Os tempos estão a mudar em Stamford Bridge. No último verão, Conte foi substituído por Maurizio Sarri, mais precisamente a 14 de Julho. Até aos dias de hoje, tal se consuma em cerca de dois meses e meio de trabalho. Havia muitas dúvidas relativamente à compatibilidade entre o estilo do italiano e o perfil do plantel, que possuía jogadores bastante específicos para o futebol do antigo treinador. As únicas adições, embora dispendiosas, já se coadunam com o selo Sarri. Kepa e Jorginho são atletas que se sentem confortáveis com a bola no pé. O guarda-redes, apesar de ainda não estar ao nível de Courtois, é superior no jogo de pés e garante praticamente a mesma segurança entre os postes. O médio era o pêndulo do Nápoles e a extensão do treinador em campo. Era ele que controlava todo o jogo da equipa, principalmente no capítulo do primeiro passe. As funções do agora jogador do Chelsea continuam a ser exactamente as mesmas. É ele que normalmente recua para iniciar a construção. Além disso, quando Kanté e Barkley/Kovacic lhe dão oportunidade, continua a encontrar brechas na defesa adversária, mesmo a partir de terrenos mais adiantados. Kovacic é um jogador diferente destes dois: destaca-se no momento sem bola, onde a sua capacidade de preencher os espaços se faz valer. No entanto, quando em posse, é capaz de atuar como um transportador de bola, dotando a equipa de outras valências diferentes das dos restantes médios.
Contudo, a maior virtude de Sarri não foi trazer jogadores que se adequam ao seu estilo de jogo, mas sim mudar o chip dos que encontrou em Londres. David Luiz deixou de ser um proscrito para se tornar uma peça-chave na primeira fase de construção. Marcos Alonso manteve o lugar de destaque, principalmente a nível ofensivo. O seu papel no esquema de Conte era dar profundidade à ala esquerda, mas com poucas responsabilidades defensivas, já que era secundado por três centrais e dois médios. Ainda continua a ser importante, mas tem de ter em atenção o espaço que deixa nas costas. Ainda assim, ofensivamente, continua a combinar bem com os médios e extremos, a aparecer no pico da área e a atacar a profundidade nas costas da defesa, finalizando jogadas.
Mesmo com esta dinâmica, é o sector defensivo que mais problemas está a causar. O espaço entre o lateral e o central, mais do lado de Alonso do que do de Azpilicueta (que voltou à lateral), é sempre imenso e é por aí que as equipas atacam. A bola é colocada nessa zona do terreno e um jogador vai à linha de fundo cruzá-la para que alguém finalize no centro da área. Além disso, se a construção for bastante pressionada pelo adversário, faltam alternativas que não sejam o despejo da bola no meio-campo contrário.
Dos médios, foi Kanté aquele que mais alterou a sua função. Deixou de ser um médio recuperador de bolas para passar a ser um verdadeiro box-to-box, com funções bastante mais ofensivas. Não é raro ver o francês entre linhas, muito mais próximo da área do que alguma vez esteve, a fornecer apoios aos companheiros. Sente-se bastante mais confortável quando encontra Willian na ala, já que o brasileiro, quando joga na direita, fica mais perto da linha e o francês fica com mais opções para realizar combinações, algo que não acontecia com Pedro. O espanhol procurava muito mais as costas da defesa e o centro do terreno, o que obrigava Kanté a ter um raio de ação muito mais alargado.
Inicialmente, eram Willian e Pedro os titulares nas alas. Jogavam a pé trocado, sendo que o último tinha maior liberdade para explorar todo o campo, ao passo que o primeiro fazia o movimento de aproximação à zona central, de forma a desequilibrar com a sua criatividade. Como as todas as linhas do Chelsea jogam bastante juntas, há muito espaço a ser explorado nas costas da defesa pelo espanhol e também por Marcos Alonso, que beneficia dos movimentos interiores de Willian. Só que aqui já ocorreu uma mudança. O ex-Barcelona saiu do onze para dar o lugar a Hazard, o jogador-estrela da equipa. O brasileiro passou para a direita, a sua posição de origem, e onde desempenha o papel de um extremo mais convencional, e o belga é o extremo esquerdo apenas em teoria. O que realmente se observa é que ele deambula por toda a frente de ataque, quer recebendo entre linhas e arrancando em drible, quer desmarcando-se de forma a aproveitar a profundidade deixada pelos defesas contrários.
