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Um Conto de Duas Cidades

Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a época dos dois grandes jogadores, era a época dos “outros” jogadores, era a altura das grandes equipas, era a altura do resto das equipas, era a temporada da técnica, era a temporada da força, houve tudo antes delas, não houve nada antes delas.
Barcelona e Real Madrid encontram-se hoje naquilo que, por muito que eles joguem, parece ser o evento futebolístico do ano. A cada jogo a narrativa muda e o embate torna-se novamente interessante, novamente imperdível. É um pouco como os “Comic Books” Americanos do Super-Homem e do Batman. São os mesmos heróis, os mesmos vilões, só muda a história principal.
Está nos genes espanhóis, esta rivalidade. É Castela contra a Catalunha. É Madrid contra Barcelona. A força do estado contra a luta dos oprimidos. O clube do regime contra “mais que um clube.” Está também intrínseca na humanidade, esta rivalidade. É nobreza contra o povo. É o talento contra o músculo. É comprar contra criar. Curiosamente, e sendo também profundamente uma rivalidade do mundo do futebol as características neste meio são diferentes. O mundo do futebol não se rege pelas regras do Homem ou de Espanha. Nele, a realeza não é Real. Mas já foi. O Real Madrid ganhou as 5 primeiras Ligas dos Campeões, Taças dos Campeões Europeus na altura, afirmando-se como o clube mais forte do velho continente. O jogador que desequilibrava nesse tempo era Alfredo Di Stéfano. O Barcelona tinha contratado o argentino ao River, detentor efectivo do seu passe, mas o Real negociou com os Millionarios da Colombia, clube onde ele jogava. O ministro do desporto espanhol decidiu que o atleta jogaria um ano em cada clube, imposição que o Barcelona prontamente rejeitou. Assim, uma rivalidade amigável passou a ser de morte. A primeira eliminação europeia do Real aconteceu ironicamente às mãos, ou pés, dos catalães, que depois perderam com o Benfica na final da Taças dos Campeões em 1961. Apesar da pequena vingança, a verdadeira viria algumas décadas depois. No final dos anos 90 e início dos anos 2000 o Barcelona afirmou-se como o clube mais forte da Europa. A equipa passou a ser o exemplo idílico do futebol moderno, o esqueleto da selecção mais ganhadora de sempre e a paixão de imensos amantes do desporto. Os madridistas nunca chegaram realmente a compreender o que se tinha passado. De repente o seu clube era menor. O outro adorado. O Rei já não mandava, o regime havia mudado. Mas a verdade é que o Real nunca deixou de se sentir superior e por isso perdia, muitas vezes por grandes margens, na maioria dos confrontos directos. Desde a época 89/90 o record entre as equipas na liga é de 21 vitórias para o Barça, 13 vitórias para o Real e 13 empates. Se pensarmos que o total é de 69 vitórias para o Real, 65 para o Barcelona e 31 empates, alguma coisa havia mudado. Era tempo de um salvador, de um herói. Verdade seja dita, de um anti-herói. De um anti-Barcelona. José Mourinho estava destinado a envolver-se na maior disputa individual e estava destinado a estar envolvido com as melhores equipas do mundo. O destino ordenava o envolvimento dele nesta rivalidade. Ele também já tinha a sua bulha pessoal com o Barcelona. Com Chelsea e no Inter o saldo era positivo, embora não perfeito. No entanto quando chegou ao Real foi mais complicado. O que Mourinho fez, ou teve de fazer, para reequilibrar a balança entre os clubes foi trazer o Madrid de novo ao nível do futebol. Mourinho um dia acordou o Real na cama do quarto do castelo a gritar que eles já não eram Reis. “Trabalhemos como os outros porque agora somos povo.” O Real não recuperou o nobre estatuto original, mas recomeçou a ganhar. Já era um princípio.
E lá andávamos com duas equipas a definir o futebol mundial. Dois símbolos, duas mentalidades. O Homem, a Espanha e o mundo do futebol paravam para ver como as narrativas se desenrolavam. Cada uma de cada vez, diferente. Eram sempre as duas, não interessava mais ninguém. Era o pior dos tempos, era o melhor dos tempos. Prognósticos? Em caso de derrota, o Real diz “adeus” ao título? Encontro decisivo para a dupla Messi-Ronaldo no que diz respeito à Bola de Ouro (a última imagem antes das votações, seja ela positiva ou negativa, muitas vezes tem um peso significativo)?

Luís Figueiredo 

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