Este tempo de isolamento social tem-nos tirado quase tudo, inclusivamente a coisa mais importante das menos importantes da vida: o futebol. Há já umas semanas que não temos jogos e as únicas notícias que temos são as de novos jogadores infetados, ou das diversas ideias para fazer regressar a competição. Se é verdade que não temos jogos para ver e competições para acompanhar, não é menos verdade que muitos canais nos têm permitido reviver grandes momentos do nosso futebol. Tem sido um prazer voltar a acompanhar os jogos do F.C. Porto na liga dos campeões de 2003/2004. Poder assistir na integra aos jogos, que trazem as melhores recordações aos adeptos portistas, tem permitido perceber também uma questão que me parece fundamental, mas muitas vezes ignorada. Qual o grau de importância da confiança no desempenho de um jogador e de um coletivo.
Na verdade, olhamos para aquele plantel que hoje dizemos ter sido uma das grandes equipas do F.C. Porto. No entanto, vemos que jogadores como Deco e Ricardo Carvalho já andavam na equipa antes deste período de sucesso. Vemos que com a exceção dos dois citados acima a juntar a 2/3 anos de Paulo Ferreira no Chelsea, nenhum outro daquele 11 conseguiu replicar nada do que fez na aquela equipa, noutro patamar e noutro clube. Vemos que Carlos Alberto atingiu o auge aos 18 anos, Costinha e Maniche aventuraram-se na Rússia mais pelo dinheiro do que pelo prestígio desportivo, sendo que o último ainda conseguiu ter algum protagonismo num Atlético bem diferente do de hoje em dia. Nuno Valente sentava-se mais no banco do Everton do que jogava. Alenitchev reformou-se pouco tempo depois na sua terra natal. Pedro Mendes jogou num clube de meio da tabela em Inglaterra, chegou ao Rangers, clube melhor na altura do que hoje, mas longe de ser um colosso. Benny McCarthy também andava a marcar golos por um Blackburn já bem distante do que foi outrora. Apesar de só ter citado alguns, penso que dá para perceber a ideia geral do argumento. Apenas Deco e Ricardo Carvalho atingiram o patamar de excelência mundial nas suas posições.
Dissecando o sucesso daquela equipa entre 2002/2004 podemos encontrar diversos fatores que contribuíram sem dúvida alguma. A sorte que o sorteio providenciou. Vemos um balneário com uma hegemonia clara a nível de nacionalidade, o que ajuda sempre na hora de formar um grupo. Vemos um balneário com referências claras, que facilitam o trabalho do treinador e ajudam a manter um grupo focado. Vemos um treinador jovem e ambicioso que se tornou num dos melhores treinadores da história. E vemos um coletivo confiante. Que jogava olhos nos olhos fosse com quem fosse. Que não abdicava de jogar fosse com quem fosse e onde fosse. Víamos um coletivo que transbordava tranquilidade fosse qual fosse o jogo que tinha de disputar.
Pegando num exemplo mais próximo dos dias de hoje, vejo o mesmo na equipa do Liverpool. Uma equipa que joga sempre tranquila. Não se sente dúvidas em nenhum momento. Os jogadores parecem saber que tudo vai correr bem, mesmo nos jogos que se tornam mais complicados. Muitas vezes, enquanto treinadores de bancada apontamos o dedo para o processo. Criticamos a sua simplicidade excessiva, ou a sua complexidade desnecessária. Mas a questão que me coloco neste momento é: estará o problema no processo, ou na confiança que as diferentes partes colocam no mesmo? Porque acima de tudo, todos têm que confiar no que estão a fazer e se em algum momento alguém dúvida da ideia, abre a caixa de pandora para o insucesso coletivo. Será a confiança um pormenor ou a base de tudo?
Visão do Leitor: Santander


3 Comentários
Visão de Mercado
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Pedro pintarolas
aquele porto jogava de olhos fechados. uma pressão alta maravilhosa. um baía em topo de carreira, ricardo carvalho talvez o melhor central que vi jogar no Porto (aloísio?) secundado por um enorme líder e por dois laterais muito competentes. Costinha e maniche fizeram épocas colossais (a rever o porto a jogar, que maravilha a qualidade de passe e remate de maniche). Deco, o melhor jogador que vi no Porto, tinha tudo – técnica, raça, visto de jogo, remate, passe curto e longo. Carlos Alberto um fenómeno que passa ao lado de uma enorme carreia (vejam o jogo genial com o United e a receção dos adeptos a este craque no jogo seguinte em Manchester). E depois McCarthy e Derlei com mobilidade e golo. Um plantel de sonho, ainda com os luxos de Alenitchev e Pedro Mendes.
E ver aloísio no banco, um senhor!
Parib
Só faltou a referência à dupla que liderava o balneário (V. Baia e Jorge Costa) e uma palavra também para o herói de Sevilha – Derlei.