Penso estar claro, para todos, a atual figura soberana da nossa nação. Tudo o que o rodeia e persegue é tão absurdo que dei por mim a procurar compreender melhor as causas do surto coletivo que tem afetado não só o nosso país, mas também o mundo no passado recente. O primeiro fenómeno com que me deparei foi o da habituação, ou fadiga informativa: o excesso de exposição e de provas, conduz muitas pessoas a diminuir a sua resposta emocional, e até racional, a determinado evento. Aquilo que, noutra época, seria escandaloso e geraria estranheza imediata, hoje é absorvido com absoluta normalidade. O que seria dito em 2010 se, de repente, se apresentasse a este nível técnico ou tivesse atitudes e comportamentos aos níveis a que nos tem habituado recentemente?
Mas a raiz do problema, no entanto, penso ser outra. E vem da comunicação, a ilustre propaganda. É que não é preciso aderir de forma radical a uma ideia para lhe dar força. Contribui tanto para uma ditadura o fascista, como aquele que se diz chocado com o seu discurso extremista, mas valida as suas opiniões. As pequenas justificações, os frequentes “mas…”, acabam por ter um efeito cumulativo mais forte do que a própria defesa cega e desmedida da causa. E assim, gradualmente, a narrativa vai-se instalando, repetida até se tornar quase incontestável. Depois do desastre de 2022 e da resposta fulminante do menino algarvio, seria impensável estar nesta situação aos dias de hoje. Mas a verdade é que cá estamos. E isto não acontece da noite para o dia, é um processo lento e metódico. Até que damos por nós a ouvir, sem qualquer vergonha e em horário nobre “que ainda é o melhor do mundo”. Parando um pouco para refletir, as contradições são tantas que fazem doer a cabeça:
– Atira a braçadeira ao chão. Falta ao funeral de um companheiro. Fica visivelmente incomodado com o sucesso de terceiros. “Um exemplo para os mais novos.”
– Não acompanha a equipa após as derrotas. “Sente o país como mais ninguém.”
– Defende que o Mundial da Arábia Saudita será o maior de sempre. “O nosso maior embaixador.”
– Dá entrevistas a contradizer as suas próprias opiniões, denegrir colegas e instituições. “Ele é maior que isso, e está-se a marimbar para o que dizem.”
– Fala constantemente de si e dos seus números e estatísticas. “Um bicho competitivo, que só pensa em ganhar e quer sempre mais.”
A lista é grande, e ficávamos aqui o dia todo. Mas o facto é que nem cheguei ao ponto que considero ser o mais tenebroso. É completamente abjeto, vil e asqueroso ver o que ocorre nas redes sociais. Jogadores a serem crucificados, desinformação, tudo gira à sua volta. E a estratégia é simples, arranjar uma narrativa e difundi-la ao máximo, o mais rápido possível. E são inúmeros os posts e comentários a espalhar a mesma mensagem (às vezes sem trocar uma única vírgula). Quantas vezes já ouviram: “ainda é importante, mas devia entrar nos últimos minutos e talvez não bater os livres todos”, “os jogadores parece que não lhe querem passar a bola”, “o problema agora é ele, depois de tudo o que já fez por nós”? E nisto, o nosso Rei não tem par. É quase tabu criticá-lo, e quem o faz é instantaneamente apelidado de ignorante e invejoso. A força mediática que tem, aliada ao facto de ser acionista dos principais veículos de comunicação, leva a que os likes e partilhas sejam aos milhares. E acabamos, inevitavelmente, fadigados.
Resta apenas a esperança de que, num futuro próximo, possamos ter uma seleção que agregue mais do que separa. Que cesse, de uma vez por todas, esta monarquia. Só que estes fenómenos não são exclusivos ao desporto rei. Ficámos imunes às absurdidades e desgraças que vemos constantemente pelo mundo fora. E o mais certo, e curiosamente ao belo estilo monárquico, é que surja um herdeiro a roubar os holofotes para si.
