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O outro lado do Paraíso

A Segunda Circular é uma das vias de circulação mais importantes da cidade de Lisboa, porém ao longo do percurso podemos analisar duas situações muito distintas, desportivamente falando.

A temporada de 2020/21, representou uma das mais bem-sucedidas na história do Sporting Clube de Portugal. Focando somente no futebol, a época leonina foi a melhor dos últimos 20 anos, com a conquista do Campeonato Nacional, que fugia desde 2002. Foram quase 20 anos de espera, com muitos altos e baixos, com muitos anos do “quase”, porém a conjuntura de vários fatores proporcionou este quase “milagre”, que nenhum comentador esperava. Um treinador competente, uma equipa montada ao detalhe e a quase união de todos os adeptos levaram à glória. Esta conquista faz com que a preparação para a próxima temporada esteja a ser feita com tranquilidade, alegria e sem qualquer tipo de polémicas. Já nas restantes modalidades a conquista da Champions de Futsal e de Hóquei, além de diversos campeonatos, representam a bela epopeia vivida.  Neste momento, não deve existir um tema que prejudique a imagem do Sporting, de modo a lançar alguma polémica para a Comunicação Social, levando a debates entre os adeptos e consequentemente a um efeito bola de neve, levando novamente o Sporting para uma crise, que vivera durante os últimos anos. A paz impera no Reino do Leão, algo que não acontece se nos deslocarmos pouco mais de dois quilómetros.

Aí apresenta-se o imponente Estádio da Luz, o maior estádio em Portugal e casa do clube com mais campeonatos, o Sport Lisboa e Benfica. Voltando à temporada anterior, esta começou com a chegada de Jorge Jesus, um regresso, que aparentemente combinava com o retorno das vitórias e das grandes conquistas. A apresentação do treinador, foi feita com pompa e circunstância, estando presentes os troféus que o regressado salvador tinha conquistado após a sua primeira passagem, incluindo duas representações de taças em papel, referentes às finais perdidas da Liga Europa. 

Não há qualquer tipo de duvida, que o regresso de Jorge Jesus, foi a jogada de Luís Filipe Vieira para tentar fazer esquecer os maus resultados obtidos na temporada antecedente e servir de trunfo eleitoral para as eleições de Outubro de 2020, onde Noronha Lopes, se apresentou como grande oponente. Jorge Jesus, apesar de ter trocado as águias pelo eterno rival da cidade, de maneira direta, ainda tinha um grande fan club dentro dos encarnados, o que racionalmente é compreensível, pois a sua saída teria sido culpa do presidente e não do treinador. 

Assim o inicio de temporada de 2020/21 por parte do Benfica estava recheada de espectativa, fazendo capas de jornais diariamente, havendo uma grande especulação por reforços. A opinião era praticamente unânime: o plantel que Jorge Jesus tinha em suas mãos era o melhor em Portugal, tudo abaixo do título seria uma má época. E a verdade é que um plantel com Julian Weigl, Otamendi, Rafa, Pizzi, Grimaldo, Everton Cebolinha e após um investimento de cem milhões de euros, teria tudo para dar certo, hipoteticamente falando.

A verdade é que passados meses, em Maio de 2021, o sentimento era completamente o adverso ao que se esperava. O Benfica perdeu tudo. No campeonato conseguira um terceiro lugar, distante para os campeões, deixando de contar para a luta do campeonato já alguns meses antes deste findar. Na taça, conseguiu chegar à final, porém acabou derrotado pelo SC Braga, uma das equipas que melhor futebol praticou, apesar de ter sido irregular. Na Liga dos Campeões, que seria a fonte de rendimento do clube, de modo a saldar os gastos realizados para Jorge Jesus ter um plantel competente, caíram aos pés do PAOK, de Abel Ferreira, na Terceira Eliminatória, no dia 15 de Setembro de 2020. Um dos golos foi marcado pelo polémico e dispensado Zivkovic, outrora uma das grandes promessas do futebol. Na Liga Europa, a derrota foi perante um adversário mais honroso, contudo mergulhado numa crise semelhante à que o Sporting sofreu, ainda que esta sem fim à vista, o Arsenal.

