Foi no passado dia 10, com a revelação dos detalhes da investigação do organismo anti doping dos Estados Unidos (USADA) a um sofisticado esquema de dopagem liderado por Lance Armstrong e Johan Bruyneel, que o mundo do ciclismo viu-se uma vez mais abalado nas suas fundações, e caiu ainda a que era, provavelmente, a mais fantástica estória de superação e glória no desporto contemporâneo: as sete vitórias consecutivas de Lance Armstrong na Volta a França na ressaca da sua vitória sobre um cancro testicular metastático muito agressivo e em estado avançado de desenvolvimento.
No seguimento da investigação, a USADA decidiu retirar, entre outras vitórias e resultados relevantes, estas sete vitórias no Tour do palmarés do ciclista texano, quando a maior parte destas infracções já estariam prescritas, sob o argumento que Armstrong estava envolvido num anel de corrupção e conspiração em conluio com a mais alta instância do desporto, a União Ciclista Internacional (UCI) de Hein Verbruggen e Pat McQuaid (o ainda presidente), o que permitiu a Armstrong não sofrer as consequências de pelo menos dois controlos positivos a substâncias dopantes, e sistematicamente ter informação privilegiada sobre quando os controlos se realizariam.
Ainda assim, muitos se perguntarão se esta decisão será justa dada a sistematicidade da presença de substâncias dopantes no pelotão internacional durante, pelo menos, o período 1995-2007, em que a quantidade de escândalos de dopagem e a falta de métodos válidos de controlo indicam a presença de uma verdadeira cultura de dopagem no mundo velocipédico. Este terá sido mesmo, segundo os testemunhos, o argumento usual de Armstrong durante todos estes anos para justificar este comportamento: “toda a gente o faz”. Por outro lado, muitos não aceitarão o argumento. Por exemplo, Jonathan Vaughters, actual diretor da Garmin-Sharp, ex-companheiro de Armstrong e testemunha no processo refere a surpresa com que percebeu que a equipa Crédit Agricole, pela qual deixou a US Postal em 2000, não aceitava práticas de dopagem e o perfil sanguíneo da grande parte dos seus corredores indicaria que correriam limpos. Ainda, estórias como a de Christophe Bassons (o único corredor na equipa da Festina que teria recusado dopar-se e que sempre assumiu uma postura diferente dentro do pelotão) ou Filippo Simeoni (um dos primeiros a denunciar o infame Dr. Ferrari, o mais sofisticado dos peritos de dopagem no desporto internacional e concelheiro pessoal de Armstrong), ambos vítimas do lado bully do texano, tendem a diminuir a simpatia pelo heptacampeão do Tour.
Para além da questão sobre a justiça, muitos mais se perguntarão se a decisão é útil para o ciclismo em particular. Ainda hoje, e na sequência deste processo, o patrocinador mais estável no ciclismo, o banco holandês Rabobank, anunciou a retirada da ligação publicitária (continua a cumprir o pagamento contratualizado de 15M € anuais à equipa mas recusa ver mais o seu nome envolvido com este desporto!) que o ligava há 17 anos à equipa a que dava o nome, equipa esta que no processo foi envolvida em práticas de dopagem por Levi Leipheimer, mas que desde o escândalo que levou ao afastamento de Michael Rasmussen, enquanto líder, do Tour de 2007, levava a cabo um trabalho de grande mérito e parcas vitórias na potenciação de jovens talentos holandeses como Robert Gesink, Steven Kruijswijk, Bauke Mollema ou Lars Boom, sendo esta, no último par de anos, uma das equipas que despertava menos suspeitas de práticas dopantes entre os seguidores da modalidade. Ainda assim, por outro lado, muitos vêm aqui a possibilidade de um virar de página, acalentando alguma esperança de mudança no seio da UCI para um desporto velocipédico maioritariamente limpo, e que prosperará no seguimento das evidências de uma menor recorrência a tais práticas (resultados muito mais equilibrados, iniciativas como o passaporte biológico, e