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Príncipe sem coroa

É comum associar-se a nobreza ao poder financeiro, o rei à coroa e os príncipes aos castelos. No entanto, nem todas as histórias se desenrolam de forma tradicional e se iniciam com o clássico “Era uma vez”. Do caos nasce muitas vezes a felicidade e quem experimenta a tormenta também pode colher frutos mais tarde. Num mundo muitas vezes cruel, a máscara costuma ser um meio para esconder as fraquezas ou algum segredo, mas nem sempre é possível mantê-la durante muito tempo. Ora, a narrativa de Aladdin é sobejamente conhecida. Um rapaz de rua, sem família e que tinha apenas um macaco como companheiro. Tudo muda quando conhece Jasmine, a princesa de Agrabah, que, apesar de ser forçada pelo seu pai, o sultão, tem rejeitado casar com sucessivos príncipes. Aladdin ganha um objectivo na vida e, de modo a tentar a sua sorte e esconder a falta de posses, disfarça-se de Ali, um princípe de Ababwa, terra inexistente. Inicialmente é rejeitado como todos e só quando revela a sua verdadeira identidade é que consegue casar-se com Jasmine. Não tinha a coroa de nascença como é apanágio, mas acabou por consegui-la. Um final feliz, como pode ser o de Dele Alli.

Filho de pai nigeriano e mãe inglesa, Bamidele Jermaine Alli teve uma infância turbulenta. Nasceu em Milton Keynes, cidade no sudeste de Inglaterra, foi abandonado pelo pai, Kenny Alli, um empresário milionário, e passou a viver com a mãe Denise, que sofria com problemas de alcoolismo, e mais três irmãos, todos de pais diferentes, numa casa camarária. Mais tarde, aos oito anos, Dele voltou a viver com o pai na Nigéria por alguns meses e, mais tarde, nos EUA, até passar a viver definitivamente com a mãe, em Inglaterra, aos 11, por não se entender com o pai e a madrasta. Entrou para a base do MK Downs e conheceu Harry Hickford, um companheiro de equipa que lhe mudaria a vida. Fruto da instabilidade que o circundava e da incapacidade da mãe para o criar, Dele saiu de casa aos 13 anos e passou a morar com Harry. Ainda hoje trata os pais do amigo, Alan e Sally Hickford, por pais adoptivos, apesar de nunca ter sido verdadeiramente adoptado. Mais tarde, Denise revelou que foi a melhor forma que encontrou para dar um futuro de sucesso ao filho, que desde cedo revelara o sonho de ser jogador de futebol. Outrora rodeado pelo crime e maus hábitos, Dele passou a ter um lar e o apoio necessário para apostar na sua carreira. A rua deixou de ser o seu porto de abrigo e, aos 16 anos, estreou-se na equipa principal do MK Downs. A partir daí tudo se desenvolveu rápido, com o centrocampista a ser eleito a revelação de 2014/15 na Football League e a ingressar no Tottenham, um dos maiores clubes do país.

Na verdade, Dele nunca esqueceu as suas raízes e continuou a apoiar em termos financeiros a mãe e os irmãos à medida que a sua carreia foi progredindo. O impacto no Tottenham foi imediato e rapidamente se tornou numa das maiores estrelas do clube e da própria Premier League. Tornou-se igualmente internacional A pela Inglaterra e no 2.º jogador inglês mais jovem de sempre a marcar em Mundiais (22 anos), apenas atrás de Michael Owen (18). No entanto, a partir daí a carreira de Dele entrou num impasse até o seu destino se cruzar com José Mourinho. Dele ia jogando, mas deixou de ser chamado à selecção e há muito que não se conseguia exibir ao seu melhor nível. O português pediu-lhe para jogar como ele próprio e não como um “irmão do Dele Alli” e o médio correspondeu em pleno. Com o Special One ao seu lado, voltou a sorrir e a sentir-se importante no norte de Londres, tendo tido impacto desde a estreia de Mou com o West Ham. Desde aí apontou cinco golos num mês (já igualou os 7 da época passada) e resolveu recentemente a partida com o Brighton com um golaço. Certamente que, após ser descartado por Southgate desde Junho, Dele reentrará nas contas para o Euro 2020 porque tem talento e capacidade para figurar entre os convocados.

