Que nem todos gostamos do mesmo já todos sabem, mas, de há dois anos para cá, essa velha máxima, em Portugal, parece começar a perder força. Falo do inabalável amor que os portugueses parecem nutrir pelo Real Madrid após a chegada de Ronaldo aos merengues. A sensação que passa é a de que o Real se tornou na quarta força a nível de apoio em Portugal, suplantando clubes tão carismáticos como o Boavista, Belenenses, Braga e Vit. Guimarães. Se fosse feito um inquérito a um português sobre as suas preferências além da dada a um dos grandes, hoje seria certa que a resposta apanharia o clube de Mourinho e companhia pelo caminho. Os portugueses comportam-se como uma mulher que, mesmo levando incontáveis facadas matrimoniais do esposo, continuam, de forma doentia, ao lado deste. Porque só se assim se explica que, mesmo após todas as demonstrações de superioridade do seu grande rival, as manifestações eufóricas de madridismo dos portugueses não cessem. Tal como as senhoras acima descritas, estão acoplados a uma cegueira que não se justifica. Mais: numa rápida visita a qualquer fórum onde se debata o futebol espanhol, o comentário deste lado da fronteira é quase sempre feito e orientado no sentido da defesa dos brancos de Madrid. Quem ousa afirmar que – a título de exemplo, o Barcelona e o seu melhor executante são superiores – normalmente arrisca-se, na melhor das hipóteses, a que lhe seja dado pouco crédito. Na pior, é fortemente enxovalhado. Vem aí, contra-atacando, os argumentos de quem hiperbolicamente se sente atingido: mas o Real Madrid representa o nosso país lá fora, está recheado de jogadores de fabrico nacional e tem, inclusive, o melhor treinador do mundo, que é português. Estávamos preparados para esta: mas então, porque não acompanham, e defendem, com a mesma paixão o Besiktas? Recorde-se o contingente luso no clube turco: Bebé, Quaresma, Almeida, Manuel Fernandes, Carvalhal, Júlio Alves e Simão.
É impossível escrever sobre este fenómeno sem falar em fanatismo. É impossível justificar este gosto pelo Real Madrid sem o interligar com a bajulação que muitos dos portugueses oferecem a Ronaldo e Mourinho. Porque muitas vezes se está do lado de uma facção de forma irracional. Tal como é o apoio aos grandes da parte de muitos adeptos: está lá, seja como for. Porque se fosse racional, tal como foi dito, o Besiktas também teria a sua falange de apoiantes em terras lusitanas. Como é que se explica que neste momento o Real Madrid seja o 4º clube com mais adeptos em Portugal?
A. Borges


