Todos sabemos que existe no futebol português um nível de toxicidade extremo. Esta toxicidade é alimentada por todos os intervenientes. Se é verdade que muitos jornalistas e muitas publicações procuram “sangue” (uns mais que outros, conforme o seu brio profissional), se é verdade que proliferam os programas em que se fala pouco de futebol e muito de intrigas, guerras e casos e onde a análise táctica do jogo é ofuscada pelos gritos e acusações, não deixa de ser igualmente verdade que muita da toxicidade é alimentada pelos próprios clubes.
Este fenómeno reflecte-se na própria comunicação institucional dos clubes. O que é um fenómeno peculiar se atendermos à dimensão corporativa dos clubes e o volume de negócio das suas SADs. Se analisarmos as SAD como aquilo que são, empresas, percebemos facilmente que, ao nível de volume de negócios, valores transacionados e capital, estão num nível superior à larga marioria das empresas Portuguesas. Paradoxalmente, à excepção de um punhado de clubes, a gestão destas SADs é feita por gestores com pouca experiência a este nível no mundo dos negócios e mesmo no caso dos clubes que recorrem a gestores profissionais (caso dos 3 grandes e mais algumas SAD), verificamos que a forma como comunicam institucionalmente não está de acordo com a grandeza dos respectivos clubes enquanto instituição e enquanto grandes empresas. Qualquer empresa, seja de que tamanho for, sabe que a sua comunicação com parceiros e com o público deve ser feita de forma a proteger os interesses da instituição mas também de forma a não causar atritos que possam prejudicar futuras relações comerciais e institucionais. No futebol e no desporto, no entando, a regra parece ser o oposto. Vejamos alguns exemplos dos dias mais recentes:
Transmissão dos jogos da Lia Europa:
O SC Braga insurgiu-se contra o facto de a estação, privada, SIC, escolher transmitir os jogos do SL Benfica na Liga Europa em detrimento dos jogos do SC Braga. Mais do que analisar se essa reivindicação pública perante um parceiro que é, para todos os efeitos uma entida privada, é legítima ou não, importa analisar o tom desse mesmo comunicado que continha expressões como:
“Pena é que haja ainda responsáveis pela comunicação social em Portugal com vistas absurdamente curtas”, “Não permitiremos que nos remetam para um papel secundário. Não admitimos que a desculpa das audiências sirva sempre de justificação para tomadas de posição ultrapassadas e que apenas servem para perpetuar um sistema de catalogação do futebol português que em nada espelha o presente”
Falha na disposição do símbolo de um clube numa transmissão:
Durante o jogo de Voleibol entre o Sporting CP e a equipa AJM/FC Porto, a Sporting TV colocou o símbolo da Academia José Moreira (AJM) em vez do símbolo do FC Porto. Esta situação aconteceu apenas durante a transmissão, sendo que nas redes sociais e outros conteúdos foi colocada a imagem e designação correcta da equipa. Seria um erro técnico sem importância, mas foi emitida pelo responsável de comunicação do FC Porto uma comunicação com a seguinte frase:
“É uma mesquinhez de alguns inteligentes que só diminui o Sporting. O Sporting tem obrigação de respeitar o FC Porto e todas as equipas.”
