Nos dias que correm, para chegar ao sucesso vale quase tudo. O mercado de transferências quase não tem datas, a especulação é ininterrupta e durante todo o ano se fazem conjecturas do futuro deste e daquele jogador. Conjecturas que culminam com transacções de largas dezenas de milhões de euros por parte dos clubes mais poderosos, com o intuito de conquistar a glória, época após época.
Mas o que valem todos estes milhões que “engoliram” o futebol? Mesmo quando se alcança o sucesso? Sucesso muitas vezes efémero e insustentável. O que valem todas as mudanças, todos os fluxos de transferências? Como medir realmente o custo e, muitas vezes, a perda da identidade de um clube?
Ano após ano, a Bombonera não muda. Ano após ano, as arenas turcas e gregas continuam o inferno na terra. Ano após ano, a identidade destes clubes, muito por força dos adeptos, mantém-se imutável. Ano após ano, a identidade dos principais clubes agitadores do mercado… altera-se. É fácil distinguir o que desperta a paixão de um adepto do Boca. No entanto, torna-se mais difícil descobrir o que motiva um adepto do City ou do Chelsea. Tomo o exemplo destes últimos por serem especialmente compradores. Ponho o Barcelona fora do saco. Apesar dos gastos, mostra identidade e uma política clara: “plantar para colher frutos”: leia-se, a cantera. Tal como o faz o Ajax. Não importa se por obrigação e rigor financeiro, se por opção desportiva propriamente dita.
O que orgulha um adepto do Real Madrid, PSG, City ou Chelsea? Ganhar a todo o custo? Ganhar com grande parte de jogadores estrangeiros? Ter uma equipa sem identidade definida? Como vive o seu clube um adepto do Newcastle ou do Arsenal onde reinam os estrangeiros? Como olha um adepto português idoso para o Benfica quando diz: “só estrangeiros, já não conheço os nomes dos jogadores”. Os adeptos são a identidade de um clube, e têm de se identificar com o mesmo. Numa visão romântica, o futebol deve ser paixão e amor à camisola muito antes do amor à carteira.
Urge que as regras de fair-play financeiro sejam mais restritas. Urge que os clubes formadores sejam protegidos. Urge que se tomem medidas e se limitem estrangeiros e se imponham limites mínimos de utilização de jogadores nacionais e formados nos clubes. Urge, a nível global. Sob pena que, de forma cada vez mais insustentável, o ouro se sobreponha à paixão.
Visão do Leitor (perceba melhor como pode colaborar no VM aqui!): Rafael Maçãs


0 Comentários
Anónimo
Parece-me que há aqui duas questões diferentes um bocado misturadas. Clubes como o Benfica, o Porto ou o real Madrid que têm muitos estrangeiros mas são equipas com muita tradição e com vitórias desde há muito tempo não podem meter-se no mesmo saco que os neo ricos franceses e ingleses. estes clubes têm uma história e uma identidade que foi construida durante mais de 100 anos e não apenas à custa de muitos e muitos milhões como acontece com o City ou o Chelsea. Porto, Benfica ou Real Madrid continuarão clubes históricos e emblemáticos sejam quais forem as mudanças que se façam, já estes quando se fechar a torneira do dinheiro voltarão à mediania.
Francisco
Anónimo
Exatamente, o facilitismo de misturar estas duas questões levou a um erro. Não se pode comparar os gastos de um Arsenal/Newcastle com os gastos de um City/Chelsea. Muito menos se pode comparar um Porto ou Benfica a esses clubes. A realidade é que o jogador português tambem mudou muito por fruto dos empresários. Miudos de 16 já saiem para um Chelsea ou Barça desta vida e que pode um clube fazer? A verdade é que Porto e Benfica tiveram imenso sucesso nas competições europeias fruto dos muitos jogadores estrangeiros . Um Porto, Benfica ou Real Madrid não apagam a sua historia por jogarem com muitos estrangeiros, em nada se podem comparar a um City/PSG ou Chelsea. Embora claro, a maioria das pessoas preferissem mais conterrâneos :)
Tiago
António Nogueira
Realmente têm razão quando falam em clubes que já têm história e essa já não se vai apagar, só que aqui a questão é que estes clubes (Benfica, Porto, Real, etc.) para continuarem a escrever a sua história com "tinta de ouro" têm de usar os argumentos dos "tubarões que nadam em dinheiro" e, por isso, perdem a sua mística (algo muitíssimo falado pelos adeptos do Benfica na última semana de campeonato, mas claramente sem clareza no seu significado) fazendo assim com que se juntem no saco daqueles que apareceram de um momento para o outro graças ao dinheiro que nós cidadãos "aplaudimos" cegos com a fartura alheia e que não nos lembrado que para ele ali estar já deve ter fugido das nossas próprias carteiras. Agradecia a troca de ideias da vossa parte.
