Por estes dias vivemos a febre do Mundial.
Por estes dias sonhamos com as nossas hipóteses de vencermos o título que nos falta e alimentamos isso com o talento inegável que existe à disposição.
Por estes dias também as tertúlias e comentários desde a roda de amigos no café aos comentadores e jornalistas da nossa praça enchem a barriga com o tema do dia, Cristiano Ronaldo sim ou não.
De um lado os defensores acérrimos do 7 português relembram o peso histórico, os títulos as conquistas e a dívida de gratidão para com o ponta de lança da Seleção.
Do outro esgrimem-se argumentos tácticos, técnicos, físicos, excesso de ego e ausência de liderança para apontar tudo e mais alguma coisa.
Essa é a primeira distração.
Enquanto se falar de Ronaldo, seja bem ou seja mal, continuaremos alheios e distraídos para o real problema…
Permitam-me recuar atrás no tempo para outro Mundial, curiosamente numa das mesmas localizações.
México 1986.
A Seleção Portuguesa voltava a um Mundial e trazia consigo uma geração que tinha conquistado o terceiro lugar no último Europeu decorrido dois anos antes.
Os mais novos poderão até achar que Portugal só com Ronaldo se tornou relevante, alguns mais velhos e que viveram esses tempos também.
Mas a realidade é que agora como na altura Portugal tinha uma Seleção recheada de talento.
Agora que estamos com a moda dos onzes combinados, basta perceber que o lote de guarda redes da altura é superior ao atual e que o de avançados não ficava a dever em nada em qualidade e quantidade.
Na baliza estavam Bento e Vítor Damas por exemplo e no ataque estavam Fernando Gomes, Rui Águas e Paulo Futre e podiam estar ainda Jordão e Chalana. Um manancial de qualidade incrível para a altura.
O que aconteceu no México e em Saltillo, manchou gravemente a imagem do jogador português, da Seleção e da FPF.
Em jeito de metáfora, a produtividade do lote de trabalhadores (neste caso os jogadores) ficou pelas horas da morte, não porque o trabalhador não pudesse ser produtivo, mas por variadíssimos erros de gestão.
Quando o gestor é mau não há trabalhadores produtivos.
Essa discussão económica do porquê do trabalhador português ser produtivo fora e não em Portugal é uma discussão que os gestores e economistas da nossa praça ainda não conseguiram resolver em 50 anos. A resposta é simples, mas seria para outro fórum.
Realisticamente o que se falou nos meses seguintes ao pós Mundial de 86 foi outra distração. Muito semelhante diga-se à atual…
Esse episódio lançou toda uma onda de choque no futebol português e pela primeira vez em muito tempo eis que a solução passou pela gestão. (Quem diria??).
A FPF mudou, profissionalizou-se, passamos a ser mais exigentes com a sua estrutura, e quem veio resolveu atacar o problema de fundo. Não viver ou chorar pelo passado, não tentar sobreviver ao presente.
Carlos Queirós, Nelo Vingada e muitos outros lançaram as bases do sucesso futuro.
3 anos mais tarde desse episódio no México éramos campeões do Mundo de júniores, 2 anos após esse feito repetiamos a dose em Lisboa, num Estádio da Luz a abarrotar pelas costuras num momento épico de orgulho nacional.
Estava dado o mote para a geração de ouro.
O jogador português ficou apelativo aos olhos do mercado externo pela primeira vez e a marca da formação portuguesa ganhou valor.
Tínhamos mais talento?
Não. Talento sempre existiu.
Em 66 com Eusébio, Coluna, Simões, no México com Futre, Gomes ou Carlos Manuel, em 89 com João Vieira Pinto, Fernando Couto, Paulo Sousa, em 91 com Figo, Rui Costa, Jorge Costa, ou em 2026 com Vitinha, Nuno Mendes ou Bruno Fernandes.
Passou apenas a ser mais visível e mais bem gerido e organizado.
Essa marca registada da geração de ouro trouxe os primeiros reconhecimentos, os primeiros títulos individuais com Figo e foram altamente amplificados pelo sucesso esmagador de José Mourinho e Ronaldo culminando com o título europeu assinado pelo pé do talento de Éder cujo talento era questionado.
A história tende a repetir-se. É cíclica.
Tal como a má gestão.
A FPF e as estruturas que definem o futebol português começaram a surfar a onda do sucesso e a viver os lucros do presente. O marketing à volta da Seleção dá de comer a muita gente. E esta nova FPF está recheada de vícios velhos e bem mais próxima de Saltillo do que do futuro.
Há 4 anos podiam ter iniciado um novo ciclo. Optaram por manter o antigo, trazendo um treinador mais político do que técnico, mais de gestão de ativos do que de criação. Roberto Martinez trazia consigo o currículo de ter desaproveitado uma geração de enorme talento na Bélgica em nome dos consensos.