Adiamento do Jogo entre Fabril e Sporting B:
Para se notar que este é um fenómeno comum a todo o futebol Português, veja-se o recente comunicado do Clube Fabril sobre o facto do Sporting não ter demonstrado interesse em adiar a partida com o Fabril, dado o surto de COVID-19 no seio do clube do Barreiro, com frases como:
“atitude discriminatória e estúpida”, “os restantes dirigentes deste clube desconhecem os bons ofícios do seu presidente em relação ao vírus. ‘Bem prega Frei Tomás…”
Estes exemplo são apenas desta última semana. Mas uma análise rápida à comunicação dos clubes de futebol, só em 2020, permite encontrar expressões em comunicados oficiais ou vinculadas de forma oficiosa pelos responsáveis de comunicação dos clubes como:
“golpada da vergonha” “Estes dois autarcas, e o mesmo será dizer, membros dos órgãos sociais do FC Porto, pretenderam interferir na calendarização e na verdade desportiva” (SL Benfica sobre o adiamento do Jogo entre Boavista e FC Porto);
“inadmissível e lamentável que a Liga Portugal numa recorrente demonstração de incompetência e incúria por parte dos seus principais responsáveis” (Benfica sobre a não autorização de um grupo limitado de adeptos na tribuna num jogo contra Moreirense FC);
“conduta hipócrita e cínica” (Vitória FC sobre jogo com Sporting CP em Janeiro de 2020);
“O que a RTP fez é um insulto ao futebol, à Taça de Portugal e ao Rio Ave” (Rio Ave sobre alteração da hora de jogo com Benfica);
“o comunicado do Cova da Piedade foi uma tentativa de estabelecer o caos, uma atitude desesperada” (CD Nacional sobre a decisão de término da II Liga 2019/2020);
“propósito ridículo” (Moreirense FC sobre não adiamento do jogo com FC Paços de Ferreira).
Basta uma leitura pelos jornais diários e pelos constantes comunciados dos clubes para encontrar palavras como “vergonha”, “corrupção” ou “desrespeito” e acusações várias em todas as direcções. Este é apenas um apanhado geral. Mais uma vez importa clarificar: Não está em causa a legitimidade ou a razão dos clubes nestas situações, mas sim o tom acusatório e a agressividade presente em quase todas as comunicações feitas por clubes de futebol em Portugal nos mais triviais assuntos, com acusações ou insinuações graves contra:
– clubes (concorrentes desportivos mas também potenciais parceiros de negócios em transferências de jogadores, negociações de direitos televisivos e patrocínios, e parceiros institucionais na Liga de clubes);
– Instituições de gestão de futebol (Federação Portuguesa de Futebol, Liga de Clubes, órgãos de arbitragem, etc);
– Patrocinadores e parceiros comerciais (Como estações de televisão, públicas e privadas, por exemplo, sendo que é fácil encontrar acusações à RTP, TVI, SIC e Sport TV).
Em mais nenhuma área de negócio se verifica esta postura beligerante, agressiva e acusatória por parte da comunicação das empresas/entidades. Seria até inconcebível na larga maioria das áreas de negócios que tal se verificasse, tal seria o dano institucional, reputacional e comercial que adviria dessa forma de comunicar. Mesmo no futebol, são raros os campeonatos de topo onde se verificam situações destas, sendo que nos casos onde existem (veja-se algumas declarações do Presidente do Nápoles por exemplo) esses dirigentes são vistos como a excepção e não como a regra. Posto isto importa perguntar: Serão os clubes vítimas ou os causadores da toxicidade no Futebol? Haverá algum benefício, do futebol em geral ou de algum clube em particular, nesta forma de comunicar? Até que ponto podem ser os clubes Portugueses prejudicados perante parcerios comerciais e institucionais estrangeiros? E não menos importante, como podem os reguladores desportivos inverter e controlar esta postura dos clubes?
Visão do leitor: Vasco Galhofo


2 Comentários
Estigarribia
Bom texto, Vasco.
O povo português não gosta de futebol, gosta de bola.
Em relação aos programas pseudo-desportivos, a TVI e a SIC já acabaram, e bem, com os Prolongamentos e os Dias Seguintes desta vida, mas, por outro lado, deixaram comentadores como Rui Pedro Brás, Luís Aguilar, José Manuel Freitas ou Pedro Fatela, por exemplo, que supostamente são “isentos” mas que de isenção não têm nada. E depois temos os programas da CMTV que são puro entretenimento.
Contam-se pelos dedos de uma mão os bons programas desportivos: Einsteins, MaisFutebol, os programas todos do Canal 11 e o Grande Área (não sei se o Titulares ainda é transmitido na SportTV+).
No que toca á imprensa desportiva/sites desportivos, desde que a Futebolista deixou de ser publicada, apenas o Visão de Mercado é o meu local preferido para me actualizar no que toca às notícias desportivas.
Saudações Leoninas
Valderrama
Bom texto, a propósito acrescento a vergonha que foram os últimos dias da comunicação do Porto em relação ao Bernardo Silva