Snakeofpain366OZ
Embora seja uma equipa com mais tradiçao, o Real Madrid na pratica esta a fazer o que PSG, City, Chelsea etc… fazem. Nao quero soar ofensivo mas penso que a razao pela qual destaca o Real é o facto de ter la os portugueses. Citando o que ja outra pessoa comentou aqui :"Nunca irei apoiar o Real por mais portugueses que la passem". E acho isto uma atitude de alguem que é íntegro e leal com os seus valores relativamente ao futebol e nao se molda em funçao das ocurrencias.
Anónimo
Concordo plenamente, excelente texto. Esses clubes ricos estão a estragar o futebol.
GonçaloMoreira
joao8
Uma verdade cada vez mais acentuada no futebol dos dias de hoje.
Excelente texto!
jp91
Eu, como adepto do Sporting, identifico me bastante com o artigo. Nos últimos anos não temos ganho nada e uma das poucas coisas boas que surgiram, ou reapareceram, foi a aposta na formação (descurada com G.Lopes). Se me perguntassem se gostava de vencer o campeonato e só ter estrangeiros no plantel diria que não, pois episódios como os de Elias, Izmailov, Jeffrén e outros metem me nojo. Os adeptos têm que sentir que dentro de campo as suas ambições e sentimentos estão a ser representadas por aqueles 11 jogadores.
Com isto não quero defender a teoria de ter apenas portugueses e jogadores da formação, mas acho que estes deveriam representar a maioria ou perto disso. O ideal seria ter dinheiro suficiente para manter as promessas e ir buscar estrangeiros de qualidade.
Anónimo
Não concordo com este tipo de post.
É preciso perceber e aceitar que o futebol é um negócio e que os tempos mudam…
Também de realçar por exemplo na linha: ''Os adeptos são a identidade de um clube, e têm de se identificar com o mesmo.'' Eu sou Francês, apoio o Porto em Portugal mesmo sem tendo nenhum Francês nem sendo Lisboa perto de onde vivo, e apoio o Dortmund na Alemanha…
Adeptos são mais do que os residentes…
Bruno Almeida
Anónimo
É exactamente aí que o autor do texto quer chegar.
Hoje em dia, ao contrario da paixão que se vive nos clubes que "mantêm a sua identidade", os clubes que preferem apostar em qualquer estratégia que os leve à vitória, trocando a identidade do clube por dinheiro, não atraem os adeptos por paixão, mas sim pelos titulos e vitórias.
Mas de que vale ser adepto de um clube sem identidade? O que estamos realmente a festejar no final da época? O sucesso dos jogadores estrangeiros que não sentem o clube e no final da epoca querem mudar para ir ganhar mais dinheiro? O sucesso dos magnatas donos do clube?
Ou por outro lado, estaremos a festejar o sucesso dos jogadores que desde pequenos vivem o clube, e levaram o clube da sua terra à glória?
Há clubes que servem os adeptos e há clubes em que os adeptos são basicamente consumidores.
João
LuisRafaelSCP
Post muito bonito, e com o qual concordo com muitas coisas, mas que na prática não funciona assim. Os clubes grandes vivem de títulos… basta olhar para este mesmo blogue, e para outras zonas de comentários, onde o Sporting, sendo um clube formador, é alvo muitas vezes de chacota porque não vence um campeonato à X anos.