A verdade é que Jorge Jesus bem tentou desculpar a má época realizada pelos encarnados pelo surto de Covid-19 que infelizmente atacou o plantel. Essa frase foi dita tantas vezes, que conseguiu convencer alguns comentadores e adeptos, como se uma mentira referida inúmeras vezes passasse a ser verdade. Na minha opinião é uma conclusão óbvia que o surto sofrido afetou certos resultados durante a época, porém a narrativa não serve para justificar o insucesso obtido. Em setembro, o plantel do Benfica não tinha Covid 19, por exemplo. As águias conseguiram contratar e juntar um bom conjunto de jogadores, mas a grande derrota é o facto de não terem formado uma equipa, pelo menos que funcionasse. Tanto em 4x4x2 como 3x4x3, foram oferecidos bons momentos de futebol, porém não se conseguia sentir união entre os encarnados, mesmo durante a época, Jorge Jesus não demonstrou a sua energia no banco, que tanto o caraterizava aqui e no Brasil, parecendo que deixara essa postura (positiva, para mim) do outro lado do Atlântico, voltando somente com a sua postura altruísta e ego monumental. 

Enquanto a má época do Benfica decorria, o seu presidente Luís Filipe Vieira era ouvido no caso Novo Banco, onde proferiu afirmações como “Do que eu vivo? Tenho outros negócios, tenho uma boa reforma. Vivo bem. Por acaso ainda agora veio uma coisa curiosa. Ainda foi reforçada a conta com 2 milhões e tal de euros que eu recebi do fisco” ou “A minha vida não foi criada com o BES ou com a minha vinda para o Sport Lisboa e Benfica, em 2001. Luís Filipe Vieira já era um empresário de renome e de relevância na área do imobiliário e dos pneus em Portugal“. O empresário é possivelmente um dos homens mais odiados do país e não é somente por ser presidente de um dos maiores clubes do futebol português. Não esquecer, o dirigente venceu as eleições para a presidência no dia 29 de Outubro de 2020, com 62,59% dos votos. Meses depois, muitos destes votantes já estão arrependidos da escolha realizada.

O panorama dos adeptos do Benfica à entrada para esta temporada é amplamente adverso ao que acontecia no ano passado. Não existe euforia praticamente nenhuma, algo que é incaracterístico do adepto português, seja de que clube seja, parecendo que já sabem à partida que o Benfica vai perder, sem sequer entrar em campo.

O clube da Luz continua com semelhante plantel ao apresentado no ano anterior, só entraram Rodrigo Pinho e Gil Dias, mas sem Pedrinho, Franco Cervi e Jardel. Apesar de nenhum dos três jogadores ser titular, são saídas que devem ser colmatadas. A saída de Pedrinho é facilmente justificada pelo facto de Jorge Jesus não ser um grande apreciador do brasileiro, referindo em março do ano passado que havia melhores jogadores que ele, referindo na época: Everton, Michael, Dudu e Rony, todos do Brasileirão. Já a saída de Cervi, somente faz sentido pela pouca utilização do jogador, na época transata. Na verdade, o argentino só foi aposta real quando o tal surto de Covid 19 apareceu, fazendo boas exibições, que levaram a que a sua transferência para o Celta fosse cancelada, na altura, porém deixou de servir, a certa altura com o regresso dos habituais titulares, passando mais uma série de semanas sem jogar, tal como no inicio da época. Jardel é um caso distinto, pois apesar de já não ter a qualidade necessária para fazer parte do plantel, trazia liderança ao balneário. Esta ausência de um líder inquestionável nos encarnados é algo notória, pelo menos em comparação com os tempos de Luisão, cuja voz reinava e guiava os jogadores atrás de si. Neste momento não existe nenhum jogador com estas caraterísticas, ainda que André Almeida ou Pizzi já estejam há muito tempo no clube, não estão de todo no patamar que o internacional brasileiro estava.

