Quando Bruno de Carvalho, acompanhado e apoiado por Carlos Vieira, Fernando de Carvalho, Rui Caeiro, Luís Roque e Luís Gestas, anunciou na noite de quinta-feira que não se demitia da presidência do Sporting, fiquei à espera que uma lira fosse tirada debaixo da mesa para todos cantarem em uníssono O Saque de Troia. Apesar dos acontecimentos que marcaram esta semana pelos piores motivos, a decisão não surpreende, já que os 90% de apoio dos sócios conseguidos na última Assembleia-Geral legitimam – para o bem e para o mal – a continuidade da direção até à próxima votação (e, pela mesma lógica, uma recandidatura em caso de eleições antecipadas não é de descartar). O que mais impressiona é a capacidade de contorcionismo do presidente numa altura em que as paredes se fecham por todos os lados. O conteúdo das declarações, reduzindo a crescente contestação e acusações de corrupção a um “ataque interno e externo sem precedentes”, demonstram que Bruno de Carvalho se desligou voluntariamente da realidade, desvalorizando as saídas de membros que fizeram parte das listas que ele próprio encabeçou, os pedidos de demissão por parte do principal acionista privado da SAD, e a total perda de confiança dos jogadores e equipa técnica de futebol. Bruno de Carvalho afirma-se focado num objetivo que aos seus olhos é altruísta, o de salvar a instituição Sporting numa altura em que há um final por disputar, empréstimos obrigacionistas para ser emitidos e uma nova época para preparar; mas para os opositores isto é uma atitude digna da personagem Petyr “Mindinho” Baelish n’ A Guerra dos Tronos: se for necessário incinerar o mundo todo para ser Rei das Cinzas, pois assim seja.
As consequências da decisão tomada ontem – na última oportunidade para Bruno de Carvalho sair com a pouca dignidade que lhe restava – começarão a ficar claras para o Sporting logo após o final da Taça de Portugal e durante o dia de segunda-feira, que poderão passar pelas temidas rescisões por justa causa dos jogadores e equipa técnica e a batalha legal que se seguirá, e que conduzirá à perda dos principais patrocinadores e retirada de acionistas, provocando um afundar catastrófico na Bolsa. Mesmo que um ou vários destes cenários não se consolidem, muito dificilmente a centenária instituição de Alvalade continuará a funcionar nos moldes em que a conhecemos. E o desporto em Portugal também.
Pode gritar-se a plenos pulmões que “o Sporting não é isto”, mas neste momento o Sporting é isto, uma imagem manchada a nível nacional e mundial. As novas e futuras gerações irão crescer com histórias desta turbulência, de uma referência desportiva caída na desgraça de permitir que os seus atletas fossem brutalmente agredidos durante um treino nas suas próprias instalações, que membros da direção fossem constituídos arguidos em casos de corrupção, e que um presidente minimizasse e recusasse as consequências do momento, preferindo antes abrir mais guerras com sócios do clube e provocar altas figuras do Estado. Quem é o jovem que neste momento quer apoiar ou representar um clube assim, seja em que modalidade for? E quem é o encarregado de educação que, de consciência tranquila, o aponta para as portas de Alvalade?
Esta realidade também trará consequências para o futebol e desporto português, mais cedo ou mais tarde. Alguns adeptos rivais podem regozijar-se, seja em tom jocoso ou sério, com a crise do Sporting, mas a competitividade interna e externa do futebol português sofrerá um impacto tremendo, tanto a nível de clubes como seleções e não se limitando apenas ao futebol. Senão veja-se o caso da Escócia, quando a insolvência do Glasgow Rangers em 2012 obrigou o clube a recomeçar praticamente do zero. Isto abriu o caminho à hegemonia do Celtic, sete vezes campeão nacional com bastante facilidade, provocando algum comodismo na construção de plantéis competitivos, o que se refletiu nas campanhas europeias em que os resultados são cada vez mais desapontantes. O Euro’16 é outro exemplo sintomático, já que contou com a participação de Inglaterra, Irlanda, Irlanda do Norte e País de Gales mas não da Escócia, apesar de ser a segunda nação com maior tradição no desporto-rei do Reino Unido. A formação do futebol escocês já se encontrava em crise há mais de uma década, e a queda (temporária) do Glasgow só a veio acentuar. E isto foi provocado “apenas” por uma crise financeira de uma instituição onde apenas se pratica futebol, enquanto o Sporting, referência nacional e internacional em dezenas de modalidades, vai juntando a crise desportiva e jurídica ao ramalhete, arrastando consigo outros clubes, direta ou indiretamente. Também as seleções nacionais sentirão as vagas deste terramoto, já que a formação leonina é um dos pilares essenciais, e se já referi que arranjar atletas no futuro pode tornar-se complicado, o mesmo se pode dizer dos milhares que representam as cores verde e brancas neste momento mas já pensam duas vezes se isso será o melhor para as suas vidas profissionais e pessoais.
Ninguém pode retirar os méritos da presidência de Bruno de Carvalho, principalmente nos anos imediatos pós-Godinho Lopes, quando o clube estava moribundo desportiva e financeiramente. Contudo, o último ano de BdC desfez muitas das suas boas acções (só não foram todas porque o Pavilhão João Rocha ainda se encontra de pé), e o futuro é mais preocupante do que nesse pós-Godinho. Quem vier a seguir – ou quem ficar – terá nas suas mãos um clube em risco de insolvência, com a equipa de futebol talvez na I Liga, quem sabe sofrendo pontos de penalização, ou num cenário mais negro competindo numa divisão inferior. Certo mesmo é que quem vier – ou ficar – encontrará uma instituição desportiva sem credibilidade junto de atletas, adeptos, investidores, patrocinadores, comunicação social, clubes rivais, organizações estatais… em suma, sem credibilidade junto de tudo. E esse é o maior desafio para quem vier – ou ficar – e para quem os elege, recuperar a credibilidade para bem de Todos, independente da preferência clubística ou modalidade que se goste mais. O futuro do Sporting e do desporto em Portugal está em jogo, resta esperar que os sócios saibam decidir e votar com isso em mente. E, se não for pedir muito, que o possam fazer com as condições de segurança que jogadores e equipa técnica não usufruíram no dia 15 de Maio.
