“Normalmente dizemos que não é possível virar lenda antes de morrer. Mas eu sou uma lenda viva.”
Divino – De Deus ou relativo a Deus, sobrenatural, sublime, perfeito, encantador, celestial, magnífico, supremo, sagrado, superior. Difícil definir-te numa palavra, quando encaixas em tantas ao mesmo tempo. És tudo e mais alguma coisa. Na tua forma singular de jogar e de estar, de reagir, de falar, de marcar o teu espaço, na tua presença incontestável e forte, que intimida e inspira em simultâneo, que provoca, que arrepia, que faz sorrir e chorar agora, na hora do adeus. Que bom foi ter-te por aqui, connosco, seres moribundos e desprovidos desse teu talento, desse génio, dessa paixão inabalável pelo jogo, o nosso, mas que é muito teu, que te fez suar e sofrer para superar a dor aos 41 anos, para sair de pé, aplaudido, como mereces, em San Siro, a tua casa, aquela onde não nasceste, mas que fizeste questão de abraçar, por duas vezes, para entrar e de nunca lá sair. Será sempre a tua casa. Alegria é a palavra, aquela que sentimos em cada golo, em cada olhar, que intimida e convence, que nos leva contigo, atrás de ti, quais soldados na frente de batalha. Para cima deles. Contigo vamos sempre. Não interessa quantos são, de onde vêm, quanto custaram, se ganharam muito ou pouco. Contigo é sempre possível, mesmo quando é difícil e a esperança se reduz na casa de partida. Sonhar está sempre no horizonte (ou não fosses tu o próprio sonho), como a fome, a vontade, a ambição de ser o melhor e que arrasta os outros contigo. É por isso que eles te agradecem, os meninos, que choram como bebés, em pleno relvado, quando sentem a tua falta e ainda estás à sua frente. Conferiste-lhes a honra da tua presença em mais uma ocasião, a última, no relvado sagrado, onde tantas vezes encantaste com a tua técnica e a beleza estética de um gigante com pés de príncipe. Que dicotomia maravilhosa. Um príncipe, mas daqueles que não gosta de mordomias e de criados. Não precisas de ninguém. Estás sozinho, sempre estiveste, zangado com o mundo, com a tua aura, a dos inatingíveis, do outro lado da fina camada de gelo, que está ali tão próxima, mas que nunca quebra e não permite que te alcancem. Ninguém te deu nada, superaste os testes todos, inclusivamente aqueles que recusaste quando te ousaram desafiar. No silêncio da tua alma há igualmente espaço para o barulho, para a versão rockstar, que emerge e se enfurece com a normalidade, a banalidade, o politicamente correto. Não há dias de acalmia contigo. É preciso agitar as águas, tocar a música ao teu estilo, combater a neutralidade, marcar uma posição. Há ainda tempo para vencer. E foram muitas as vezes e os lugares em que venceste. Dizem que faltou a Liga dos Campeões e a Bola de Ouro. Não faz mal, não precisas disso. São eles que ficam a perder por não te incluírem na lista. Todos se lembram de ti, todos sabem quem és, inclusivamente na Ligue 1, e troféus não faltam para colocar na tua vitrine. A Helena não te deixa colocar fotos lá em casa (só dos pés, eu sei), mas seriam necessárias duas salas para cobrir tantas conquistas. E que fotos bonitas haveria para lá colocar, na Era de muitos aspirantes, mas onde apenas existe espaço para um Deus. Aquele que tocou a Terra, magnânimo perante os que o respeitam, implacável com os que o enfrentam. Alguns têm medo, não se atravessam no teu caminho, talvez por saberem que não estão à altura de pisar o mesmo chão que tu. Chão esse que fica agora mais pobre, como um relvado sem bola, a outra estrela do jogo, que te respeita e não chora no teu dorso, que cola como íman e se estende pelo teu corpo, numa ligação umbilical. Terá saudades tuas, como nós, comuns mortais e seres terrenos, órfãos da tua singularidade, do teu estilo próprio, que não é sueco nem jugoslavo, mas único, eterno e irrepetível. For AlwaIZ. Godbye.