Quatro anos volvidos a crítica não foi da escolha de Martinez mas da utilização abusiva de Ronaldo.
Mais uma distração…
Martinez irá sair e o candidato mais forte à sucessão é Jorge Jesus.
Um upgrade brutal a nível técnico, mas que curiosamente foi o último treinador da estrela da Seleção e cuja gestão do mesmo no Al Nassr foi em tudo semelhante.
Cristiano por sua vez já afirmou várias vezes que nunca abdicará da Seleção o que deixa o ónus do início de um novo ciclo não no novo treinador, não na FPF, mas ao sabor do quão grande for a dívida de gratidão.
Uma coisa é certa.
Começamos mal, mas até podemos ser campeões do mundo e o Ronaldo ser o melhor marcador da prova.
Nada disso vai apagar o facto que continuemos a viver numa alienação colectiva e a não discutir o problema de fundo.
Quem são as alternativas a Diogo Costa e Rui Silva, ou a Ronaldo e Ramos? Quantos guarda redes e pontas de lança portugueses jogam com regularidade na nossa liga?
Se esses são maus ou insuficientes vamos convocar quem?
Até quando vamos ser a liga com maior percentagem de estrangeiros das principais ligas europeias e achar isso normal?
Se o talento está lá como estava em 66,86,89,91 ou agora, até quando vai o grande público achar que bom é o jogador que vem das big 5 por 30M e os miúdos por muito talento que tenham têm que esperar na B ou serem emprestados?
Até quando aplicar nas nossas provas um limite de 25 inscrições e o 4+4 da Uefa criando espaço para a afirmação do jovem jogador português?
A resposta a essas perguntas apesar de fácil, vai continuar envolta no mesmo secretismo da falta de produtividade, enquanto continuarmos a alimentar as distrações.
Flávio Trindade


1 Comentário
Antonio Clismo II
Excelente artigo.
A FPF está claramente agarrada à droga CR7 e enquanto os cofres continuarem cheios, não terão qualquer incentivo para formarem uma equipa a sério para ir longe em Mundiais. E quanto enos longe forem no Mundial até é melhor para o Proença porque significa que tem menos prémios a distribuir pelos jogadores e isso equivale a dizer que fica mais para distribuir para ele e para os seus muchachos na FPF…
Reparem que o Proença nem sequer se refere na possibilidade de Portugal vir a querer organizar o Mundial de Clubes em 2029, o que seria normal que os países organizadores do Mundial organizem o Mundial de Cubes no ano anterior… Ora isso nem sequer está programado no plano da FPF para os próximos anos… É vergonhosa a falta de capacidade e visão desta turma… Nunca mais na história terão possibilidade de receber um evento desse género. Não interessa se o Estádio da Luz, Alvalade ou Dragão não estejam preparados nesse Verão de 2029, se for preciso metam o Estádio de Braga, Coimbra ou Faro para a equação porque no ano passado os EUA também meteram alguns estádios com menos de 30 mil pessoas no Mundial de Clubes e ninguém se queixou. Espanha e Marrocos agradeceriam a ajuda organizativa…
E SE A FPF ESTÁ AGARRADA À DROGA CR7, A LIGA DE CLUBES ESTÁ AGARRADA À DROGA “CASINOS ONLINE E LAVANDARIA” e uma vez que são os clubes que votam os regulamentos, não há nenhum incentivo para alterarem os regulamentos para inscrição de clubes em termos de composição de plantéis e em termos financeiros… e a Liga de Clubes é composta por pessoas tão fracas etão fracas que não há nenhuma vontade em avançarem com propostas ou mesmo forçarem novos regulamentos, mesmo sem a concordância dos clubes, porque isso significaria que nao seriam rconduzidos nos seus lugares pagos a peso de ouro…
Chegamos ao cúmulo de um clube em Portugal se dar ao luxo de nem sequer pagar os salários e ter dezenas de milhões em dívida, não ter adeptos, e nem sequer ter portugueses no plantel e conseguem licencça de competição na mesma com tremenda facilidade porque anda tudo à lei do envelope…
Concordo com a regra do mínimo de 8 atletas formados localmente num plantel de 25, mas esses 8 não podiam ser 4+4, porque a maioria dos clubes da Primeira Liga não tem capacidade formativa, logo é pedir demasiado a muitos clubes terem 4 atletas das próprias formações a comporem os plantéis. Para mim, serem 8 atletas formados em Portugal já seria bom, mas olhamos atualmente para o panorama e quase nenhum clube cumpre sequer esse pressuposto mínimo…