A verdade é que hoje os adeptos do City vivem muito mais felizes e satisfeitos do que quando à meia dúzia de anos andavam na 2ª divisão inglesa…
Anónimo
Olha que não, eu enquanto adepto do Sporting preferia milhões de vezes ir ver o meu clube jogar na 2ª divisão, lutar jogo a jogo, do que levar com magnatas do futebol a injectar milhões no futebol e dizerem-me que não me posso levar do lugar e ver o jogo de pé, não pode haver bandeiras no estádio, não se pode cantar, e que se lhes apetecer, nunca mais punha os pés no estádio.
Para mim o futebol é muito mais a segunda divisão, o viver cada jogo, do que festejar títulos ganhos por jogadores que o clube não lhes diz nada, onde o dinheiro é que ganha jogos.
João
Kafka I
Concordo com grande parte do artigo, com excepção da alusão a Benfica e Real Madrid, que é um facto que hoje em dia não são formadores e têm (dentro do respectivo contexto) vivido só à base de milhões e milhões de eur e muitos estrangeiros à mistura, agora são clubes com história e têm identidade própria, logo em momento algum podem ser postos no mesmo "saco" que o PSG, o City e o Chelsea, que são esses sim clubes sem identidade alguma, sem história, sem nada, e que estão na ribalta graças aos Oligarcas Russos ou Petrodolares das Arábias, mas que no dia em que os respectivos donos se fartarem de jogar FM da vida real, e fecham a torneira, voltam ao seu lugar habitual…
Snakeofpain366OZ
Na minha opiniao o facto do Real Madrid ser um clube com historia e tradição não retira o facto de neste momento serem apenas mais um PSG/City/Chelsea etc… Apenas são uma equipa que já tinha glórias passadas e mais prestígio, mas sao no fundo mais outra equipa que joga FM na vida real. Sem querer parecer um ataque pessoal mas acho que muita gente nos comentários destaca o Real Madrid porque são parciais em relação ao facto de jogar lá o Cristiano. Quero apenas lembrar que estou só a dar a minha opinião sobre o assunto, e isto não é de todo um ataque pessoal.
Kafka I
Entendo o que dizes, e não deixa de ser verdade, actualmente são jogadores de FM como o Chelsea, City ou PSG
Relativamente ao último parágrafo, eu concordo contigo, porque há muita gente que apenas é do Real só porque lá joga o Cristiano (o tipico falso adepto, porque quando o Cristiano de lá sair deixam de ser do Real), no entanto essa afirmação não é válida para mim, porque sou e sempre fui do Barcelona :)
luis
Isto dava um belo resumo da Premier League. O que é mais fantástico é estes clubes não gerarem sucesso externamente. Vemos Newcastle, Chelsea, City, Man Utd, Tottenham, Arsenal a gastar milhoes atras de milhoes, sem que isso signifique melhorias significativas na competitividade das equipas. As enormes receitas que estes clubes geram é resultado também de um modelo utrapassado onde o Boxing day ganha um papel de destaque, onde os jogadores são levados a extremos, não muito compreensiveis. Uns vêm o futebol atual, numa espécie de FM. Eu não. Se repararem bem, quem é que foram os melhores jogadores da BPL nos ultimos anos. C.Ronaldo, um jogador formado internamente. Bale que estava no Tottenham desde 2007, Kompany que estava no city desde 2008. Claro que ha Suarez, Drogba, Aguero entre tantos outros, mas qual seria o resultado se estes clubes apostassem efetivamente na formação?? Sterling teria alguma hipótese noutro clube, como os citados anteriormente. O pior é que as pessoas pensam que por estes clubes terem estes muito "pseudo craques"(O numero de flops falhados na BPL arrasa qualquer um), os jogos são melhores.
O modelo de gestão de um clube deve asentar em 3 premissas – rigor financeiro,identidade e modelo vencedor. É pena os clubes só adotarem o terceiro…
Anónimo
Concordo com a tua última frase, mas não podes por nesse saco o Arsenal. É sacrilégio dizeres isso de um clube que não tem um sugar daddy e que se preocupa tanto com a comunidade que o rodeia, tendo um caminho pautado pelo rigor financeiro, assim como pela identidade – que é indesmentivel – e com um modelo, umas vezes mais e outras menos, vencedor. Além disso, se há clube onde Sterling teria hipóteses era nos gunners, que aposta em jovens, como todos sabemos. Aliás, o Liverpool na última década foi um dos que mais gastou – e muito muito mal – apesar de ter mudado de política agora com o Rogers, e ainda bem!