Rodrigo Ferreira


12 Comentários
Christian "Chucho" Benítez
Quando Zlatan jogava, o mundo parava e via.
Santander
Enorme texto, para um enorme atleta. Continuo convicto de que a geração de Messi e Ronaldo, será sempre uma das mais injustiçadas da história e Zlatan será, porventura, o maior rosto dessa mesma injustiça. Um jogador lendário e apesar de todo o reconhecimento sinto que este ainda não faz jus à dimensão que deveria ter..
Neville Longbottom
Caro Santander! Para quando um visao de leitor?
Cumprimentos
DICAS
Nesta fase que começo a ter mais outras preocupações que futebol fico eternamente grato de o meu período em que estive mais ligado tive esta lenda viva a juntar a outros craques como Ronaldinho, Ronaldo zidabe Giggs Scholes nedved Barros del pierro Henry Ronaldo Messi deco Figo Beckham vieira makelele e tantos outros
Obrigado Zlatan por seres dos que me fez amar este desporto antes do tempo em que os craques estavam todos concentrados em só 3/4 equipas
Park the Bus
Sai um 99 PL nos SBC do Fifa!
End of and era.
Paulo Roberto Falcao
Excelente texto, percebe-se que é um ídolo teu que se despede, e acho que lhe dás as honras merecidas.
Pessoalmente nunca foi santo da minha devoção, reconhecendo embora que era um grande jogador. Acho que o fracasso relativo da sua passagem por Barcelona acaba por marcar a sua carreira, porque teve a oportunidade de se afirmar numa equipa lendária, e não teve o nível para se afirmar naquele Barça. Havia um Messi irreal e no auge, e isso perturbou claramente o seu Ego, mas acima de tudo aquele estilo de jogo coletivo não colava com o seu futebol.
Pareceu sempre dar a ideia que só se afirmou verdadeiramente onde foi um líder a solo e indiscutível, sempre que enfrentou jogadores com muito Ego. E também não sei se foi inteiramente compreendido pelas suas equipas, é estranho que o Inter tenha melhorado e ganho tudo depois da sua saída, sendo eles duzentas vezes melhor avançado que o Milito. A prova que um mais dois nem sempre são três.
Talvez se não tivesse aquele ego e aquela bazófia talvez pudesse ser mais bem amado como jogador, mas colocá-lo ao nível do Top 3 deste século parece-me claramente exagerado, para além de Messi e Ronaldo, ele não foi melhor que Iniesta, que Xavi, que Benzema ou que Modric, só assim de memória. Grande jogador sem dúvida, mas sem esse hype todo.
Paulo Roberto Falcao
A Four Four Two não o meteu nem no Top 10 deste século, na sua lista, tendo escolhido
.
E sim a lista foi feita em Fevereiro deste ano.
Neville Longbottom
Acho que a lista tem 10 nomes fortíssimos também.
Paulo Roberto Falcao
Sim e é sempre difícil escolher.
Cossery
São nomes fortíssimos, mas eu punha o Ibrahimovic aí, talvez em sétimo.
Paulo Roberto Falcao
Sim também estou de acordo, melhor que os da parte debaixo creio que foi, mas fazer uma lista é sempre complicado. Sei lá considero Ronaldinho e Zidane dois Et’s, dois jogadores incríveis e estratosféricos, dizer que foram dois génios não é de modo algum exagerar, e no entanto eram os dois tão diferentes. Acho impossível escolher entre a elegância, maestria, inteligência de jogo, capacidade de ler uma partida de Zidane, e a genialidade pura de Ronaldinho, que para mim foi o jogador mais incrível e natural que vi na vida. São os dois do mesmo nível, mas muito deferentes, não dá para escolher um deles.
El Bandido
E ainda há vários que na minha opinião estão acima… Lahm, Benzema, Dani Alves, Modric, o Fenómeno…