temporada, melhor ainda: 23 golos  ao serviço do mesmo Hellas Verona, 14º classificado da Série A e que, no total, somou 49 golos, e o título de Capocanonieri (melhor marcador do campeonato) dividido com Mauro Icardi, ficando à frente de craques como Tevez ou Higuain.

Luca Toni é uma das melhores histórias do ano no futebol Europeu. Um exemplo de inconformismo, luta e de melhoria constante. Uma mensagem para avaliar os jogadores (e as pessoas em geral) pelo que são, pelo que fazem, e não por um número escrito no Bilhete de Identidade.

Pedro Barata

0 Comentários

  • Anónimo
    Posted Junho 8, 2015 at 1:59 pm

    A fonte da juventude encontra-se algures em Itália!
    É incrível a durabilidade dos seus jogadores (italianos ou estrangeiros que lá façam boa parte da carreira) em alta competição!
    Ainda no sábado vimos dois senhiores a confirma-lo numa final europeia.

    Del Piero

  • Marinho
    Posted Junho 8, 2015 at 2:07 pm

    Grande post, como o Pedro Barata já nos habituou. E uma referência ao Menotti é sempre um acrescento de qualidade.

    Já agora, alguém sabe o quê que o Palermo tem de especial? Sem ser um presidente que troca de treinador como quem manda uma sms? É que há uma quantidade incrível de jogadores que nos últimos anos afirmaram-se no Palermo. O Luca Toni antes de passar por lá não era nada no futebol e agora é o que está no post.

  • João Magalhães
    Posted Junho 8, 2015 at 2:11 pm

    Isto vem corroborar a mais valia do cérebro sobre o físico. Não que eu seja um defensor acérrimo do futebol romântico, mas, e em igualdade ou pelo menos numa condição física mínima, a qualidade das decisões é que distingue os jogadores. A velocidade mais importante não é a de pernas, mas antes a de pensamento. A qualidade dum médio não está no número de carrinhos que faz ou nas correrias desenfreadas. Está sim na tomada de inúmeras pequenas decisões durante um jogo, a maior parte delas passando despercebidas ao adepto. A mais valia de um defesa não está nos saltos para cima do avançado nem no número de cortes em cima da linha. Um grande defesa é o discreto. É o que está bem posicionado, lúcido e inteligente em todos os momentos do jogo.

    A diferença entre um bom e um grande jogador está nas decisões. E é natural que os jogadores com mais QI futebolístico rendam mais com a idade.

    • PATRÃO
      Posted Junho 8, 2015 at 2:38 pm

      Perfeito. É exactamente aquilo que eu penso exteriorizado.

    • K.Dot
      Posted Junho 8, 2015 at 3:17 pm

      Subscrevo por completo

    • Anónimo
      Posted Junho 8, 2015 at 3:25 pm

      Ao ler isso, rio-me daqueles que diziam que o Rinaudo ou o Castro eram grandes médios, porque tinham "intensidade". Depois olhamos para o William e percebemos porquê é que o rinaudo era rídiculo. Andava tipo barata de um lado para o outro no meio campo a fazer carrinhos, a desposicionar se e a colocar a equipa em risco.

      Fernando

    • Kafka I
      Posted Junho 8, 2015 at 3:27 pm

      Isso é tudo muito bonito, agora um Ser Humano de 36 anos vai de forma lógica cansar-se mais rapidamente que um Ser Humano de 23 anos, e quando o cansaço começa a sentir-se o discernimento (para a tal tomada de decisão) começa a perder-se, e isso é visivel não só no futebol como em qualquer modalidade

      O Federer não é pior jogador hoje do que era com 26 anos, no entanto hoje perde mais vezes do que com 26 anos e porquê? precisamente porque a dado momento fisicamente começa a baquear e como tal o discernimento para tomar as decisões (que tomava com 26 anos) começa a desvanecer-se e a perderem qualidade

      A questão fisica esta directamente relacionada com a questão mental, e uma mais cansada vai pela lógica definir mais vezes pior, e a prova disso é que a percentagem de grandes jogadores de classe Mundial com mais de 33/34 anos é muito inferior à percentagem de jogadores de classe Mundial com 25/26/27 anos

      Portanto exemplos contrários de alto rendimento com 34/35/36 anos há-de sempre existir como é evidente, agora um jogador de 28/29 anos estará sempre mais perto de desempenhar todas as situações que um jogo de futebol exige de forma mais capaz do que um jogador de 36 anos…é a lei da vida

    • João Magalhães
      Posted Junho 8, 2015 at 4:14 pm

      Concordo contigo Kafka. Sem frescura física não há predisposição para a tomada de boas decisões, daí que eu tenha dito que é exigível um mínimo aceitável de condição física. É óbvio que um um jogador precisa sempre dela para impor o seu futebol, isto quando falamos de um nível top de competitividade. E sinceramente não sei se muitos dos jogadores perdem a fome do jogo a partir de uma certa idade, o que os leva a não se dedicarem da mesma forma a partir de uma certa idade. Contudo, há exemplos de jogadores que por mais anos que passem continuam a ser melhores que os seus homónimos mais novos. Há coisas que, para mim, são independentes da idade do jogador.