De resto, tens pontos interessantes na tua abordagem :)
JG
Gus Ledes
Quem escreveu este artigo devia ir informar-se sobre o que foi a Quinta del Buitre e tentar perceber que a história tem vários ciclos, o Barcelona tem tantos estrangeiros como o Real Madrid, o Benfica foi o ultimo clube a admitir estrangeiros em Portugal, a tentativa de juntar estes clubes históricos aos clubes dos Petrodolares se não é ignorância só pode ser mal intencionada.
Anónimo
E há ainda uma pequena falácia no que diz respeito ao Arsenal, já que conta com Jenkinson, Gibbs, Wilshere, Ramsey, Oxlade-Chamberlain e Walcott, todos no plantel e – à excepção do primeiro – com muitas partidas a titulares, mas compreendo, uma vez que nos últimos 15 anos os que mais se destacaram foram estrangeiros. Na realidade City e Chelsea contam com menos britânicos. Além disso, o esforço feito pelos gunners é completamente diferente, uma vez que é um clube onde tudo se faz com o seu próprio dinheiro – veja-se o estádio, que não foi pago com fundos da sociedade – e não com a ajuda de um sugar daddy como é Abramovich ou o Mansour.
A título de curiosidade, Abramovich escolhei o Chelsea em 2003 porque foi esse clube que garantiu a entrada na Champions League na última jornada em detrimento do Tottenham. Caso o resultado daquela jornada tivesse sido diferente, não estariamos aqui a falar do Chelsea e todos os ganhos dos últimos 10 anos não teriam, sequer, existido e paravam no museu de White Hart Lane.
Não se enganem, ainda que o Arsenal compre jogadores – estrangeiros na sua maioria – é o que tem de fazer para lutar com os tubarões da actualidade, mas sempre com uma abordagem consciente e com harmonia financeira, tanto no clube, como na comunidade que o rodeia. Curiosidades que mostram bem as diferenças entre clubes e as pessoas que os fazem.
JG
Anónimo
Eu prefiro manter a identidade do meu clube do que vender a "alma" para ganhar a qualquer custo.
Isso é impagável…
O Sporting pode dizer isto, Benfica e Porto não, daí este post não ser tão familiar aos adeptos destes últimos.
E como mudar de clube é algo que não é, digamos, "humano", a dissonância cognitiva faz com que os adeptos procurem suprir aquilo que gostariam que fosse, aceitando o que é, mesmo que vá contra os seus próprios princípios pessoais de vida.
João
David Rito
Isso é conversa pra boi dormir, se soubesse o que é ganhar não diria isso, agarra-se a isso porque é a única coisa a que se pode agarrar, e já agora conte quantos estrangeiros passaram pelo Sporting na ultima meia dúzia de anos, mais de 100, se acha que isso é motivo de orgulho só porque os rivais que ganham troféus terem ainda mais jogadores estrangeiros força, está no seu direito.
Se for por aí há clubes dos distritais que só têm portugueses e também não ganham nada, já o Sporting só este ano tem 17 estrangeiros, porque nao torce por esses dos distritais?
Nuno R
Ao contrário de muitos, concordo em pleno com este comentário. O futebol actual está a criar um conjunto de adeptos de "vitórias" e de "estrelas" e não de clubes.
Um clube é mais do que um conjunto de jogadores, é uma cultura, são princípios, uma identidade. Eu jamais seguirei o Real, por mais Ronaldos ou Mourinhos que por lá passem. O futebol na sua essência não devia ser isso.
Os clubes estão transformados em entrepostos de atletas, hoje chega um envolto em glória, amanhã sai pela porta dos fundos. Depois há um conjunto de negócios, que envolvem criaturas nebulosas, míticas ou reais, ninguém sabe ao certo. Dinheiro, muito dinheiro, é a base do futebol, que suplantou aquela que era a base por excelência, o adepto.
Diogo Paraíba
tudo dito
afl!
Um post muito interessante e que reforça o que o bruno de carvalho tem vindo a tentar defender. Muito bom.