Apesar do sucesso profissional, Dele nunca perdoou o pai, acabando mesmo por deixar de usar o apelido Alli na camisola e por estampar apenas o nome Dele em cima do seu 20. Descendente da realeza tribal africana, sendo um príncipe da tribo Yorubá (o seu avô era rei), uma das maiores da Nigéria (representa mais de 20% da população do país) e que tem privilégios e influência na política do país, Dele nunca quis essa coroa (também por isso rejeitou representar a Nigéria e foi assobiado num amigável, em 2018) e vai-se mantendo focado no jogo. A porta para o passado está, por isso, fechada, e é no relvado que Dele vai abrindo brechas nas defesas adversárias e mostrando o propósito com que nasceu. Não foi o percurso normal, mas foi o possível e, aos 23 anos, certamente que Dele não quererá ficar por aqui.

Rodrigo Ferreira

7 Comentários

  • Miguel SADSC
    Posted Dezembro 27, 2019 at 10:37 pm

    Não sou adepto dele enquanto jogador. Acrescenta zero ao jogo para além de chegada à área (e aí é excelente). Chateia-me até ser referenciado como médio quando é claramente um avançado (à semelhança de Muller). Não desequilibra com passes a rasgar, perde bolas com uma facilidade incrível (e muitas vezes em zonas perigosas) devido à displicência com que joga e contribui zero defensivamente. A finalizar e a aparecer na área é fantástico mas é muito curto.

    • El Pipito
      Posted Dezembro 27, 2019 at 11:31 pm

      Já viste o Dele Alli que tem jogado ultimamente? Tem acrescentado muito mais para além da chegada à área.

    • Tiago Silva
      Posted Dezembro 28, 2019 at 12:26 am

      Concordo. Tem um má qualidade técnica soberba, diria que é um dos jogadores da Premier League com maior qualidade técnica, mas esconder-se demasiado do jogo e acrescenta muito no último terço, mais pela sua chegada à área do que pela forma como se entrega ao jogo e contribui para o coletivo. Acho-o um jogador que precisa de estar bem envolvido na equipa para render, aí sim é espectacular como tem mostrado.

      Quanto à sua história, é fantástico, emocionante, aqueles seus pais adotivos deram-lhe força para lutar pelos seus sonhos. Haja mais gente como eles!

    • Goncalo Silva
      Posted Dezembro 28, 2019 at 12:31 am

      Claramente só viste a época passada dele. Ele é muito mais que isso.
      Sendo adepto do Tottenham, até te digo mais, para mim é o jogador com mais técnica do plantel, mais que Eriksen, Lamela ou Son.

  • DICAS
    Posted Dezembro 28, 2019 at 1:24 am

    Só tenho uma coisa a dizer …

    Este menino é muuuuuito craque !

  • André Dias
    Posted Dezembro 28, 2019 at 2:04 pm

    Desconhecia por completo este passado de Alli. Post bastante interessante.

    Não é um tipo de jogador que aprecie particularmente. De vez em quando destaca-se com os seus golos de meia distância mas passa demasiado tempo desaparecido do jogo. Não pressiona, não faz passes de ruptura, não reage à perda de bola e não tem a consistência necessária para ser considerado um jogador de topo.

    Com Mourinho teve jogos que foram a excepção a esta regra. Além de acrescentar o seu nome à folha de marcadores de uma forma que já não se via há alguns meses, assumiu a batuta na organização ofensiva com inteligência na tomada de decisão e qualidade técnica nos seus passes. Era bom ver mais deste Alli e Mourinho até costuma extrair o melhor dos seus médios ofensivos, vamos ver como será o resto da época.

    Só uma correcção, é MK Dons, não Downs, mas deduzo que o corrector automático tenha pregado das suas.

  • feelfreeyouare
    Posted Dezembro 28, 2019 at 4:54 pm

    A ser verdade o que li o Alli tinha muitas razões para ser muito mais humilde e trabalhador do que é. Nos treinos nunca é o mais esforçado, quanto mais nos jogos. Não se destaca pelo profissionalismo (muitos jogos em que perde e não cumprimenta os jogadores adversários no final do jogo) e por isso não merece, até agora, o hype que se criou à volta dele. É muito convencido para o que já fez e para a idade que tem.

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