Pedro Gonçalves


6 Comentários
Antonio Clismo II
Cristiano está numa fase tão patética da sua vida que não se coibiu em contratar centros de bots para o promoverem nas redes sociais e também para atacar os perfis dos próprios colegas.
Nota-se bem que o seu grupo MediaLivre já começou também uma campanha de ataque contra os “jogadores que não lhe passam a bola”.
Ter uma conglomerado de media dá jeito afinal para construir narrativas, nem que sejam paralelas e alucinadas.
Cristiano só quer saber de si próprio. Usa a FPF a seu bel prazer. Se lhe perguntarem os nomes dos 26 jogadores que estão com ele neste Mundial 2026 meto as minhas mãos no fogo que ele não consegue dizer o nome de todos.
Estamos a falar de um capitão que nem se dignou a aparecer no funeral de um colega de equipa no ano passado…
dzs
Nesse ultimo ponto concordo, como e que ele ha saber quem e o Tomas Araujo ou o Ricardo Velho?
Luso
Sinceramente não sei o que é mais grave, se o facto do Ronaldo jogar o que joga ou o facto desta sindrome CR7 estar neste estado.
Se Portugal não tivesse ganho porque o Ronaldo falhou tudo e ainda marcou o golo do Congo, enquanto o resto da equipa fez um jogo exelente, ainda compreenderia.
Portugal não jogou um chaveilho a começar no Guarda-redes e acabar no Avançado.
Foi uma palhaçada global.
Eu já sei que o Ronaldo não vai dar mais que isto e secalhar devia jogar o Ramos que deve ser um bocado melhor que ele, mas e os restantes?
O Bernardo que já vai nos 30 e passa sempre nos pingos da chuva, e não esquecer os melhores do mundo Vitinha, Joao Neves, Nuno Mendes, Diogo Costa, Bruno Fernandes, Cancelo.
Quando é que eles vão ser chamados a chapa?
Falam todos do Rei Sol e blablabla mas quando é preciso assumir as suas responsablidades todos se escondem nas costas dele.
Estou desejoso para o Ronaldo sair da selecção.
Vai ser engraçado ver esta gente toda a rabiar e ter que escolher outro para justificar maus resultados.
Aposto que vão ser os Centrais
Paulo Roberto Falcao
Excelente texto, é isto no fundo. O Rei está nu, e está nu há muito tempo. E arranjou uma seita negacionista à sua volta para se manter no seu palácio. Um Rei fraco que faz fraca a forte gente, como diria Camões nos Lusíadas.
Eu gostava de ser mosca. Imagino o quanto os outros, o Bruno, o Vitinha, o Mendes, o Neves, enfim os jogadores realmente de Top portugueses, e não o Rei, que é um jogador retirado a jogar nos camelos, o devem detestar, e quanto todo este circo à sua volta os deve perturbar. É abaixo de cão a forma como a Federação está a tratar a melhor geração de jogadores da nossa história, obrigando-os a ter que suportar isto.
Alguns, como Rafa ou João Mário, bateram com a porta e disseram palavras enigmáticas. Um dia vamos saber o que se passou neste Mundial, e o que se passou há quatro anos no Qatar. E a história vai julgar este Rei, pena é não vivermos num país normal, e um selecionador ser proibido de contrariar as suas birrinhas.
ACT
O que mais me intriga nisto, é que grande parte das pessoas acordou em 2026, o Ronaldo já é assim aos anos, principalmente em fases finais, onde se já várias pessoas defendem que devia encostar e não absorver tudo a sua volta. O jogo de ontem pelo menos mudou algumas cabecinhas, mas nada que um penálti contra o Uzbequistão deite água na fervura e digam que o bicho está de volta. O nosso pensamento nas últimas fases finais tem sido o mesmo, para a próxima fase final vamos jogar como equipa, mas mais um ano passa e temos que levar com o embaixador da Arábia.
Art Vandelay
Um dos melhores posts de sempre do VM