tempos bastante mais humildes nas subidas de final de etapa nas grandes voltas). Com todos os escândalos passados, o ciclismo continua a ser um dos desportos que oferece uma maior exposição mediática por euro investido em patrocínio. Que o diga a Sky do gigante grupo de media de Rupert Murdoch. É justa a acusação a Lance Armstrong? É útil este processo para o desporto em geral e para o ciclismo em particular quando envolve a sua maior figura? Até que ponto seria normal que alguma instância superior de qualquer desporto, como a UCI, protegesse a sua maior figura? Poderá este processo ter alguma consequência para José Azevedo, o português ex-colega de Armstrong? Até que ponto a prática de doping estará, hoje, generalizada no ciclismo e no desporto em geral? Na Operación Puerto, dos cerca de 200 atletas envolvidos, 50 eram ciclistas, e o que começou como um grande escândalo levou a que quase nenhuma acusação (o processo foi prontamente e misteriosamente arquivado e toda a prova destruída pelas autoridades espanholas. Muitas bolsas de sangue teriam a marca “campeonato da europa” quando não o há no ciclismo.) Será esta a última grande desilusão para muitos fãs de ciclismo? Como pode o ciclismo voltar a merecer a confiança do público?
Visão do Leitor: Luís Oliveira
PS: Ricardo Mestre – O vencedor da Volta a Portugal 2011, vai em 2013 defender as cores da equipa basca da Euskaltel-Euskadi. No seguimento da mudança de política na equipa basca, que até aqui só contratava corredores bascos ou com ligação desde os escalões jovens à fundação que gere a equipa (caso de Samuel Sanchez, grande figura da equipa e asturiano), o corredor português detentor de alguns preciosos pontos UCI, junta-se ao pelotão internacional onde pensamos poderá dar-nos algumas alegrias em provas por etapas de uma semana. Expectativas relativamente a Ricardo Mestre, finalmente no World Tour? Euskaltel foi uma boa opção? Como se explica que a profunda crise em que vive o ciclismo português seja coincidente com este reconhecimento internacional dos nossos corredores? Quem liderá o Tavira em 2013? Mark Cavendish – O divórcio anunciado entre o melhor sprinter do mundo e a equipa britânica da Sky, resultou na transferência do corredor da Ilha de Man para a Omega Pharma – Quickstep, a maior potência no pelotão em provas de um dia, e que vê assim a sua exposição mediática garantida durante a Volta a França, onde Cavendish é sempre uma figura maior e um candidato crónico à camisola verde da classificação por pontos. A incompatibilidade entre as pretensões do corredor (quereria naturalmente alguns corredores dedicados para lutar por vitórias por etapas no Tour), e a total prioridade da equipa para a classificação geral nesta prova, onde conta com Bradley Wiggins e Chris Froome, actuais campeão e vice-campeão, ditaram a saída da equipa britânica de um dos atletas mais mediáticos no seu país. Já a equipa belga só terá a ganhar, juntando o fantástico sprinter, a um conjunto compatível de enorme qualidade onde alinham Tony Martin, Sylvain Chavanel e Tom Boonen. Seria possível a compatibilidade entre Wiggins, Froome e Cavendish na Sky? Numa prova como o Milão – San Remo pode haver problemas entre as pretensões de Cavendish e Bonnen, sempre dois candidatos à vitória? Dr. Ferrari – Ainda um escândalo vai no adro (Lance Armstrong), já outro começa agora a eclodir, agora em Itália. O ponto em comum é essa personagem, o Dr. Ferrari, que é acusado de oferecer a desportistas e equipas envolvidos “pacotes completos” de, por um lado, substâncias e programas para dopagem, e ainda, por outro, soluções de fuga fiscal. É possível combater teias como a montada por Ferrari quando há tanto dinheiro envolvido? O tráfico de substâncias dopantes, segundo um procurador italiano envolvido num processo semelhante, será mais lucrativo que o próprio tráfico de estupefacientes e com muito menor risco!