A aposta no Seixal, tanto apregoada por Luís Filipe Vieira, parece ser uma miragem, pelo menos com Jorge Jesus ao comando. Jogadores como Gonçalo Ramos, Florentino Luís, Tiago Dantas ou Paulo bernardo poderiam integrar facilmente o plantel A e outros como Tomás Araújo ou Guilherme Montóia vascular entre o principal e o B. Porém este plano de aposta na formação seria a grande jogada de mestre da direção benfiquista, de modo a unir os adeptos em torno do clube de novo. Acima de pedidos de reforços, o que os adeptos têm solicitado é a integração dos pupilos na A, por parte de Jorge Jesus.

Parece-me necessário que o Benfica siga o exemplo prestado pelo outro lado da estrada, de modo a obter paz. Contratar o fundamental, com o conhecimento dos jogadores por parte da equipa técnica (algo que segundo Domingos Soares de Oliveira disse que falhou) e não entrar em polémicas desnecessárias, são algumas das soluções para o trilho do sucesso. Não se podem voltar a gastar cem milhões de euros em transferências, sendo obrigatório a chegada à fase de grupos, para atenuar as perdas da época anterior e tudo o que não seja a conquista da Primeira Liga, irá significar saídas, principalmente a de Jorge Jesus. Jogadores que não venham para acrescentar, não vale a pena irem, como acontecia há alguns anos, quando eram contratados 10 ou mais jogadores na esperança que um resultasse e compensasse os outros flops todos. Nomes como Jhonder Cádiz ou Branimir Kalaica ainda fazem parte dos quadros encarnados.

Toda a época encarnada foi uma desilusão, não só no futebol, mas também na maioria das restantes modalidades, porém algumas mudanças já foram realizadas com as saídas de Joel Rocha ou Carlos Lisboa, no futsal e no basquetebol, porém no futebol a situação é mais complexa. Com isto não quero dizer que a separação entre Jorge Jesus e a entidade para qual trabalha é a solução, pois o originário da Reboleira continua a ser um bom treinador, ainda que este terá de mudar a sua postura em certas situações, de modo a que os objetivos propostos sejam cumpridos. 

É fundamental voltar a reunir os adeptos todos do lado do Benfica, pois a instituição não é a pessoa A nem a pessoa B. A saída de Luís Filipe Vieira, não é um cenário plausível de acontecer, assim como a de Jorge Jesus, por isso a guerra civil silenciosa que parece estar a acontecer pelos lados da Luz tem todas as condições para continuar. Resta saber, qual vai ser o ambiente no estádio, quando as portas abrirem para a nova época, se teremos de novo o Inferno da Luz ou a própria Luz, num Inferno para os da casa.

Visão do Leitor: Ricardo Lopes

7 Comentários

  • josediogo
    Posted Julho 7, 2021 at 11:29 am

    “A paz impera do reino do leão” é uma frase que, como Sportinguista, ansiava há anos por ouvir.

    • Ricardo Lopes
      Posted Julho 7, 2021 at 5:16 pm

      E algo que parecia tão irreal há uma série de meses, porém penso que neste momento é uma afirmação segura.

  • Diogo Filipe
    Posted Julho 7, 2021 at 11:43 am

    O Benfica trocou de lugar com o Sporting. Neste momento o Sporting além de campeão em título, é um clube estável e com rumo. Sabem os seus pontos fracos mas também sabem os seus pontos fortes.
    O Benfica é uma casa a arder. Projeto desportivo não existe. A estrutura quer apostar na formação mas com JJ a treinador isso é impossível. Só se podem contratar jogadores que ele conheça de Portugal ou do Brasil ( o resto do mundo não existe). Todas as semanas se ouvem manifestações (com mais ou menos pessoas) e a instabilidade vai se notar ainda mais se os resultados não aparecem de início.

