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Política nos Jogos

Durante anos, os eventos desportivos, nomeadamente os Jogos Olímpicos, foram usados como forma de propaganda e de afirmação política. Os Jogos de Berlim, em que o regime nazi pretendia afirmar-se como potência dominante, e demonstrar a superioridade da raça ariana, o campeonato do Mundo de Futebol de 1978, que o regime militar usou para mostrar quão bem se vivia na Argentina, são alguns exemplos de como a política se misturava com o desporto. Isto para não falar nos sucessivos boicotes dos blocos políticos às Olimpíadas de 1980 e 84. 

No clima pós-guerra, a divisão do Mundo em dois blocos- ocidental e soviético- rapidamente se transpôs para o desporto. As rivalidades políticas, militares e ideológicas passavam para os mais diversos campos, pavilhões ou pistas. Em cada competição estava em disputa não um troféu ou uma medalha, mas quase um modo de vida; eram dois conjuntos de valores completamente opostos que se defrontavam a cada salto de cavalo ou em cada cesto de basquete. E o apogeu dessa rivalidade, claro, acontecia nos embates entre as duas cabeças dos blocos dominantes: EUA e URSS.
Durante anos, as duas potências dominaram o medalheiro, até que em 1991 a URSS caiu, e com ela, a divisão do Mundo pelo Muro. Em 1992, a maior parte das repúblicas que constituiam a União Soviética ainda se apresentaram em conjunto (à excepção dos Bálticos), e conseguiram arrecadar mais medalhas que os EUA. Mas a Rússia “independente”, saída de um processo de reforma política e económica complicado, nunca mais conseguiu pôr em causa o domínio americano. Ou porque alguns atletas foram representar os seus países de origem, ou porque a estrutura desportiva assente no Estado ruiu, ou porque já não existia o factor de motivação da superioridade política, o facto é que os EUA se assumiram como única potência desportiva a nível global.
Até 2008. 
Em 2008, os Jogos são organizados por um país até então subalterno do ponto de vista político, económico, e também desportivo. Um país fechado, mas que a pouco e pouco se tem aberto ao Mundo, e assumido cada vez mais como um player mundial na diplomacia e na finança: não é segredo que a China financia dívida de muitos países ocidentais, EUA incluídos. A China não só se mostrou capaz de organizar o maior evento desportivo do Mundo, como conseguiu assumir-se como potência desportiva ao nível dos EUA. À tradicional metodologia de treino e sacrifício, juntou-se um investimento enorme em estruturas físicas e recursos humanos, que resultou na liderança final do medalheiro. E assim como desaparecera, reapareceu uma rivalidade a dois, desta vez encabeçada pelos expoentes máximos, não de dois pólos políticos opostos, mas desta vez de dois pólos económicos. De um lado, o ocidente, do outro, os emergentes.
O mais interessante é que esta rivalidade reacendeu velhas discussões: acusações de doping, falsificação de idades, manipulação de jurados, até de espionagem (??) se falou, sem descurar um ponto sempre em voga quando se fala de China: a brutalidade dos treinos a que são sujeitos os jovens atletas desde tenra idade. O facto é que, tal como acontecia com o Bloco Soviético, as vitórias da China nas diversas competições acabam por confirmar a superioridade do seu sistema político e social. Se juntarmos a isso a ideia de que alguns países da Europa tendem a percorrer um caminho que tem como destino o modelo económico e social chinês, será correcto dizer que novamente, estamos perante o choque de dois blocos e que os Jogos Olímpicos podem ser uma arma de arremesso nessa luta?


Nuno Ranito

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