      Porque é que o Moutinho e o Tiago continuam a ser melhores que o William ou o André Gomes? Porque´é que o Ricardo Carvalho continua a ser superior a qualquer outro central Português(talvez o Pepe)?

      A minha ideia não era dizer que os melhores são os mais velhos ou mais novos. Era, antes, forçar que os melhores jogadores são os que tomam melhores decisões, os que interpretam melhor o jogo e fazem aquilo que ele pede. Não adianta nada ter 1×1 ou 1×2 se não o uso no momento correcto. Não adianta ser rápido se não a coloco em campo no momento indicado. E não estou a desvalorizar estes jogadores, porque sou defensor da qualidade individual, do repentismo e da espontaneidade de movimentos. E basta olhar para as equipas de top e quase todos os jogadores são fortíssimos neste aspecto,isto é, conseguem ir embora com facilidade do adversário. No teu Barcelona isso é paradigmático. Eu não duvido que o Iniesta consiga arrancar e limpar 1,2 adversários em progressão, a questão é que ele fá-lo quando essa é a melhor situação.

      A ideia geral é, em igualdade física – que é a situação mais comum no futebol profissional, já que as diferenças são pequenas -, o melhor jogador é aquele que toma melhores decisões.

    • Kafka I
      Posted Junho 8, 2015 at 4:19 pm

      João Magalhães

      Subscrevo inteiramente… em condições físicas iguais, o melhor vai ser sempre o que for mais inteligente a jogar a decidir..por muito que o outro corra desalmadamente, correr muito nem sempre significa correr bem…

  • Rui Amaral
    Posted Junho 8, 2015 at 2:31 pm

    É pena teres escrito uma vez que estive mesmo a pensar elaborar um "visão de Leitor" (seria o meu primeiro) sobre o assunto e assim ja nao o vou fazer

    de qualquer das formas concordo com tudo que dizes !

    alias quando vejo no blog sugestão de jovens pontas de lança para o meu Sporting sou contra uma vez que sei que esses mesmo jovens nao são o que o meu clube precisa para ter muitos golos!

    um avançado quer-se velho !

    ideal: 28-32 anos

    mas como estamos num pais vendedor conformo-me com: 25-28 anos

    se fizermos um exercicio mental de quantos jogadores a nivel mundial PONTAS DE LANÇA que são fora de seria titulares dos seus clubes e com muitos golos … com menos de 23 anos … arrisco-me a dizer que nao me arranjam cinco a nivel global

    esta mesma teoria aplica-se a centrais e guarda redes claro

    • Ricardo
      Posted Junho 8, 2015 at 3:14 pm

      O Sporting já tentou o Cassano, é porque quer um veterano para o ataque. Não sei é se há mais Jonas este ano. Alguém sabe de algum veterano que esteja livre?

    • Tiago Santos
      Posted Junho 8, 2015 at 4:38 pm

      Na verdade, essa idade ideal de que falas não se aplica só aos avançados, mas a qualquer posição do terreno. Nessa idade, normalmente, os jogadores estão no topo da sua forma não só física, mas também mental e técnica. Mas, claro que varia de jogador para jogador

    • Kafka I
      Posted Junho 8, 2015 at 5:21 pm

      Isso aplica-se no futebol, e em qualquer modalidade desportiva, e até na vida, entre os 27 e os 30 anos é quando o Ser Humano atingiu o seu auge a todos os niveis, como tal é normal que seja esse a faixa etária que englobe a maioria dos grandes atletas de que modalidade for no momento presente

  • Kacal I
    Posted Junho 8, 2015 at 2:47 pm

    Excelente post Pedro Barata, o costume.

    O Luca Toni é um caso impressionante e de aplaudir, a idade não é o mais importante mas sim a qualidade, a força mental e psicológica e a juventude da mente, é um dos melhores PL do Mundo a finalizar e no jogo aéreo, não tenho duvidas, um matador dentro de área e enquanto estiver focado e com vontade de jogar, vai continuar a marcar muitos golos e com 38 anos ficar à frente de Tevez e Higuaín é sensacional, merece o meu respeito e admiração, sem duvida.

  • João S
    Posted Junho 8, 2015 at 3:52 pm

    Cada vez que me lembro que o Acosta nos deu um título com 33-34 anos… :)
    Eu gostava era de saber o que fazem em Itália para conservar os jogadores tanto tempo…

  • Anónimo
    Posted Junho 8, 2015 at 6:13 pm

    Ainda me lembro de jogar CM 01-02 e o Luca Toni no Brescia ja era uma maquina junto do grande Roberto Baggio… Que saudades desses tempos…

    Toupas

  • Rodrigo
    Posted Junho 9, 2015 at 5:21 pm

    Mais um belo texto, parabéns Pedro.

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