    • Richrad
      Posted Julho 7, 2021 at 12:38 pm

      Não podemos é colocar nesta casa a arder, o epicentro do fogo em Jorge Jesus.

      Se é um facto que Jorge Jesus pouco aposta na formação dos clubes onde passou, outro facto é que o próprio Luis Felipe Vieira com Rui Vitória e Bruno Lage sempre projetou os produtos a emergir ” Made In Seixal” como craques e jogadores capazes de lutar por títulos como adquiridos.
      É anedótico a posição ao longo das épocas de LFV em relação a Gedson, Fiorentino, Jota, Semedo e casos afins. Valiam tanto e agora… qual será o heroico clube que permitirá receber estes jogadores com cláusulas absurdas?!

      O LFV nunca acreditou nos pseudoprojectos em que estavam ligados o Rui Vitória ou o Bruno Lage, tanto que ano após ano, o investimento feito na equipa era cada vez mais diminuto. É caso para dizer, se existem casamentos para a vida toda… é o caso do presidente e do treinador do clube encarnado.
      Se os Sportinguistas foram os principais culpados para a queda abrupta do clube a quando Assembleia Geral da mudança de estatutos comandada por BDc, são igualmente os Benfiquistas os principais culpados por, nas eleições mais concorridas do clube, terem mostrado a sua vontade em manter um projeto desportivo inexistente.

      Infelizmente, é o que temos e caso o SL Benfica cometa de novo, a proeza de falhar a entrada na UCL, o SL Benfica irá certamente entrar no período muito mas muito… bem, é melhor não rugar pragas.

  • pdomingues
    Posted Julho 7, 2021 at 11:52 am

    Tb é paz podre deixa os resultados deixarem de aparecer e os abutres começam a sair do ninho
    :D

  • Tiago Silva
    Posted Julho 7, 2021 at 11:58 am

    Acho que disseste tudo Ricardo, eu como benfiquista estou cada vez menos vontade de ver o Benfica por tudo o que rodeia o clube. O nosso plantel continua a ser o melhor em Portugal, mas tem falhas gritantes que ninguém na direção consegue ver. Temos muitos jogadores “experientes” que já deveriam ter abandonado o clube, e pelos rumores que ouvimos todos os dias, parece que se irão juntar ainda mais. A folha salarial cresce de dia para dia, temos imensos jogadores nos quadros que não contam e os miúdos têm sido ignorados (sim têm sido aposta na pré-época até agora, mas depois irão deixar de contar como sempre aconteceu com JJ). Temos um treinador egocêntrico e demasiado teimoso para admitir os seus erros, e que não consegue contruir uma equipa sem gastar milhões. Temos um presidente que todos sabemos como ele é mentiroso, com pouca vergonha e que a cada ação que faz vai matando o Benfica e desgastando a sua imagem. E pior que tudo, toda a gente que faz parte do clube pouco tem feito para inverter a situação, estão todos aburguesados e confortáveis nos seus lugares, sem qualquer grau de exigência, incluindo o plantel.

    Precisamos de alguém que faça uma limpeza, que consiga trazer gente competente e com vontade em reerguer o clube, renovando o benfiquismo na equipa seja no futebol como nas restantes modalidades. Precisamos de profissionais de excelência e que consigam dar tudo de si e não de preencher lugares com favores e amizades. Mas mais importante que tudo, precisamos dos benfiquistas unidos, todos a rumar para o mesmo lado, o lado que melhor faz ao Benfica!

    • Ricardo Lopes
      Posted Julho 7, 2021 at 5:15 pm

      Se querem fazer alguma coisa, agora é o momento. O Benfica não pode estar refém de Luís Filipe Vieira, muito menos um presidente com este historial.

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