Isto também só é possível porque o ponta de lança é Giroud. Sarri ainda tentou colocar Morata nesta função, só que o ex-Real Madrid é mais um finalizador, e o italiano pede que o seu homem mais adiantado seja muito mais combinativo. A resposta ao problema foi o ex-Arsenal, um dos maiores especialistas em jogar de costas para a baliza, recebendo a bola e passando-a logo de seguida a um colega. É necessário um avançado assim para que o jogo se torne mais fluído.
Para já, o percurso do Chelsea tem sido pautado pela regularidade, como atestam os resultados desde o início da época. Apenas perdeu com o Manchester City para a Community Shield e empatou para a Premier com o West Ham e Liverpool. A marca Sarri já se nota de forma bastante clara no clube londrino apenas com dois meses e meio de trabalho. De um futebol defensivo e posicional passou-se para um modelo de transição rápida e de constante movimentação e exploração de espaços. Não é um milagre, é fruto da ideia de um homem inteligente e capaz de a incutir mesmo em jogadores “incompatíveis”. Os tempos estão a mudar em Stamford Bridge. Rapidamente.
Rui M. Teixeira


10 Comentários
Visão de Mercado
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Kostadinov
Já era um dos melhores do mundo em Itália em termos de conceito de jogo e da forma como conseguia transportar as suas ideias para as suas equipas, e isto já vinha dos tempos do Empoli. Mas é excelente estar a ter um palco maior para o demostrar.
RodolfoTrindade
Excelente post!!!
Neste momento David Luiz voltou a ser o melhor central da liga inglesa juntamente com Van Dijk!
André Dias
O próprio Sarri admitiu que a sua equipa iria demorar cerca de 3 meses para praticar o futebol que ele pretende. Ofensivamente este Chelsea tem estado muito bem mas a nível defensivo ainda não está no ponto, principalmente no espaço que deixa entre linhas, o que acaba por ser normal dadas as circunstâncias. Com Conte a equipa jogava demasiado recuada com apenas 1 ou 2 referências ofensivas, Sarri pretende que a equipa inteira jogue subida no terreno para ocupar o meio campo adversário mas a linha defensiva ainda não está adaptada a essa filosofia e naturalmente ainda não encurta bem o espaço atrás dos médios.
Em relação a Kepa e Jorginho, foram excelentes contratações. Kepa pelo seu jogo de pés e Jorginho pela inteligência táctica que acrescenta ao meio campo. O italiano conhece as ideias de Sarri e sabe exactamente o que o seu treinador exige em campo, penso que foi importante para que os seus companheiros assimilassem essas mesmas ideias e se adaptassem tão rapidamente a um futebol complexo a nível de processos, daí o Chelsea se apresentar uma máquina surpreendentemente bem oleada em tão pouco tempo.
Ricardo Teixeira
Confesso que detesto o Chelsea, mas o facto de o treinador ser Maurizio Sarri e de os Blues terem Hazard, leva-me quase que por obrigação acompanhar o seu percurso.
Estamos a falar de um dos melhores treinadores do mundo, aquele que tem uma ideia e uma tipologia de jogo e se preocupa em jogar, em dar espetáculo. Creio que o Chelsea fará uma época tremendamente positiva e quem sabe até fazer alguma “gracinha”.
MiguelF
Excelente post!
Este Chelsea de Sarri é uma equipa a acompanhar e a verdade é que estão a praticar um bom futebol em que a tendência será melhorar aos poucos.
Para mim Sarri é dos melhores treinadores da atualidade e acredito que o Chelsea com o italiano ao leme possa evoluir bastante.
Depois de Manchester City e Liverpool considero o Chelsea a equipa mais bem colocada para lutar pelo título.
Tiago Silva
Excelente post que retrata muito bem o que é o Chelsea de Sarri. O seu maior problema é não ter grandes alternativas em termos de estilo de jogo, mas a sua ideia é muito boa, muita pressão na frente, a construção a começar desde bem de trás e a estrela a deambular pelo campo, Hazard tem brilhado imenso e o futebol de Sarri está a beneficiá-lo. As suas movimentações também só são possíveis com um inteligentissimo Kovacic e um Giroud que não tem igual. Penso que são candidatos à Premier League.
Fernando neves _36
Ainda me lembro de um user que dizia que o Sarri não ia ter sucesso no Chelsea, o que me ri nessa altura.
Excepto o Liverpool e o City é a equipa que melhor joga na Europa e é apenas o 1 ano de Sarri, muito cuidado com este Chelsea no futuro.
Kafka
Só mais um acto de pura incompetência da direcção do Barça ao deixar passar este treinador
josevilela
Era o treinador perfeito para o Barcelona, mas preferem investir sempre em incognitas.