Sérgio Pereira


14 Comentários
JoseRibeiro
Eu acho incrível como ainda existam Sportinguistas que continuam a usar argumentos desportivos e financeiros de modo a defender BdC, ignorando por completo que ele sozinho destruiu o seu legado e possivelmente o futuro do Sporting desde a última fatídica AG. É que literalmente tirando os fanáticos que acham que tudo o que tem acontecido é obra do Benfica/Correio da Manhã e que vivem apavorados com o regresso dos croquetes, é impossível alguém achar que o clube pode ter futuro com um Presidente que torna impossível formar um plantel de futebol (exceptuando outras situações).
Abilio
Se o Bruno de Carvalho se voltar a candidatar ganha com mais de 80% dos votos… por isso acho que nada vai mudar
Jardel42
Só se for 80% de votos contra ele.
Abilio
Gostei desse exemplo do Rangers. Também era um gigante e caiu, como a Fiorentina também caiu… e como o Sporting também vai cair se na segunda os jogadores rescindirem. Mas acho que os sportinguistas ainda não perceberam isso
Estigarribia
Excelente texto, Sérgio Pereira.
Este Sporting Clube de Portugal, desta criatura aberrante, não é o MEU Sporting Clube de Portugal, aquele Sporting por quem torcida na Taça UEFA, em 2005, na Liga Europa em 2011/2012 ou nos dois títulos de campeão que festejei.
Eu quero o MEU Sporting de volta e não quero este Hannibal Lecter no MEU Clube.
Quero o Sporting vencedor de volta e quero que a criatura aberrante e as suas claques nojentas fora do Sporting.
Estes últimos dias são os piores dias da minha vida.
Saudações Leoninas. Acredito que o MEU Sporting Clube de Portugal vai-se reerguer e vai voltar dar-me alegrias.
rui_derrota
Luis Roque ou Luís Gestas, um dos dois vai ceder e o Sporting vai ser nosso!
Estigarribia
Sobre o Luís Gestas já ouvi que foi nomeado como novo responsável pelos núcleos… substituindo Bruno Mascarenhas.
CapitaoTsubaca
Geralmente gosto dos teus comentários, só não entendo porque é que dizes o “meu Sporting” de forma sistemática, de resto concordo contigo.
100Clubismo
Os apoiantes de BdC são tão, mas tão extremistas. Defendem-no como se de um Messias se tratasse, parece mesmo uma seita. O Azevedo é o líder supremo e todos devem prestar-lhe homenagem e dirigir-lhe as menções mais elogiosas. Isto faz-me lembrar um tipo chamado Kim Jong-un. Igualzinho!
Muitos deles são tão ou mais anti-Benfica do que Sportinguistas, achando que o SLB é a origem de todo o mal. No Twitter é um lamber de traseiro inenarrável, e lá é onde estão os maiores fanáticos das redes sociais.
Por um lado é triste ver os sportinguistas tão brainwashed, mas por outro, os brunistas merecem isto e muito mais, por serem acéfalos ao ponto de baterem sempre mesma tecla.
E o BdC vem atacar as principais figuras da Nação, por lhe terem ferido o ego. Mesmo apesar de algumas dessas figuras serem bastante questionáveis, para dizer o mínimo.
Parem de alimentar essa corja de dirigentes beligerantes, corruptos e egocêntricos, que manipulam as massas com o seu discurso populista e estranhamente apelativo. O futebol português precisa de uma limpeza, tanto no dirigismo, como na mentalidade. Isto para não nos tornarmos numa Turquia ou numa Grécia.
Marcio Ricardo
Excelente post. Amei a referência ao mindinho, mas BC não tem tanta categoria quanto o personagem de GOT.
El Pibe
Também acho que é maior falha deste texto, BC não é um Mindinho, é um Jofrey!!!
R1906
Bruno de Carvalho não só vai sair do Sporting de uma forma feia, como vai sair e vai directamente para a prisão. Para mim existem poucas dúvidas. O ataque foi planeado por ele, correu mal, porque os jogadores não se devem ter ficado. A história do BMW, câmeras, facilidades da segurança, enfim.
Nojento!
DNowitzki
Mts sportinguistas sp cultivaram aquela ideia abjecta de uma superioridade moral sobre os rivais, como se fossem dotados exclusivos de um gene que os colocava num patamar superior
Não, não são. Talvez seja fruto de uma origem supostamente mais elitista. Basta atentar nos presidentes que tiveram nos últimos 30 anos e compará-los com os do SLB.
Dito isto, BC associou o Sporting ao lamaçal que é o futebol em Portugal com a história da Academia e as acusações de corrupção.
Podem ser todos inocentes, mas, na contemporaneidade da Internet, jamais se livrarão da mancha. E a culpa é do seu presidente.
José S.
Bom post.
Pouco há mais dizer sobre o assunto que não tenha sido falado ou debatido e por isso vamos ter que esperar para ver o que acontece nos próximos dias.
Cumprimentos